Reflexos de uma trajetória intelectual conjunta ao longo de décadas – uma homenagem ao Joaquim Feio
Capítulo 4 – A quem servem os modelos de macroeconomia – os impasses da esquerda americana
Seleção e tradução de Júlio Marques Mota
8 min de leitura
Nota de editor: dada a extensão do texto, o mesmo é publicado em duas partes, hoje a segunda.
Texto 4 – Seis maneiras através das quais os modelos económicos existentes estão a matar a economia (2/2)
A suposta ciência não corresponde ao mundo real.
em 5 de Abril de 2023 (original aqui)
(conclusão)
2. Os modelos assumem que os salários dos trabalhadores são um reflexo direto da sua produtividade.
Jamie Dimon produz 917 vezes o que o trabalhador médio do JP Morgan Chase produz? O CEO do McDonald’s produz 2.251 vezes o cozinheiro ou caixa médio? A resposta é obviamente não.
As pessoas não recebem o que valem. Recebem o que têm o poder de negociar. Qualquer um de nós não pede um aumento quando a empresa acaba de demitir uma divisão inteira e o desemprego é alto. E se a empresa acabar de declarar que tem muitas vagas por preencher? Isso é um bom momento. Gostaríamos de pensar que o nosso trabalho difícil e o valor do nosso próprio trabalho para a empresa determinam o nosso salário, mas basta olhar ao redor do escritório. Na maioria das vezes, é o poder de negociação, não o valor que o trabalhador fornece, que conta a história.
Mas as premissas dos manuais de economia [Econ 101] incorporadas nesses modelos em termos de orçamento afirmam que os salários são um reflexo direto e perfeito das contribuições económicas de um trabalhador, que cada trabalhador recebe exatamente o que vale. [Por outras palavras, fazem-nos crer que nos pagam exatamente de acordo com a nossa produtividade marginal].
Não há discriminação no universo alternativo criado pelos modelos, pelo que, estruturalmente, salários mais baixos para mulheres, imigrantes e pessoas de cor devem necessariamente refletir a sua menor produtividade. Separadamente, os especuladores de Wall Street, que não produzem praticamente nada de valor para ninguém além de si mesmos, são do maior valor económico porque são mais bem pagos. Alguém realmente acredita que os barões de private equity [fundos de investimento privado] são mais produtivos na sociedade do que os professores? Os modelos sim, pois assumem que os salários refletem perfeitamente a sua produtividade.
Se os modelos entendessem corretamente que o poder desempenha o papel principal nos salários, veriam o aumento do salário mínimo como correção para o desequilíbrio de poder de um mercado de trabalho frouxo ou de uma indústria exploradora. Mas como os modelos associam salários com produtividade, elevar o salário mínimo, por definição, eleva o rendimento do trabalhador acima de seu valor económico e, portanto, deve causar perdas substanciais de empregos. Isto é exatamente o que o modelo REMI e o modelo sintético da Universidade de Washington e o modelo do Instituto de Políticas de Emprego e o modelo CBO dizem. O modelo Diamond-Zodrow do Instituto Baker chegou à conclusão ridícula de que um salário mínimo mais alto afeta negativamente a saúde das crianças, modelando que um aumento de 1% no salário mínimo causou uma diminuição de 0,1% na sua “altura para a idade”, apesar de evidências empíricas em contrário., apesar de evidências empíricas em contrário.
Essas previsões ocorreram durante toda a Luta por 15 dólares, à medida que os salários mínimos aumentaram em todo o país. E se os modelos estivessem certos, Seattle, Califórnia, Nova York e Flórida teriam tido perdas substanciais de empregos. Mas adivinhem? Isso nunca aconteceu. Pelo contrário, as empresas, particularmente aquelas afetadas pelo salário mínimo, como os restaurantes, cresceram. Nem uma vez esses aumentos causaram perdas de empregos previstas no mundo real.
Isso reflete um facto simples sobre a economia. Quando mais trabalhadores têm mais dinheiro, eles vão gastar em mais empresas. E essa maior procura de bens e serviços pela parte do consumidor gera crescimento e inovação, o que, por sua vez, impulsiona a produtividade. Por outras palavras, salários mais altos são uma causa de produtividade, não um reflexo disso.
3. Os modelos pressupõem que os impostos mais elevados sobre as empresas e as pessoas de rendimento elevado reduzem o crescimento e o investimento.
Enquanto grupos de pressão empresariais e os muito ricos que eles representam, se queixam regularmente de que os impostos matam empregos e retardam a atividade económica geral, tal relação não é detetável no registo histórico. Na verdade, o oposto está mais próximo da verdade: quando a taxa de imposto marginal máxima estava acima de 90% na década de 1950, o crescimento económico geral era notavelmente forte e de base ampla. Quando a taxa máxima foi reduzida para 28%, na revolução de Reagan, a desigualdade explodiu e o crescimento caiu por décadas à medida que o dinheiro foi sendo redistribuído a favor dos mais ricos.
Mas os modelos económicos que controlam o debate político de D.C. tomam como verdade absoluta a hipótese de que as pessoas trabalharão menos se forem sujeitas a tributação mais forte e que esse efeito é muito grande. Qualquer aumento nas taxas de imposto sobre os ricos, portanto, reduz a quantidade de trabalho realizado pelas pessoas muito mais ricas e, uma vez que as pessoas ricas são no mundo desses modelos as pessoas mais produtivas ao redor, isso significa uma redução acentuada na produção económica.
Na realidade, é claro, as pessoas ricas não organizam as suas vidas como uma estratégia de evasão fiscal, muito menos trabalham menos se ganham menos. O modelo assume a eliminação de qualquer fator que leve as pessoas a ganhar muito dinheiro; egoísmo, para dar um exemplo.
Um corolário como pressuposto é que os altos rendimentos surgem num mundo de concorrência perfeita, onde novos produtos são capazes de vencer os já existentes somente pela força de seu génio, oferta e procura estão sempre em perfeito equilíbrio, e monopólio é apenas o nome de um jogo de tabuleiro. Neste mundo, todos os impostos e regulamentos conduzem obrigatoriamente à redução da despesa produtiva das empresas e, assim, à redução do crescimento económico.
Os modelos não têm como interpretar coisas que geram atividade económica, mas que podemos querer menos, por exemplo, emissões de carbono ou poluição da água.
O modelo de Impostos e Crescimento da Fundação Tributária, por exemplo, assume arbitrariamente que todos os impostos sobre a folha de pagamento são totalmente suportados pelos trabalhadores, e os impostos sobre o lucro das empresas são assumidos como suportados 50% pelo capital e 50% pelos trabalhadores. Portanto, os cortes de impostos sobre as empresas sempre “aumentarão o volume de capital e expandirão toda a economia, incluindo salários e emprego”, enquanto um corte de impostos sobre a folha de pagamento não fará nada pelo investimento nem pela expansão económica. Em contrapartida, um aumento do imposto sobre as sociedades prejudicaria o investimento e o crescimento.
Não é por acaso que isso é totalmente independente do comportamento humano real ou das medidas de produtividade, é o objetivo do modelo. No mundo real, os intervenientes dominantes no mercado tiram regularmente partido da sua posição para extrair rendas excessivas e sufocar a inovação. Qualquer um que tenha voado num jato comercial ou tentado comprar ingressos para concertos experimentou a competição descontroladamente imperfeita que existe na economia americana.
Políticas públicas bem elaboradas podem resolver esses problemas ao visar impostos especificamente nos locais onde as rendas são extraídas, tornando toda a economia mais produtiva. E a aplicação da legislação anti trust pode igualmente provocar uma concorrência significativa, onde pode ter sido corroída por agentes de mercado predatórios. O único lugar onde isso não faz sentido é no meio de um modelo económico.
4. Os modelos pressupõem que o investimento nas pessoas pobres reduz a atividade económica e que os imigrantes são menos produtivos do que os trabalhadores domésticos americanos.
O que acontece se o governo der ajuda financeira às pessoas necessitadas?
Se obtiver 50 dólares para alimentação, será que se comerão mais alimentos? Se obtiver 100 dólares para cuidados médicos, será que irá mais vezes ao médico? Se obtiver 100 dólares para um aluguer, será capaz de pagar um apartamento? E algum desses benefícios aumentará o seu bem-estar pessoal?
No mundo dos modelos, tudo isso é irrelevante. Não importa para que serve o dinheiro, o resultado de qualquer assistência federal é que você trabalhará menos horas. Sempre assim.
Enquanto os modelos insistem que os ricos devem receber salários mais altos ou impostos mais baixos para incentivá-los a trabalhar mais, eles sustentam que mais apoio económico para pessoas de baixo rendimento leva a trabalhar menos. Por outras palavras, os ricos exigem a promessa de ainda mais riqueza para motivá-los a serem produtivos, mas os pobres devem ser ameaçados de miséria para os motivar.
O modelo Diamond-Zodrow, do Instituto Baker, faz o pressuposto explícito de que “qualquer aumento nas transferências governamentais… reduz a oferta de trabalho à medida que os indivíduos escolhem ‘consumir’ mais lazer porque o seu nível de rendimento aumentou”. O modelo da Fundação Tributária adota um pressuposto semelhante: que as pessoas escolhem entre lazer e trabalho, e que tais escolhas são fortemente impactadas por impostos e transferências.
Este tipo de pressupostos é como a análise feita pelo modelo orçamental de Penn Wharton à proposta do Build Back Better de Biden pode concluir que “baixar a idade de Medicare a 60 e dar subsídios de ACA mais generosos reduziriam o risco financeiro das famílias, de modo que elas poupam mais e trabalham menos”, e que reduzir os preços dos medicamentos Medicare reduz de forma semelhante as horas trabalhadas (e, estranhamente, reduz tambémas poupanças domésticas).
Isto é algo infame. Estes modelos assumem consequências negativas do investimento do governo em habitação a preços acessíveis ou em necessidades básicas de segurança alimentar que possibilitam a participação das pessoas na sociedade. É uma compreensão tipo Ebenezer Scrooge da economia: As pessoas são pobres devido à sua própria preguiça, então qualquer centavo que que se lhes dê apenas as encoraja a trabalhar ainda menos.
A maioria dos experiências com rendimentos básicos, créditos de imposto infantil e outras transferências mostram que os investimentos básicos permitem que as pessoas participem mais plenamente na economia e na vida das suas comunidades. Além disso, fornecer um padrão básico de vida também pode estimular ganhos económicos futuros. Apenas um sociopata poderia concluir inequivocamente que dar comida às pessoas sempre as faz trabalhar menos.
Os modelos são ainda mais diretos quando se trata de trabalhadores imigrantes. O modelo de Penn Wharton incorpora um pressuposto básico de que, como se se tratasse de uma lei natural da economia, os imigrantes produzem menos do que os trabalhadores americanos.
Isso é estúpido e errado, já para não dizer que é racista. Enquanto os trabalhadores imigrantes tendem a receber menos do que outros trabalhadores, não há dados que mostrem que eles produzem menos. De facto, a pesquisa até sugere o oposto: que o aumento da imigração está ligado ao aumento do emprego, maior rendimento e maior produtividade.
A janela do orçamento a dez anos reduz os investimentos em crianças que os compensem ao longo de suas vidas.
5. Os modelos funcionam com base em horizontes orçamentais a dez anos que forçam o pensamento a curto prazo.
Pelas regras do Congresso, o modelo mais conhecido do país, o modelo CBO, é necessário estimar os impactos orçamentais das propostas de políticas ao longo de uma janela de dez anos. Por esta razão, Penn Wharton, a Fundação Tributária, e outros seguem o exemplo. Essa janela de uma década cria os números espantosos de milhões de milhões de dólares que fazem os grandes títulos dos media quando o Congresso debate a política económica.
Este prazo arbitrário é o pior dos dois mundos. É tempo suficiente para que a precisão das estimativas se torne altamente questionável, e também é muito curto para começar a avaliar o impacto económico das intervenções em questões geracionais como mudanças climáticas ou educação infantil.
Por exemplo, essencialmente, todos concordam que o infantário universal produz benefícios extraordinários para a educação das crianças e, essencialmente, todos concordam que esses investimentos criarão melhores resultados para toda a vida de uma criança.
Mas em dez anos, esse investimento não será realizado. As crianças matriculadas na educação infantil aos três anos de idade ainda estão no ensino médio dez anos depois, tempo insuficiente para ver muito (se houver) impacto económico, agora que o trabalho infantil é (geralmente) desaprovado. Portanto, a educação infantil universal é basicamente inútil para esses modelos, não importa quanto crescimento económico possa criar nas próximas seis ou sete décadas. Acredita-se que os investimentos em crianças paguem por si mesmos, exceto no caso de um modelo orçamental.
Algumas políticas têm um alcance suficientemente curto para que o impacto seja realizado na janela do orçamento. Mas o corte arbitrário de dez anos não pode ser apropriado para todas as intervenções políticas. Ele literalmente altera o planeamento a longo prazo, o que é o mais desaconselhado que se pode obter.
6. Os modelos medem o PIB e as receitas em vez do bem-estar.
O crescimento económico é geralmente uma coisa boa. Traz mais pessoas para a economia e cria mais recursos para produzir soluções para os problemas humanos. Isto é fundamental para o funcionamento dos mercados.
Mas nem todo o resultado humano positivo pode ser medido em termos de crescimento do PIB ou aumento do rendimento. Como Bobby Kennedy tão eloquentemente apontou nas suas observações em março de 1968 na Universidade do Kansas, um foco exclusivo sobre essas medidas estritamente numéricas da economia conta napalm e armas nucleares como positivas, ignora o valor da saúde, educação e sentimento de comunidade, e “mede tudo, em suma, exceto o que faz a vida valer a pena.”
Esse hiato de medição persiste obstinadamente nos modelos orçamentais atuais, que não têm como interpretar coisas que geram atividade económica, mas que podemos querer menos, por exemplo, emissões de carbono ou poluição da água. Visto como um modelo de inputs, a redução das emissões de carbono e da poluição pode tender a refletir menos atividade económica – um negativo líquido.
É certamente verdade que o valor económico dessas reduções é difícil de medir apenas em termos de dólares. E pode até não ser desejável que os modelos económicos tentem calcular um preço literal em tiroteios em massa ou o valor presente líquido de um apocalipse climático. Mas na medida em que continuamos a deixar os resultados numéricos desses modelos falhados a impulsionarem as nossas tomadas de decisão económica, impedimos até mesmo a possibilidade de reduzir os fatores que queremos menos para construir uma sociedade melhor para as próximas gerações.
QUANDO ESCLARECEMOS EM QUE MEDIDA os modelos económicos dominantes que usamos para julgar a política são manipulados contra as famílias trabalhadoras e a economia em geral, a causa da extraordinária transferência ascendente de riqueza nas últimas quatro décadas torna-se muito mais fácil de entender. Os formuladores de políticas em Washington basearam as suas decisões em modelos que são consistentemente tendenciosos em relação ao status quo, aos ricos e ao capital privado. Eles muitas vezes equivalem a pouco mais do que uma versão MadLibs [jogo de palavras inventado em 1950] da economia trickle-down, apesar do seu status exaltado nos média e na política.
A estrutura básica desses modelos permanece sempre fixa. O governo é demasiado ineficiente e os investimentos públicos são muito caros para fazer a diferença; a concorrência é perfeita, a concentração do mercado é imaginária e o poder empresarial deve ser deixado sozinho; a discriminação não existe, todos os mercados estão em equilíbrio, e os salários correspondem perfeitamente à produtividade. Os adjetivos, políticas e números podem variar um pouco, mas a história é sempre a mesma. Qualquer política que beneficie o capital, a indústria ou os ricos é um bem puro. Qualquer política que beneficie as pessoas diretamente é ineficiente, mata os incentivos e prejudica a economia em geral.
Ao inclinar o campo de jogo para restringir o investimento, minar a regulamentação, procurar reduzir os impostos e tornar os salários mais baixos, esses modelos económicos estão a fazer o seu melhor para matar a economia. Eles podem produzir um denso discurso técnico em termos de economia, um discurso denso e com uma matemática elegante que soa muito bem e assume ares de ciência quando é citado na primeira página do The New York Times. Mas, olhando mais de perto, parece muito mais um esquema de proteção para os ricos e poderosos do que uma ciência social.
Até que construamos modelos que reflitam como a economia realmente cresce, os nossos líderes e os média devem olhar para os modelos de economia com ceticismo. Os modelos que tentam transmitir os efeitos da política devem refletir o entendimento básico de que, quando há mais pessoas a terem mais dinheiro, isso é bom para os negócios. Precisamos de modelos que entendam o princípio básico de que, quando a economia cresce a partir do centro, isso é bom para todos, e quando mais pessoas participam na economia, a sua procura como consumidores impulsiona a criação de empregos e estimula a inovação. Por outras palavras, os nossos modelos económicos devem refletir o mundo como ele realmente é, não como foi retratado nas salas de aula de introdução à Economia do século XX.
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O autor: Nick Hanauer [1959 -] é um empresário e capitalista de risco com sede em Seattle e fundador da Civic Ventures, uma incubadora de políticas públicas. É licenciado em filosofia pela Universidade de Washington. (para mais info ver wikipedia aqui)



