Espuma dos dias — Entre duas festas de fim de ano letivo das minhas netas e de duas viagens em carro Uber – um olhar sobre este nosso país. Por Júlio Marques Mota

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Por Júlio Marques Mota

Coimbra, 28 de junho de 2024

 

Hoje, dia 28, foi um dia sobrecarregado para mim. Quis preparar o texto sobre as pessoas de mãos limpas, sobre as pessoas que dirigem os destinos da União Europeia. Nisto gastei a manhã. Saio para ir às compras e passo pela loja de pessoa amiga que me questiona sobre o debate Biden versus Trump. Disse-lhe que foi transmitido a horas que, pela minha idade, já não me são recomendáveis para ver televisão. E comentários, já viu? Não, foi a minha resposta.

Almocei, mas a questão do meu amigo incomodou-me, até porque era algo que também queria saber. Resolvi procurar algum esclarecimento e vou direto ao blog de Erza Klein, do New York Times. Só era permitida a entrada a pagar. Vou então ao sítio de Matthew Yglesias. Encontro um texto esclarecedor e significativamente muito carinhoso com Biden, mas exigente quanto à postura a tomar para as eleições nos Estados Unidos.

Traduzo-o e envio-o para toda a gente. Depois saio para ir a uma festa de despedida: a minha neta despedia-se da sua escola primária, escola onde “aprendeu a crescer e a preparar-se para o futuro”. Este era um dos temas das canções cantadas a plenos pulmões por algumas dezenas de alunos que terminavam assim o seu primeiro ciclo. Foi comovente ver dezenas de crianças cheias de força e de crença num futuro a que têm direito, mas talvez tanto ou mais comovente que isto foi ver o empenho de professores, diretores escolares, funcionários da escola, de todos eles, empenhados em tornar esse dia de despedida num dia de festa para todas aquelas crianças que da sua escola irão sair para passarem a percorrer os dias de vida difícil que as esperam. Um empenho que não cabe em nenhuma linha de nenhum currículum, mas, parafraseando Jorge Sampaio, diríamos que há mais vida para além dos currícula, há o espírito de missão que enche as suas e as nossas almas. Foi isso a que eu assisti e que me comoveu.

Ali havia Escola Pública no duplo sentido, havia Escola Pública no sentido da Instrução e era dela que as crianças falavam nas suas canções, na sua linha de terem sido preparadas para o futuro, havia Escola Pública no sentido da Educação, do viver em sociedade, do saber também viver em festa, uma aprendizagem dos valores que o viver dignamente em sociedade implica. Uma aprendizagem em coletivo, com professores, funcionários e alunos, todos em conjunto e assumidos no quadro de um espírito de missão e, no fundo, é este espírito de missão que serve de dique contra a degradação do ensino que tem sido criada. Um espírito de missão que as sucessivas referências ao futuro atestavam e as sucessivas chamadas pelos professores, individualmente recebidos com uma enorme salva de palmas, confirmavam.

Já em casa e a escrever este texto, lembro-me do que li algures sobre a discussão entre instrução pública e educação nacional. Lembro-me vagamente do que disse Rabaut Saint-Etienne, deputado do Tiers-État em 1789. E fui procurar. Recordemos, pois, o que nos disse este deputado em 1789:

“é preciso distinguir entre instrução e educação nacional. A instrução pública ilumina e exercita o espírito, a educação deve formar o coração; a primeira deve dar-nos as luzes, a segunda deve dar-nos as virtudes; a primeira fará o lustre da sociedade, a segunda torná-la-á consistente e forte. A instrução pública exige escolas, colégios, academias, livros, instrumentos, cálculos, métodos; está confinada dentro de muros; a educação nacional exige circos, ginásios, armas, jogos públicos, festivais nacionais; o concurso fraterno de todas as idades e sexos, e o espetáculo imponente e gentil da sociedade humana reunida; requer um grande espaço, o espetáculo dos campos e da natureza”. Fim de citação

O que esta festa me mostrava era de que tínhamos ali bem evidentes os dois planos da formação a que alude Rabaut Saint-Etienne, o da instrução e o da educação, o da transmissão de conhecimentos e o da aprendizagem dos valores, tínhamos ali a escola que Abril nos deu – faltam-lhe apenas os meios financeiros para que verdadeiramente o espírito de Abril se possa ali aprofundar, sobretudo ao nível da transmissão de conhecimentos- turmas mais pequenas, melhores programas e melhor ajustados às faixas etárias a que se destinam, mais professores, mais funcionários de apoio. Uma melhor Instrução Pública resulta também numa melhor Educação Nacional, não o esqueçamos. E é por aqui, com estes dois requisitos, uma melhor e mais profunda instrução, uma melhor educação, que se traça o caminho que as jovens gerações devem percorrer e que nos cabe a nós ajudar a fazer. E nesse sentido há ainda muito a fazer, reconheçamo-lo, mas primeiro que tudo, há muito a desfazer, sobretudo, há que desfazer o caminho da infantilização que gerações de “peritos” incompetentes e/ ou de políticos maldosos têm vindo a estabelecer, e, ironia das ironias, alguns deles têm-no feito em nome de Abril!

Por volta das 17 horas saí da Escola primária de Montes Claros. Chovia a cântaros. Tinha depois uma outra festa, a da minha neta mais velha, que iria à FNAC cantar La vie en Rose, de Piaf, enquadrada numa audição da Escola de Música que frequenta. Fomos de táxi, não, não fomos de táxi, fomos de Uber.

Na ida conversei com o motorista. Perguntei-lhe qual seria o seu nível de rendimento mensal a trabalhar na plataforma. Diz-me: obtenho cerca de 1600 euros mês. Quantas horas por dia, quantos dia por semana? A resposta calmamente dada foi: 12 horas por dia, 6 dias por semana. Não ganho só isso. O quê mais, perguntei. A explicação é simples: trata-se de alguém com dinheiro, na casa dos 40-45 anos, teve dinheiro para comprar três carros, o dele e mais dois, e estão todos ao serviço de duas plataformas, a Uber e a Bolt, e tem, pois, dois motoristas ao seu serviço. Não paga leasing de nenhum dos carros. Pelas contas feitas, ganhará nos outros carros o equivalente ao leasing, 250 euros por semana e por carro e o equivalente a um outro ordenado de 1000-1200 euros em receitas destes dois carros. Total de receitas: 1600+2000 correspondentes ao leasing dos dois outros carros, ou seja, mais 600+600 de receitas líquidas destes dois carros. O que fico a saber é que um motorista de Uber ganha em média 1000-1200 euros por mês, por 12 horas ao dia, mas a seis dias por semana. Isso significa 300 horas mês, digamos, 4 euros por hora! E a terminar a conversa, diz-me: pode achar pouco, mas repare, isto é bem melhor do que ir ganhar o salário mínimo para as obras. Não comentei esta frase, mas ela assinala uma posição bem curiosa: para quem vive bem, a referência para o salário dos outros é a remuneração mais baixa da escala de rendimentos: o de servente das obras. Esta posição não é assim por acaso: com ela se justificam todos os salários abaixo da ideia de salário profissional condigno, são justificáveis desde que sejam melhores que a remuneração de servente nas obras! 

Desta realidade nada sabem os meninos que cantavam na Escola Primária de Montes Claros. O Abril que os militares nos deram está a esfumar-se, está a ser substituído pela uberização da sociedade, é o que isto mostra. Insisto ainda e digo: a minha neta paga 4,90 euros por este trajeto, de Oncologia à Fnac. Como é que consegue essas receitas, questiono eu, a praticarem-se estas tarifas? A resposta deixou-me aparvalhado. Não, não, eu faturei 6,70 euros. Irei receber este valor menos a comissão da Uber. Cerca de 25%, digo eu. Não, isso depende, a comissão é variável. A esta hora é possível que seja de 25%. E a diferença entre o valor que a minha neta paga e o que o senhor fatura, quem é que a perde? Bom, isso é uma promoção da Uber, é com eles, não tenho nada a ver com isso. E mostra-me o visor com o valor de 6,70 euros de faturação à Uber. Isso é com eles.

Façamos as contas: 6,70 de fatura menos a comissão à Uber dá 5,02 euros. A minha neta pagou à Uber 4,90 euros, ou seja, a Uber, em promoção, oferece-lhe a sua comissão. Esta é a concorrência feita pela Uber e, a este nível, não há táxi que financeiramente resista a estes preços, a menos que as remunerações dos taxistas clássicos desçam, se ajustem a esta concorrência feroz e as passem a situar ao nível dos migrantes que procuram guarida em Portugal. Tenha-se consciência disso, tenha-se consciência de que se trata de muita gente com mais de 60 anos, cedo demais para se reformarem, tarde de mais para procurarem outro emprego. Esta é a uberização feita sob a alçada dos neoliberais do PS e em que tudo aponta que se vá ainda aprofundar com a atual coligação no Poder. E, necessariamente, o caminho nas urnas desta gente é o Chega.

Na volta da FNAC, a minha neta chama um outro Uber. Vem um Citroen C4 SUV, extraordinariamente cómodo. Faço as mesmas perguntas, mas recebo respostas diferentes porque o seu contexto não tem nada a ver com o caso anterior. Trata-se de um indiano que tem andado de forma precária a percorrer a Europa: 2 anos a trabalhar em Itália, dois anos a trabalhar na Alemanha e há já dois anos a trabalhar em Portugal. Fala português com alguma dificuldade, mas entende-se. Paga de leasing 300 euros por semana, obtém líquido por mês cerca de 1200 euros e trabalha 7 dias por semana, ganha, pois, um pouco menos de 4 euros por hora.

Esta é a realidade, mais uma vez, que os nossos meninos e meninas ignoram, e ainda bem. Esperemos que quando crescerem tenham pela frente uma realidade bem diferente daquela que é agora por todos nós vivida, e que é, por eles, completamente desconhecida, mas para isso é necessário que todos nós nos esforcemos coletiva e politicamente, que façamos nós, os seus pais e/ou avós, mais por isso do que temos feito até agora, em vez de andarmos a meter politicamente a cabeça na areia como, por exemplo, têm andado a fazer as elites americanas do Partido democrata, como se viu na noite de ontem.

E a propósito de Biden, sinto-me cansado, depois de ter traduzido nesta tarde parcialmente o artigo de Nate Silver, intitulado Joe Biden deve desistir. Vejo à noite os meus sítios habituais quando quero ver tratados temas como o de Biden e os títulos publicados são pavorosos:

  1. Elliot Kirschner-Thoughts after the debate
  2. The New Yorker- Susan B. Glasser- Was the Debate the Beginning of the End of Joe Biden’s Presidency?
  3. The Nation-Jeet Heer – Trump Was Terrible. But Biden Was Worse.
  4. The New Republic- Is There a Good Reason Not to Panic? Well, No, Not Really.
  5. Erza Klein- Ezra Klein on Why the Democrats Are Too Afraid of Replacing Biden
  6. Harold MeyersonThe Democrats Must Dump Biden. Here’s How.
  7. David Dayen – Biden’s Inner Circle Deserves Some Blame Too
  8. Robert Kutner – A Tarnished Silver Lining

Como assinala Nate Silver no texto que comecei hoje a traduzir:

“Mas não me venham com mais tretas sobre como a idade é apenas um número ou uma fixação dos meios de comunicação social – ou como mudar de candidato não é assim que se faz. Estamos a jogar o jogo de póquer mais arriscado que se possa imaginar e devemos fazer tudo o que estiver ao nosso alcance para melhorar as nossas probabilidades, mesmo que seja apenas saltar de 25% para 35%.

Como escrevi na altura, o único ponto positivo que salvava a realização do debate tão cedo era o facto de dar aos democratas a opção de puxar a alavanca de emergência e instar Biden a desistir antes da convenção, se o debate corresse realmente mal. Bem, as alavancas de emergência existem por uma razão. Correu pior do que eu alguma vez imaginei – e eu estava à espera que corresse mal. É altura de Biden considerar o que é melhor para o seu partido, o que é melhor para o país e o que é melhor para o seu legado – e isso é não procurar a presidência até aos 86 anos.” Fim de citação

É sobre este estar a jogar-se o mais perigoso jogo de poker alguma vez imaginável que passaremos agora a concentrar a nossa atenção.

 

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