CARTA DE BRAGA – “de Kant ao saque” por António Oliveira

Immanuel Kant, nome maior do Filosofia, e dos seus ‘ramos’, ética, estética, epistemologia e metafísica, cujas considerações perduram ainda na nossa época, embora a grande maioria das pessoas, se pergunte quem terá sido, nasceu em Abril, há trezentos anos. E de tais considerações relevam-se as que falam sobre os antagonismos no seguimento histórico, da vida, das relações na sociedade e da necessidade de uma paz perdurável.

Talvez haja por aí, muito ‘mandante’ com necessidade de o reler –se algum dia o tiver feito, e ter conseguido juntar e interpretar as letras que formam cada palavra– agora que a unidade e a paz europeia parecem ter regredido, devido ao avanço do eurocepticismo e negacionismo, empurrados por um nacionalismo extremista, mesmo contrários aos interesses de cada país.

Numa das suas crónicas, talvez premonitória, no DN, o professor e filósofo Viriato Soromenho Marques, escrevia já em Março, ‘O europeísmo foi engolido pela máquina trituradora do belicismo. Nos próximos anos, pendularmente, o nacionalismo regressará em força. A Alemanha será comprimida entre uma França ressentida e uma Polónia militarista, atrelada a Washington. Se, ou quando, o euro vacilar, a “balança da Europa” entrará em ebulição (…) O crepúsculo ocidental é desolador. Nem um pingo de transcendência. Uma ruidosa e amnésica vontade de poder, sem alma nem culpa’.

Os mesmos antagonismos referidos por Kant? Aliás, parece estarem a repetir-se os dramas de 1938, a condicionar a política ocidental, com os pacifistas a fazer o papel de Chamberlain, a ceder às petições territoriais de Hitler, e os resistentes como Churchill, mas numa posição mais difícil; os políticos que querem resistir ajudando a Ucrânia, os que se põem ao lado de Putin, e do gordo norte-coreano Kim Jong-Un, e uma opinião pública que não está minimamente interessada nem preparada para uma guerra declarada com a Rússia.

Amorim – ‘Munição norte-coreana

Le Monde, 23.06.24

Na verdade, o ‘La Vanguardia’ dá conta, no último e passado Abril kantiano, que o gasto militar global atinge ‘níveis sem precedentes’ em 2024, empurrado pela guerra na Ucrânia e pela tensão no Médio Oriente, para 2.443.000 milhões de dólares, quase 7% mais do que em 2023. Mas o gasto militar europeu atinge os 558.000 mil milhões de dólares, mais 16% do que no ano anterior, até por uma razão bem simples, ‘Para os estados europeus da OTAN, a guerra da Ucrânia, alterou significativamente a maneira de olhar a questão da segurança’, de acordo com um investigador do Instituto Internacional de Pesquisa para a Paz de Estocolmo.

Um outro jornal informa também que a Alemanha está a ampliar e modernizar o seu exército numa preparação para a guerra, além de estar a analisar a recuperação do serviço militar obrigatório, atendendo a que, agora, as guerras são híbridas, pois além dos exércitos de terra, mar e ar, vai criar um outro, o da cibersegurança, para o que conta com 100.000 milhões de euros, e uma opinião pública crescentemente favorável, onde os partidários de reinstalar a mili, passaram de 45 a 52%.

Por cá e voltando a Soromenho Marques, na crónica de 18 de Maio, a relembrar Kant, ‘Não cessa de me surpreender a indiferença dos nossos eleitos políticos, do Governo e da oposição, mergulhados em trivialidades, perante a questão existencial da paz e da guerra. A maior ameaça à nossa existência colectiva, reside no silêncio e cumplicidade de quem nos governa e representa, perante aqueles, ao nosso lado, que alimentam o rastilho aceso à espera de explodir em todo o Velho Continente (…) Num conflito em que estão envolvidas quatro potências nucleares, a paz só poderá nascer do primado da política sobre as armas. Em cima da mesa deveria estar a necessidade de travar a escalada, cessar os combates, e assinar tréguas duradouras’.

E o veterano escritor a cronista Enric González, escreveu também no mesmo Abril kantiano, ‘A era da razão, que começou no século XVII, pode dar-se por terminada. Mas a mais curiosa de todas as ideias que por aí circulam, é a de um governo mundial secreto a dirigir-nos as vidas. Temo que não seja exactamente assim; são os megamilionários da informação e recursos naturais, que as manipulam à luz do dia e sem nenhum segredo. Mas não dirigem o mundo, limitam-se a saqueá-lo, e não há ninguém a comandar. Creio que é a mais verosímil

E não há Kant que nos valha!

António M. Oliveira

Não respeito as normas que o Acordo Ortográfico me quer impor

1 Comment

  1. Talvez não seja má ideia voltar a ler “A paz perpétua”, de Emmanuel Kant, para identificar um caminho que para ela conduza ou, pelo menos, para uma transitória. Certamente não é o que os Estados Unidos desejam ,nem aquilo a que a UE se presta. Diabolizar a Rússia e criminalizar os seus dirigentes, a nada conduzirá, salvo a uma guerra total. Do artigo, registo com agrado que em relação ao líder da Coreia do Norte se aplicou o epíteto de gordo. Coisa que até poderá ser encarada como positiva se lhe apresentarem o velho ditado “Gordura, Formosura”

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