Nasci no final da Segunda Guerra Mundial, a 26 de Julho, na aldeia de Casal de Baixo, numa das aldeias que constituem a Chã de Alvares, no concelho de Góis, portanto dentro da Beira Litoral, litoral esse a mais de 60 quilómetros. Ali, vivi até aos dez anos.
Fui rodeado dos mimos da minha mãe, Adelina, da minha avó paterna, Maria do Rosário -não conheci mais nenhum avô-, de três irmãs -Maria de Lourdes, Irene e Esmeralda-, tendo esta última, a mais nova delas, mais sete anos do que eu, e, claro, do meu pai, Antonino, orgulhoso por ter um filho «macho», depois de ter tido quatro filhas, com uma delas, a segunda, falecida com treze meses.
Para além dos familiares, várias outras mulheres me acarinharam, as que trabalhavam lá em casa, duas delas a viverem connosco, como se familiares fossem, eram as criadas, ou seja, criadas com a família, sendo este o seu significado para todos nós, os que com elas viviam.
Lembro-me da Ducelina, sendo este o nome que fixei e que guardo com carinho, tão doce ela era para mim. Provavelmente, o seu nome próprio seria Dulcelina ou Docelina, mas para mim será sempre Ducelina pelo que significa: doce ou doçura.
O meu nascimento implicou que mais uma senhora fosse trabalhar lá para casa, a Susana, embora por um tempo limitado.
Todos os dias, bem cedo e a sair bem tarde, por vontade própria, havia ainda a Senhora Lusitana ou Lusitânia, pois o que guardo na memória é o som do seu nome quando por ela alguém chamava ou a ela se dirigia e, por isso, para mim é a Senhora Lusitana, que tinha ainda a responsabilidade de substituir a minha mãe nas suas ausências e nesse desempenho sempre respeitada por todos e, quem assim não procedesse, a começar por mim e pelas minhas irmãs, teria um raspanete da minha mãe ou do meu pai. A Senhora Lusitana funcionava como Governanta. Foi ela que me deu o primeiro banho. Claro, a autoridade máxima residia na minha avó Maria do Rosário; as suas determinações soavam-nos como sugestões, o tom da sua voz, que me recorde, nunca se alterou e o amor por nós estava sempre presente. A minha mãe era uma manifestação de amor por todos os seres vivos e pela natureza.
E a Margarida, pouco mais velha do que a minha irmã Maria de Lourdes, criada com a família. Era sobrinha da Senhora Lusitana. Para ela, fui sempre o “Meu Menino”, mesmo já adulto e pai.
Houve ainda a Idalina, que foi trabalhar lá para casa tendo eu já uns dois ou três anos, de onde viria a sair para se casar com o filho da Senhora Lusitana, exigindo que fosse eu o padrinho de casamento. Teria eu sete ou oito anos.
Alguém terá sido mais mimado do que eu?
Mas o que quero contar passou-se quando eu teria pouco mais de um ano.
Conta-me a minha irmã Irene, de vez em quando, que a nossa mãe me encontrou inanimado; e, aterrorizada, naturalmente recordando a morte da minha irmã, que apenas a Maria de Lourdes conheceu, pegou-me nos seus braços, mostrando-me às minhas irmãs e a mais quem estava em casa.
A minha aldeia está a menos de 3 quilómetros da sede de freguesia, Alvares, onde havia um médico. Transportes não existiam e, inanimado como eu estava, não poderia ser transportado no cavalo. Então, devidamente envolvido num lençol com um cobertor por baixo, fui colocado numa cesta, sendo esta colocada na cabeça da Margarida, com um chapéu de chuva aberto por cima de modo a que eu fosse protegido do Sol. A correr, levaram-me até ao consultório do médico.
Tinha uma enterite, da qual fui tratado com a reconhecida competência desse médico, cujo nome não recordo.
Outras crianças foram também acometidas da mesma doença. Nem todas escaparam com vida.
II
A família deixou a aldeia em 1955 e, sempre que a esta regressávamos, a Margarida era a primeira visita, na maioria das vezes ainda estávamos a arrumar as malas e apenas dávamos por ela junto de nós, pois a nossa casa era a sua casa e, assim sendo, não tinha de pedir autorização para entrar. Era o que mais faltava!
Um dia, cheguei à aldeia e a Margarida não apareceu. Passado algum tempo, dirigi-me à sua casa, tendo encontrado o seu filho, Víctor, que me informou ter a sua mãe dado entrada no Lar de Alvares. Logo perguntei se poderia visitá-la, ao que o Víctor me respondeu que sim, mas que fosse preparado para ela não me reconhecer.
Dessa vez, eu e a Célia, a minha mulher, fomos na companhia da irmã dela, Maria Emília, e do seu marido, António.
Aproximava-se a hora de almoço e o meu cunhado não dispensava o pão, que não tínhamos. Então, peguei no carro e, na companhia do meu cunhado, fomos a Alvares. Ali chegados, estacionámos e dirigimo-nos ao café-restaurante e, de repente, verifico que, um pouco à frente, caminhava a Margarida de braço dado com a sua nora. O meu coração bateu mais forte e a interrogação logo se instalou: será que a Margarida me vai reconhecer?
Com a dúvida angustiante dentro de mim, fui-me aproximando lentamente. De repente, a Margarida parou, voltou-se para trás, encarou-me e disse: “Oh, meu menino, bem me parecia que eras tu que vinhas aí!”