Quatro democracias em crise profunda: França, Reino Unido, Alemanha e Estados Unidos — França: Texto 6

Nota prévia:

Tenho consciência que os textos desta série podem colidir com alguns pontos de vista dominantes, como é o caso com a análise deste texto de William Bouchardon e de outros textos que se seguem, sobre a França.

Estamos a poucas horas de conhecer os resultados das eleições em França. O jornal Publico relata-nos que a França vai decidir se quer ser republicana ou anti-republicana. Um título que faz parte da montagem, que a classe política francesa, e não só ela, faz contra o papão Marine Le Pen e em defesa do seu próprio estatuto. Só falta dizer, como ironiza uma grande figura da esquerda francesa, Regis Castelneau:

“… as hordas nazis estão às portas do poder. E temos de fazer tudo o que estiver ao nosso alcance para os impedir de abrir campos de concentração e de construir câmaras de gás.”

Toda a classe política francesa contra Le Pen, todos os lagartos desta classe política, direita, centro e esquerda confundidos, em defesa do seu próprio estatuto. Quanto ao partido Renaissance de Macron, o que dele politicamente se pode esperar é já bem sabido, sobretudo depois da repressão sobre a França Popular, da repressão sobre os Coletes Amarelos. Quanto à Nova Frente Popular, que poderíamos considerar como o verdadeiro opositor a Macron e agora seu aliado contra Le Pen, que ironia meu Deus, eis o que nos dizem Victor Sarkis e Etienne Burle, num texto que iremos publicar na íntegra nesta série:

Com a Nova União Popular Ecologista e Social prosseguiu-se nesta dinâmica, ressuscitando de passagem os partidos laminados que poderiam ter desaparecido, o PS e o PCF. Ao garantir-lhes os seus deputados, Mélenchon salvou-lhes a aposta tendo sido mal pago na volta, tudo isto para voltar a entrar uma última vez nos meios de comunicação social, e agarrar alguns deputados para France Insoumise. Em suma, trata-se de uma aliança puramente oportunista e eleitoral que se fez em bases completamente confusas, e que relançou o pior do que existia na esquerda em termos de traição social, oferecendo-lhes um banho rejuvenescedor de que o PS, e o PCF, em menor medida, necessitavam.

É claro que, uma vez salvos do nada eleitoral que mereciam, os “aliados” de France Insoumise procuraram libertar-se das suas garras, de uma forma perfeitamente desonesta, é preciso dizer – mas o que mais podemos esperar dos malandros que povoam o PS, o PCF e a EELV?

Eles são tão reacionários que conseguiram passar a criticar Mélenchon pela direita, pela sua posição sobre a UE, sobre a Ucrânia, sobre Gaza – uma posição que é tão tímida, mas que os seus “amigos” da esquerda gostaram de ver absurdamente endurecida, a ponto de o fazerem passar por um frexitor, um bolchevique, um pró-Kremlin (se ao menos!), ou um pró-Irão. O último delírio: a France Insoumise seria” anti-semita”, pela sua posição sobre o conflito israelo-palestiniano, uma posição que é ainda idêntica à da ONU em todos os pontos. Mas, bom: no Reino dos clones, onde todos têm o mesmo programa e as mesmas ideias, é necessário tornar histérico o debate para que a menor nuance que seja do europeísmo atlantista possa ser tomada como uma heresia intolerável. (…)

Tanto que, após os resultados de 9 de junho, era aquele que deveria ser apelidado de “agente da CIA”, ou seja, Raphael Glucksman, que iria ditar as suas condições para uma união. Este bandido, vindo da direita liberal e sarkozysta, agente dos interesses da NATO na Geórgia sob Saakashvili, estipendiário do seu sogro Ghassan Salam (agente no mundo árabe dos interesses atlantistas, arquiteto da destruição constitucional do Iraque pós-Hussein, elemento de ligação da Sociedade Aberta de Soros no mundo árabe) viu-se capaz de impor a toda a esquerda as suas condições leoninas e uma capitulação incondicional perante a UE e a política internacional atlantista.”

Quanto à UE, o programa [da Nova Frente de Esquerda] declara a sua submissão e o seu apoio à integração europeia. Basta dizer que, nestas condições, as medidas sociais do programa são impraticáveis. Na melhor das hipóteses, teremos uma repetição das desventuras de A. Tsipras na Grécia, que teve as costas quebradas pela Comissão Europeia em 2015. Dada a dimensão da nossa dívida, o programa da “Nova Frente Popular” não pode ser financiado através dela, e sem sair da UE, não é sequer concebível qualquer aplicação alternativa. Mais uma vez, uma esquerda sem coragem cedeu às exigências de uma esquerda canalha, para gáudio dos crédulos que ainda acreditam ingenuamente nela. A união da esquerda é o ópio do povo de esquerda. E já é tempo de deixarmos de ser viciados nesta droga doentia” Fim de citação

Resta acrescentar que o que se pode esperar de Marine Le Pen, face aos recuos havidos no seu programa de 2020 e aos recuos no seu programa de 2024, é ser um partido de direita, talvez menos que os existentes (!), o que se pode esperar é que ela não irá ser diferente do que foi Macron, eventualmente apenas mais humana e depois de limpar as arestas mais agressivas do que foi a política de Macron. Teremos assim em França a mesma situação que se encontra na Inglaterra: não virá dali bom vento e a França ficará tão mal quanto o estava antes e, mais ainda, irá estar em Setembro-Outubro com a austeridade que a União Europeia não deixará de lhe impor. E nesta vaga austeritária a AD de Luis Montenegro que olhe bem para as costas dos outros.

Júlio Mota

Coimbra, 7 de Julho de 2024


Seleção e tradução de Júlio Marques Mota

9 min de leitura

França – Texto 6 – O ponto de viragem patronal do Agrupamento Nacional, prelúdio da sua chegada ao poder 

 Por William Bouchardon

Publicado por  em 31 de Maio de 2024 (original aqui)

 

Jean-Philippe Tanguy, Marine Le Pen e Jordan Bardella, principais figuras do Agrupamento Nacional. © Joseph Edouard pour LVSL

 

 

Almoços com os grandes patrões franceses, posicionamento geopolítico cada vez mais atlantista, oposição ao livre comércio largamente suavizada… Apoiado por excelentes sondagens, o Agrupamento Nacional está a preparar ativamente a sua potencial chegada ao poder, aproximando-se dos círculos económicos e virando definitivamente a página da era Philippot. Quer se trate de reuniões com figuras do mundo empresarial, mudanças programáticas ou o redesenho de alianças com outros partidos de extrema-direita, o RN é sempre discreto sobre esses desenvolvimentos. Sabe, de facto, que o seu eleitorado popular será a primeira vítima.

 

Mas onde estava Jordan Bardella? Durante semanas, o ultra-favorito das eleições europeias secou todos os debates televisionados, enviando os seus tenentes para o seu lugar. Certamente, ao aceitar os convites, ele teria sido alvo de todos os ataques e, portanto, tinha mais a perder do que a ganhar. Claro, ele também fez algumas reuniões e filmou vídeos para as suas redes sociais. Mas o delfim de Marine Le Pen parece, acima de tudo, ter trabalhado para convencer um grupo até agora bastante relutante à chegada do poder do RN: o patronato.

 

OPERAÇÃO DE SEDUÇÃO DO PATRONATO

Para além doas discursos oficiais dirigidos ao MEDEF, à Confederação das PME, aos movimentos de empresas intermédias (METI), à Francinvest ou à Croissance Plus, o jovem prodígio Lepenista  a sua chefe multiplicaram almoços secretos com muitas figuras do mundo empresarial francês. De Pierre Gattaz, ex-presidente da MEDEF, a Henri Proglio, ex-CEO da EDF e da Veolia, passando por membros do Clã Dassault, cada vez mais e mais personalidades do mundo empresarial querem interagir com os dois chefes do Agrupamento Nacional. Sophie de Menthon, líder do movimento dos empregadores éticos, Alexandre Louboutet, director de campanha de Jordan Bardella e Sébastien Chenu, deputado do RN, encarregam-se então da marcação dos encontros e da reserva em restaurantes chiques e discretos.

Naturalmente, os motivos dos interessados divergem: alguns estão desapontados com Macron – que, no entanto, redobrou os seus esforços nos últimos 10 anos para seduzir este grupo social – enquanto outros procuram especialmente estabelecer contactos “por precaução”. Habituados a não colocar todos os ovos no mesmo cesto, os grandes dirigentes empresariais mantêm há muito tempo contactos tanto com o Partido Socialista (PS) como com a direita (UMP / republicanos), antes de Macron reunir estas duas equipas à volta da sua pessoa. Mas esta era parece estar a chegar ao fim: não podendo concorrer à reeleição, o chefe de Estado enfrenta uma guerra de egos entre os seus potenciais sucessores. Edouard Philippe, Gabriel Attal, Gerald Darmanin, Bruno Le Maire… há muitos candidatos, mas nenhum se destaca do lote. Para os grandes patrões franceses, que sempre viveram em grande parte sob ordens públicas, seria, portanto, arriscado apostar tudo no campo macronista. Por conseguinte, a adesão ao Agrupamento Nacional é uma forma de garantir a preservação dos seus interesses.

Para seduzi-los, o partido de extrema-direita está a redobrar os seus esforços. Em primeiro lugar, em relação aos salários, o partido opõe-se resolutamente ao seu aumento, mas finge defender o poder de compra dos franceses. Assim, o partido opôs-se sistematicamente ao aumento do salário mínimo ou à indexação dos salários à inflação e prefere prometer um aumento dos salários obtido pela redução das contribuições sociais que, no entanto, garantem o bom funcionamento da Segurança Social. Uma posição idêntica à do campo presidencial.

Ainda em termos de poder de compra, o grupo também se opõe ao bloqueio de preços proposto por France Insoumise e os seus aliados e absteve-se durante a votação sobre a introdução de um preço mínimo nos produtos agrícolas, uma exigência central dos camponeses mobilizados no início de 2024. Citemos também a firme oposição do RN à Lei da Artificialização Líquida Zero e, mais amplamente, às regras ambientais, de que os patrões continuam a queixar-se por dificultarem os seus negócios. O partido também assumiu as exigências dos lobistas em muitas ocasiões, por exemplo, nos domínios da saúde, da construção ou do automóvel. Finalmente, embora se declare a favor do regresso parcial à reforma aos 60 anos, o RN nunca apoiou mobilizações sindicais para se opor à reforma liderada por Macron.

 

O ENTERRO DEFINITIVO DA ERA PHILIPPOT

Para além desta defesa constante dos interesses dos grandes grupos, o campo lepenista, também envia outros sinais visíveis aos patrões franceses. Citemos, em particular, o artigo de Marine Le Pen sobre a dívida pública no Les Echos, o Diário Económico de Bernard Arnault, no qual ela retoma todos os clichês liberais que se ouvem desde há décadas. Acima de tudo, o partido parece ter finalmente conseguido cercar-se de uma série de conselheiros-sombra com currículos bem preenchidos. Este “círculo dos Horácios“, que reúne altos funcionários, ex-conselheiros ministeriais e executivos de grandes empresas, fornece aos líderes do partido notas oscilantes entre a guerra de civilização e a defesa do liberalismo económico. Este gabinete secreto é chefiado por François Durvye, Diretor-Geral da Otium Capital, o fundo de investimento do bilionário ultraconservador Pierre-Edouard Stérin, exilado fiscal na Bélgica, candidato à aquisição do semanário Marianne. Durvye deu as boas-vindas a Marine Le Pen na sua mansão na Normandia para se preparar para o debate da segunda volta em 2022, com alguns conselheiros-chave, nomeadamente Jean-Philippe Tanguy. Vindo das fileiras do ESSEC e do partido de Nicolas Dupont-Aignan, o deputado do RN do Somme é um dos mais ativos do grupo na Assembleia e nos meios de comunicação social, em particular em questões económicas.

Com esta equipa de grandes fortunas e obsessivos da desregulamentação, Marine Le Pen e Jordan Bardella conseguiram finalmente virar a página da era Florian Philippot. Fiel tenente de Marine Le Pen até 2017, este ex-aluno da ENA não só contribuiu para a famosa “desdiabolização”: também pesou muito sobre o programa RN, articulando-o em torno da soberania, com um desejo explícito de superar a divisão esquerda-direita e de reunir o campo no referendo de 2005. Até 2017, a FN defendeu, portanto, uma forma de saída do euro, um referendo sobre o Frexit ou a retirada do comando integrado da NATO. Sem defender explicitamente uma saída do Quadro Europeu e atlantista, o partido é então, com o partido France Insoumise, muito crítico destas perdas de soberania monetária, militar, económica e política. Este legado está agora em grande parte liquidado. Assim que Philippot e as suas tropas partiram, a saída do euro e o referendo sobre o Frexit são abandonados, porque assustam os eleitores da direita tradicional, em particular os reformados obcecados pela estabilidade, e este partido está a tentar capturar os seus votos.

A oposição ao comércio livre, que sempre foi um dos principais receios dos patrões em relação ao RN, especialmente os que se concentram nas exportações, está também a ser largamente atenuada. Naturalmente, o partido é obrigado a fazer um equilíbrio nesta questão, pois é tão fundamental para os círculos da classe trabalhadora que são vítimas da globalização. No seu programa europeu, o RN defende assim a ” concorrência leal “no mercado europeu, sem especificar o que esta noção abrange, bem como a “prioridade nacional” nos contratos públicos, formalmente proibidos pelos Tratados da UE. Por conseguinte, será necessária uma profunda reforma destes últimos para concretizar estas promessas. O RN certamente não carece de ideias sobre o assunto, em particular um referendo para colocar a Constituição francesa à frente do Direito Europeu novamente e a transformação da Comissão Europeia no Secretariado do Conselho, uma instituição que reúne os chefes de Estado. Propostas bastante interessantes para que a União Europeia seja uma verdadeira “Europa das Nações” em vez de um proto-estado supranacional, mas que requerem apoio noutros Estados para ter sucesso.

No entanto, se o RN pode, teoricamente, contar com os seus aliados de extrema-direita em todo o continente, nem todos apoiam uma política protecionista. Isto é evidenciado pelo facto de 60% dos eurodeputados do Grupo Identidade e Democracia, ao qual o RN pertence, terem votado a favor do recente Acordo de comércio livre entre a UE e a Nova Zelândia! Da mesma forma, durante a votação dos acordos com o Chile e o Quénia. No final de Janeiro, em plena mobilização dos agricultores: o RN absteve-se, enquanto os seus parceiros estrangeiros aprovaram em grande parte ambos os textos. O suficiente para duvidar seriamente das promessas protecionistas do partido.

A nível geopolítico, a evolução do Agrupamento Nacional é também notável. Indubitavelmente em dívida com o governo russo, que lhe concedeu dois empréstimos em 2014 num total de 11 milhões de euros, Marine Le Pen defende há muito tempo uma reaproximação com o Kremlin, tal como o fez o seu aliado italiano Matteo Salvini. Esta posição é concretizada, nomeadamente, pelo apoio à anexação da Crimeia e por uma série de reuniões, nomeadamente entre Marine Le Pen e Vladimir Putin, em Março de 2017, pouco antes das eleições presidenciais. Durante muito tempo admiradora do ditador russo, Marine Le Pen viu-se finalmente obrigada a defender em surdina a Ucrânia desde há dois anos. Se criticou a ineficácia das sanções económicas contra Moscovo e a instrumentalização do conflito para fins políticos, as suas propostas sobre o assunto permanecem vagas e cheias de contradições. Estas hesitações são, sem dúvida, um reflexo da guerra de influência que Jordan Bardella está a travar contra a sua chefe: o presidente do partido, em várias ocasiões, posicionou-se explicitamente no campo atlantista e por permanecer em todos os órgãos da NATO, enquanto Marine Le Pen é mais matizada na questão.

 

RECOMPOSIÇÃO DA EXTREMA-DIREITA EUROPEIA

Esta viragem atlantista e pró-europeia é uma forma de regresso à linha original do partido quando este era liderado por Jean-Marie Le Pen. Apresentando-se então como o “Reagan francês” e assumindo um programa muito liberal a nível económico, o pai de Marine Le Pen era também um fervoroso defensor da NATO e da construção europeia, que via como baluartes contra o comunismo então em vigor na Europa Oriental. Na altura, esta oposição frontal à esquerda permitiu que a Frente Nacional saísse brevemente do isolamento político, entre 1986 e 1988, quando o partido obteve os seus primeiros Deputados e deu um apoio decisivo ao direito tradicional de governar cinco regiões, o que lhe ofereceu algumas vice-presidências em troca. Com exceção deste breve interlúdio, e apesar de um enfraquecimento contínuo desde a era Sarkozy, o “cordão sanitário” que impede a união da direita ainda se mantém oficialmente.

Nesta frente, as eleições europeias de 2024 poderão marcar um ponto de viragem. A extrema-direita está efetivamente a progredir em todo o continente e os governos baseados em acordos entre a direita tradicional e a extrema-direita estão a multiplicar-se (Itália, Suécia, Finlândia, Croácia …). Enfraquecida por vários escândalos, a Presidente da Comissão Europeia, Ursula Von der Leyen, do Partido Popular Europeu (PPE, direita), não descarta a conclusão de uma aliança com o grupo dos conservadores e Reformistas Europeus (CRE, extrema-direita) para permanecer no poder. Durante mais de um ano, ela nunca perdeu a oportunidade de mostrar a sua proximidade com a Primeira-Ministra Italiana Giorgia Meloni, cujo partido Fratelli d’Italia detém uma das maiores delegações de Deputados do grupo CRE.

Este grupo, que inclui também o partido polaco Lei e Justiça (PiS), os Democratas Suecos e o partido espanhol Vox, difere do outro grupo de extrema-direita do Parlamento Europeu, denominado Identidade e Democracia (ID), em dois aspetos: a política externa e o desejo de se aliar à direita tradicional. Enquanto os partidos do grupo CRE sempre afirmaram o seu atlantismo e a sua abertura à união da direita, os do grupo ID são mais pró-russos e muitas vezes isolados pelo seu radicalismo. Este segundo grupo inclui o Rassemblement National e a Lega de Matteo Salvini, bem como a AfD alemã. Este último partido é cada vez menos atrativo: depois das revelações sobre uma reunião secreta para planear a “remigração” de dois milhões de pessoas de origem estrangeira que vivem na Alemanha, o AfD voltou recentemente a distinguir-se por tentar reabilitar alguns dos SS…

A presença muito evidenciada de Marine Le Pen no fórum «Viva 2024» em Madrid indica a sua vontade de se aproximar de partidos notoriamente atlantistas como Fratelli d’Italia ou Vox.

Diante desse aliado incómodo, cujos excessos servem a sua estratégia de notabilização, o RN decidiu deixar o grupo ID e juntar-se  aos CRE após 9 de junho, assim como a Lega e o Fidesz de Viktor Orban. Estas ligações foram desenvolvidas  durante uma grande reunião em Madrid em 19 de maio, onde os líderes da extrema-direita europeia foram acompanhados por figuras latino-americanas, incluindo o presidente argentino Javier Milei e um ministro do governo de Nethanyahou. Intitulada «Viva 2024», esta demonstração de força reforçou os laços em torno de um agente reacionário comum. A presença notada de Marine Le Pen no local indica a sua vontade de se aproximar de partidos notoriamente atlantistas como Fratelli d’Italia ou Vox, o que pode tranquilizar um certo segmento do eleitorado até então preocupado com as conexões russas do RN.

 

UM ELEITORADO MENOS POPULAR MAS CADA VEZ MAIS AMPLO

Esta estratégia de respeitabilidade traduziu-se igualmente na inclusão de várias personalidades na lista europeia do Agrupamento Nacional, nomeadamente Fabrice Leggeri, antigo diretor da agência de gestão das fronteiras externas da UE Frontex, membro do Ministério do Interior. Este encontro amplamente mediatizado foi apresentado pelo RN como mais uma prova da sua capacidade de governar graças a perfis experientes e, portanto, supostos «sérios». Exceto que esta «experiência» coloca a questão: Fabrice Leggeri é visado por queixas por cumplicidade em crimes contra a humanidade e cumplicidade em torturas devido à cooperação da Frontex com os guardas costeiros da Líbia, muitos das quais pertencem a milícias que praticam o tráfico de seres humanos. Para ser sério, relembremos também: o RN pedia a supressão da Frontex, que qualificava de «supletivo dos passadores», quando Leggeri a dirigia

Apesar das enormes incoerências do RN, em particular entre as posturas que pretendem defender os franceses populares contra os ricos e a realidade do seu programa e dos seus votos, a aposta parece estar a funcionar. Além de manter a sua base popular de votação de protesto, o partido de extrema-direita está a atrair cada vez mais as classes médias e os aposentados. Esta última categoria de eleitores é muitas vezes decisiva: enquanto os jovens e os mais pobres votam pouco, os mais velhos movem-se massivamente. Este fenómeno é ainda mais forte durante as eleições intercalares, como as europeias, em que cerca de 50% dos eleitores se abstêm. Com esta progressão entre os reformados, Bardella iria, portanto, explodir o “teto de betão armado” que há muito impede o seu partido de vencer as eleições. Se uma vitória do RN nas próximas eleições presidenciais ainda não for adquirida, a sua probabilidade só aumenta.

Se a rejeição visceral do macronismo e o argumento do “RN, ainda não experimentámos” desempenham, naturalmente, um papel importante, resumindo a adição de votos populares e votos burgueses a favor do partido Lepenista ao único desejo de “virar a mesa” é demasiado simplista. Como explicou o investigador Felicien Faury, que entrevistou muitos eleitores do Agrupamento Nacional no sul de França, o partido consegue unir diferentes classes sociais em torno de um discurso comum destinado a atingir as reformas neoliberais sobre os estrangeiros, que hoje seriam “assistidos”. Assim, o partido recusa-se, por exemplo, a construir mais habitação social, mas pretende expulsar os imigrantes para que mais franceses se beneficiem dela. Para além do racismo, a crescente popularidade deste tipo de teses está diretamente relacionada com a resignação dos franceses: o que quer que façamos, as reformas liberais acabam por aplicar-se.

Para convencer os franceses de que outra sociedade é possível, a esquerda terá, portanto, muito a fazer. Com tanta popularidade das ideias defendidas por Bardella e Le Pen, invocar o medo do desconhecido e a história do partido já não funciona. Mais do que nunca, a esquerda precisa de apontar as contradições do RN e a sua agenda anti-social, a fim de demonstrar quais os interesses que a extrema-direita realmente defenderá se chegar ao poder. Mas, para isso, ainda é necessário que a “esquerda” em questão seja credível. As traições e os ataques anti-sociais dos modelos da “globalização feliz”, do “sonho europeu” e de outros social-democratas que sonham em voltar a ligar-se ao Hollandismo são, de facto, as primeiras razões para a ascensão inicial do RN.

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O autor: William Bouchardon é diretor da rubrica de economia em Le Vent se Lève. Escreve também para @socialter e @reporterre. É licenciado em Ciências Políticas pelo IEP de Grenoble.

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