Quatro democracias em crise profunda: França, Reino Unido, Alemanha e Estados Unidos — França: Texto 10 (3/6)

Nota prévia

No quadro da série Quatro Democracias em crise profunda: França, Inglaterra, Alemanha, Estados Unidos que estamos a editar, termino hoje o conjunto de textos dedicados à situação francesa. E termino com um grande texto, grande em número de páginas e grande em qualidade. Termino então com o texto O tempo de uma clarificação: crónicas de uma anarquia anunciada de Victor Sarkis e Étienne Burle – publicado em 21 de junho de 2024 e com uma introdução de Régis de Castelnau, Uma vez as ilusões perdidas haverá tempo para a claridade.

Dadas as duas características enunciadas quanto ao texto, este merece-nos alguns comentários.

Nos anos 90 li um texto de Bertrand Poirot-Delpech, membro da Academia Francesa e jornalista de referência do Le Monde e no tempo em que este era o Le Monde e não um pasquim. Nesse texto descrevia-se a prova de admissão à entrada para Sciences Po, em Paris. A prova rainha neste concurso de entrada, para uma das mais prestigiadas Instituições Universitárias de França consistia na resposta à seguinte questão:

Fale-me de um livro que tenha lido e que ache tão importante que o considera de leitura indispensável para os seus amigos.

Naquela altura senti-me reconfortado ao ler este texto, pois referia-se ao que eu fazia habitualmente nas minhas aulas ou nas conversas que tinha com os meus alunos de mestrado e, sobretudo, com aqueles que orientava em tese de mestrado: aconselhar livros que considerava importante que os alunos lessem e na linha dos trabalhos que desenvolviam. Chegou-se mesmo a impor um livro de cultura geral em economia, variável ano a ano, na disciplina obrigatória de Economia Internacional, o que hoje seria impossível fazer, porque ler é coisa para a qual a maioria dos estudantes universitários de hoje não tem apetência e porque eu seria acusado de conflito de interesses, de conluio com o editor! Naturalmente desistiria de me lançar nessa aventura cultural, para a qual também não seria nem pago nem reconhecido enquanto tal.

Ora, hoje, julho de 2024, que faz Régis de Castelneau? O mesmo que eu fazia e ainda faço. Descobre um grande artigo, lê-o com alegria, gosta muito dele, acha que mais gente gostará de o ler e não hesita: procura contactar o autor, não consegue e então decide roubar o texto para o disponibilizar aos seus leitores e, no conjunto dos seus leitores estou também eu. É por isso que aqui temos o texto na língua de Camões.

No excerto abaixo, os autores fazem uma síntese do trabalho de Emmanuel Todd e de Jerôme Fourquet sobre a dinâmica do capitalismo atual, um texto brilhante, onde se diz o seguinte.:

O “niilismo”, a febre do vazio, apoderara-se das nossas elites, e aquilo a que chamaria” diplocracia”, esta massa de pessoas que pensam que são melhores do que as outras e que são naturalmente superiores a elas pelo simples facto de possuírem um diploma, sem se perguntarem por um segundo o que é que está por detrás dele. Estes países, que foram nações, são, portanto, agora movidos por uma simples e estranha força de inércia: a racionalidade é agora desconhecida neles, os diplomados estão a caminhar para carreiras lucrativas, mas improdutivas, as ideologias e os valores coletivos estão mortos e enterrados, e não há mais valores transcendentes que enquadrem a vida do indivíduo” Fim de citação.

No caso deste excerto pensem em Portugal, pensem na realidade da “diplocracia” que nos invadiu e, se quiserem, liguem-na aos problemas mais recentes da nossa situação política.

Posto isto, desejo-vos coragem para a leitura deste enorme texto e com a certeza de que não darão o vosso tempo por perdido, mesmo quando os autores avançam com teses que são o oposto de coisas que desde há muito tempo nos habituámos a considerar como certas. Se este for o caso, não desistam, porém, admirem o método de análise e de exposição: uma verdadeira peça de Ciência Política. Só por isto, vale a pena o esforço da sua leitura.

 

Júlio Marques Mota

Coimbra, em 15 de Julho de 2024


Nota de editor: dada a extensão deste texto, o mesmo será publicado em 6 partes. Hoje a terceira.

 

Seleção e tradução de Júlio Marques Mota

10 min de leitura

França – Texto 10 – O tempo de uma clarificação: crónicas de uma anarquia anunciada (3/6)

Por Victor Sarkis e Étienne Burle

 

Publicado por em 2 de Julho de 2024 (ver aqui)

Publicação original por  Le Gros Rouge qui Tâche, em 21 de Junho de 2024 (ver aqui)

 

(continuação)

 

2) Porquê dissolver?

Passemos às causas mais imediatas, uma vez que também têm a sua importância nesta sequência: porquê dissolver a Assembleia Nacional na noite de uma eleição europeia que coloca o RN à cabeça muito à frente da lista macronista?

O primeiro elemento da resposta deve-se aos resultados da legislatura anterior, em junho de 2022, que não deu maioria absoluta a E. Macron. Na altura, assim que chegaram os resultados, todos os analistas tinham concordado que a questão não era se E. Macron devia dissolver a Assembleia antes do final do seu mandato, mas quando. Com efeito, as suas grandes reformas estruturais para sangrar um pouco mais o país e enriquecer ainda mais a sua classe social necessitavam uma grande maioria, especialmente para avançar rapidamente. As coisas acabaram por se arrastar e, se finalmente a dissolução surpreendeu a todos, foi porque aconteceu muito mais tarde do que todos pensavam. As alianças parlamentares de circunstâncias com o LR, as repetidas aprovações na Assembleia ao abrigo do artigo 49.3 e as moções de censura que ninguém queria votar terão permitido a esta Assembleia manter-se por dois anos. Mas, infelizmente, tudo ia muito devagar, e não era suficientemente forte para o nosso Heliogabale e os seus representantes de Bruxelas. Ele governava, mas com dificuldade, e o boato de uma dissolução estava em curso há vários meses [8]. Isto a fazer parte do cenário da decisão: ela tinha que ser tomada, a única questão é porquê agora e não noutro momento.

Várias respostas, complementares mais do que exclusivas, defendiam uma decisão de dissolução logo após as eleições europeias.

Em primeiro lugar, deve notar-se que E. Macron tentou adiar ao máximo esta dissolução, tentando levar a cabo as suas reformas durante 2 anos como se nada tivesse acontecido. Portanto, a questão não é por que não chegou antes, mas porque é que não chega mais tarde.

O primeiro elemento é o impacto dos resultados das eleições europeias na vida parlamentar francesa. A Assembleia, já difícil de governar, ameaçou tornar-se mais agressiva, com os bons resultados do RN e a boa pontuação de La France Insoumise [9]. O bloco macronista, já em estado lamentável, ameaçava desintegrar-se lentamente numa longa guerra de atrito após os resultados execráveis de V. Hayer.

O segundo elemento é o impacto destes mesmos resultados a nível internacional. Aos olhos dos parceiros europeus de E. Macron, eles são uma humilhação clara e nítida dele e um enfraquecimento de facto do seu poder à escala internacional. Ora, sabemos que o personagem tem uma necessidade patológica de ser notado por iniciativas tão perigosas quanto estúpidas, num cenário internacional que absolutamente não o leva a sério e o despreza completamente, inclusive entre os seus “aliados”. A ferida narcisista era, portanto, flagrante: impedido internamente, impedido internacionalmente, os próximos três anos estavam-se a preparar para ser uma provação para o nosso querubim impulsivo, incapaz de submeter-se à menor disciplina para conter os seus impulsos de gestão tóxica. Deste ponto de vista, ele preferiu, portanto, interromper o tormento de tântalo que estava por vir, lançar-se com a dissolução entre Cila e Caribdis. Apostar por um dia, apostar sempre.

A terceira razão é, pelo contrário, muito mais profunda e diz respeito à própria possibilidade de governar o Estado francês. Sabemos que a dívida francesa está a atingir níveis perigosamente preocupantes, e vários analistas [10] observaram nos últimos meses que as obrigações francesas estão expostas a um elevado risco de desvalorização massiva e rápida. Uma França politicamente paralisada, com uma economia em declínio e uma dívida colossal, poderia perder toda a confiança dos potenciais credores num futuro muito próximo. É evidente que aumenta o risco de a França deixar de poder contrair empréstimos nos mercados financeiros nos próximos meses, ou de o conseguir a taxas de agiota, pelo que deixará de pagar imediatamente. No entanto, todo o modelo económico-político dos últimos 50 anos, todos os partidos combinados, baseia-se na capacidade do Estado de tomar empréstimos massivamente para sustentar o consumo. Se esta alavanca cair, todo o atual sistema político e económico entrará em colapso. Para evitar esta eventualidade catastrófica, seria necessário poder reduzir as despesas públicas, mas também ter a força política para enfrentar a tempestade social sem precedentes que isso inevitavelmente acarretaria. Ora, o Macronismo arriscava-se a encontrar-se num beco sem saída dentro de alguns meses: ou a falência do Estado pela incapacidade de contrair empréstimos nos mercados financeiros, ou a necessidade política de impor medidas de austeridade extremamente impopulares, sem meios políticos para o fazer. Assim, vemos que a equação é impossível. Esta situação poderia ter acontecido já em setembro de 2024, durante a votação do orçamento, que foi anunciada como sendo antecipadamente quase perdida, com os outros três grupos parlamentares que poderiam então ter votado uma moção de censura (a certa, desta vez!). Para evitar isso, E. Macron assumiu a liderança e fez a escolha de dissolver antes de chegar a esta situação catastrófica, que ele próprio criou e ampliou, para não assumir a responsabilidade. É muito claro que o objetivo desta dissolução é perder as eleições, confiar as responsabilidades ao RN numa situação económica desastrosa, para não aparecer responsável por isso, e (quem sabe?) voltar mais tarde. Para o conseguir, a realização de eleições apenas três semanas após uma votação vencida com folga pelo RN foi a melhor forma de o conseguir. Depois de incendiar a casa, o inquilino dá as chaves àquele que se lhe deve seguir, quando não há mais nada para dirigir.

Finalmente, a quarta razão, a menos forte, os pequenos cálculos políticos. E. Macron e os que o rodeiam podem ter pensado que a divisão da esquerda durante as eleições europeias conduziria, de facto, a uma divisão durante as eleições legislativas que se seguiriam, o que poderia ter permitido ao seu partido ganhar alguns círculos eleitorais. E, possivelmente, para reunir elementos do PS e do LR próximos do macronismo. É possível, mas não teria sido suficiente para obter uma maioria absoluta. Especialmente porque, neste ponto, este cálculo foi negado muito rapidamente, como vamos analisá-lo.

 

3) O fracasso do macronismo

Uma vez que a vida política francesa está agora dividida em três blocos distintos, podemos analisá-los um a um, e até mesmo traçar com certeza a lógica do futuro de cada um desses blocos. As forças sociais envolvidas são claras e atingiram um nível de estabilização quantitativa provisória tal que apenas a magnitude dos resultados poderá variar, mas não as ordens de grandeza aproximadas.

Comecemos pelo ponto mais claro: a auto-dissolução imediata do Macronismo por esta decisão. A sua escala e, portanto, os restos que ele deixará, ainda terão que ser determinados, mas o essencial está lá: o grande bloco central burguês, como nasceu em 2017, morreu em 9 de junho de 2024. Por uma razão simples: o seu único argumento, repetido de forma pavloviana, “eu ou o caos”, foi dinamitado. O macronismo levou a França ao caos e empobreceu a sua base social, que eram as classes médias urbanas. Ele passou 7 anos a destruir a sua própria base social e, em 9 de junho, chegou ao ponto em que o seu trabalho o liquidou. Como já foi explicado anteriormente, com o mecanismo da dívida, a gestão macronista da França levou-nos ao caos que ele pretendia evitar, e a coisa é agora perfeitamente visível [11]. A “ortodoxia orçamental” tem sido uma má gestão sem precedentes, e a sua realização tem sido o oposto da sua pretensão; a única sanção lógica a este estado de coisas é a morte política, por deserção dos eleitores.

O que nos leva ao segundo ponto: o martelado argumento do “campo da razão” sempre foi o facto de que incorporava “a maioria silenciosa”, ou seja, que tinha consigo a força dos números. Só que ele começa a ficar sem números, e uma vez que o processo começa, não só se torna irreversível, mas acelera rapidamente: aqueles que estavam lá apenas porque havia lá pessoas estão a sair, e assim por diante, até que não haja mais ninguém. A espiral descendente do macronismo parece, portanto, estar em curso, e é difícil ver o que poderia detê-lo.

Em terceiro lugar, após sete anos de macronismo, a aritmética demográfica continua o seu trabalho lento, mas implacável. Todos os anos, há quase 630.000 mortes por ano, principalmente de idosos. Ora, quase 40% deles votam em E. Macron, com uma taxa de participação de quase 80% nas presidenciais [12]. Aplicando a quota de 90% nos maiores de 65 anos entre as mortes verificadas, acabamos, portanto, em 7 anos, com um desaparecimento biológico de quase 1,27 milhões de eleitores de Macron.

Especialmente porque as perdas não são totalmente compensadas pelas chegadas. Há quase 800.000 jovens que atingem a maioridade todos os anos, e quase o mesmo número que entra no mercado de trabalho, por volta dos 25 anos. Ora, tomando apenas o segmento dos 25-35 anos de idade, se quase 60% deles votarem, ter-se-á 30% a votar em Marine Le Pen, 27% em Jean-Luc Mélenchon, e apenas 19% em E. Macron. Ou seja, 144.000 novos eleitores por ano para o RN (um milhão em 7 anos), 129.600 para JLM (900.000 em 7 anos) e apenas 91.200 para Macron (638.000 em 7 anos). Podemos ver claramente que mesmo a lenta evolução demográfica condenou o macronismo a um longo declínio e atingiu um ponto de rutura.

Finalmente, e este é o elemento decisivo, o método de votação legislativa da Quinta República completará a condenação do macronismo. Este método, a votação em duas voltas, foi de facto concebido para eliminar os “pequenos” partidos marginais e, inversamente, favorecer os “grandes” partidos tradicionais, como o UMP e o PS, durante anos. A sua lógica permitiu ampliar excessivamente a menor vantagem sobre os seus concorrentes. Para dar um exemplo caricatural, em 2017, se o LREM tinha recolhido 32% dos votos, tinham, no entanto, obtido 60% dos assentos.

Podemos, portanto, ver como o declínio, embora relativo no momento, nos resultados do partido macronista pressagia uma catástrofe sem nome: a lógica que serviu para excluir os “pequenos” partidos “extremistas” em favor dos “grandes” partidos “moderados” corre o risco de lhes sair pela culatra! Para dar uma ideia da possibilidade de desastre, de acordo com um estudo do Le Figaro, Renaissance poderia nem sequer estar na segunda volta das eleições legislativas em… 536 dos 577 círculos eleitorais, se a votação europeia continuasse a ser idêntica [13]!

É claro que é mais do que provável que o partido macronista aumente a sua pontuação em comparação com as europeias, o que causará um desastre um pouco menos total, mas o facto estará sempre presente: o macronismo pode mais ou menos desaparecer legislativamente destas eleições. As primeiras sondagens parecem confirmar esta direção: dependendo do instituto de sondagem, o RN teria entre 31 e 35% dos votos, a União de Esquerda teria entre 25 e 28% e o partido Macronista entre 17 e 19%. Isso pode evoluir, é claro, mas a curta campanha impede qualquer reviravolta real nas relações de força. O método de votação irá, naturalmente, ampliar esta lacuna ao extremo e excluir desproporcionadamente o partido Renaissance.

Especialmente porque nunca foi um partido local, com muitos militantes, executivos e funcionários eleitos locais. O refluxo na Assembleia Nacional será irreversível e, se o macronismo continuar a viver durante mais algum tempo, deixará de desempenhar um papel importante, antes de vir a ter uma bela morte [14]. Os executivos macronistas entenderam isso e já estão a navegar em direção a outros horizontes [15].

 

4) A ilusão da “União da esquerda”

O segundo grande bloco, que, após dois anos de invectivas permanentes, foi subitamente reconstituído em tempo recorde, é, naturalmente, a enésima edição da eterna série “A União da esquerda”, para uma Nova União Popular Ecologista e Social 2.0, rebatizada para a ocasião de “Nova Frente Popular”.

Haveria muito a dizer sobre a fraude deste novo nome, que leva ainda mais longe a falsificação histórica. Tínhamos analisado em 2020 o movimento histórico da Frente Popular de 1936, e referimo-nos a ele para constatar a discrepância com esta indigesta reedição de 2024, que só podemos escrever entre aspas [16]. Também tínhamos aí criticado severamente todas as tentativas anteriores de “união da esquerda”, como acordos perfeitamente eleitoralistas, e que equivaliam a alinhar-se com o programa mais social-traidor que existe, e retomamos integralmente essas críticas.

No entanto, temos de analisar a especificidade desta união ilusória e mostrar por que razão não poderá dar nada, por que razão é impotente para ganhar seja o que for e por que, mesmo que ganhasse, não seria capaz de aplicar o seu próprio programa, muito mau.

Para isso, é necessário analisar a transição da “Nova União Popular Ecologista e Social” de 2022 para a “Nova Frente Popular” de 2024. A “Nova União Popular Ecologista e Socia” de 2022 foi um bluff eleitoralista de Jean-Luc Mélenchon, depois do seu grande desempenho nas eleições presidenciais, que surpreendeu muita gente. Dinamizado pelo voto útil, pela nulidade dos candidatos do PS, do PCF e da EELV, ele tinha conseguido concentrar na sua pessoa a totalidade do voto de esquerda, que hoje inclui principalmente estratos urbanos médios diplomados e a trabalhar no setor terciário, os subúrbios imigrantes (para a pequena proporção que vota), e alguns escassos remanescentes do movimento operário do século XX, a última roda da carroça desta aliança de miscelânea. Graças a este belo golpe de força, Mélenchon conseguiu então impor aos seus concorrentes à esquerda um acordo do qual conseguiu ditar os termos, em particular sobre o programa, e o número de círculos eleitorais. O reagrupamento massivo em torno da sua candidatura também foi interessante, porque significava que o seu eleitorado, agora completamente concentrado nas grandes metrópoles, estava suficientemente desclassificado e politicamente pressionado pelo macronismo, que estava pronto a silenciar o seu narcisismo das pequenas diferenças entre os social-democratas, a fim de se agrupar em torno de um bloco. A candidatura de Jean-Luc Mélenchon em 2022 foi o canto do cisne dos novos estratos médios liberais-libertários “de esquerda” e o sinal do seu crepúsculo que se aproximava. Vimos isso com o macronismo: é quando um grupo social se reúne sob uma e a mesma bandeira que está mais próximo de morrer, porque então as contradições que o fizeram viver desapareceram. Especialmente porque este agrupamento foi feito na intensificação do delírio ideológico que estes estratos médios carregam, e que assina o seu isolamento ideológico e social: ambientalismo, feminismo, antirracismo identitário, societalismo [n.t. movimento cidadão global, político, económico e socialmente equitativo, baseado nos direitos Humanos e no respeito pelo ambiente] a todo o custo… A candidatura de Mélenchon em 2022 terá conseguido que o extraordinário êxito se saísse pior nesta matéria do que o de 2017, já bem previsto, no entanto. Tudo isto, naturalmente, com ainda menos oposição à UE, se fosse possível, e um programa tão social-democrata como inaplicável com o método proposto.

Com a Nova União Popular Ecologista e Social prosseguiu-se nesta dinâmica, ressuscitando de passagem os partidos laminados que poderiam ter desaparecido, o PS e o PCF. Ao garantir-lhes os seus deputados, Mélenchon salvou-lhes a aposta tendo sido mal pago em contrapartida, tudo isto para voltar a entrar uma última vez nos meios de comunicação social, e agarrar alguns deputados para La France Insoumise. Em suma, tratou-se de uma aliança puramente oportunista e eleitoralista que se fez em bases completamente confusas, e que relançou o pior do que existia na esquerda em termos de traição social, oferecendo-lhes um banho rejuvenescedor de que o PS, e o PCF em menor medida, necessitavam urgentemente.

É claro que, uma vez salvos do nada eleitoral que mereciam, os “aliados” de France Insoumise procuraram libertar-se das suas garras, de uma forma perfeitamente desonesta é preciso dizer – mas o que mais podemos esperar dos malandros que povoam o PS, o PCF e a EELV?

Eles são tão reacionários que conseguiram passar a criticar Mélenchon pela direita, pela sua posição sobre a UE, sobre a Ucrânia, sobre Gaza – uma posição que é tão tímida, mas que os seus “amigos” da esquerda gostaram de endurecer absurdamente, a ponto de o fazerem passar por um frexitor [defensor da saída da França da União Monetária], um bolchevique, um pró-Kremlin (se ao menos!), ou um pró-Irão. O último delírio: a France Insoumise seria “antissemita”, pela sua posição sobre o conflito israelo-palestiniano, uma posição todavia idêntica à da ONU em todos os pontos. Mas, bom: no Reino dos clones, onde todos têm o mesmo programa e as mesmas ideias, é necessário tornar histérico o debate para passar a menor nuance que seja do europeísmo atlantista como uma heresia intolerável.

Tendo partido nestas condições, a “Nova Frente Popular” conseguiria, portanto, fazer pior politicamente do que a Nova União Popular Ecologista e Social, o que é mais uma vez um desempenho a saudar. Tanto que, após os resultados de 9 de junho, era aquele que deveria ser apelidado de “agente da CIA”, ou seja, Raphael Glucksman, que iria ditar as suas condições para uma união [17] Este bandido, vindo da direita liberal e sarkozysta, agente dos interesses da NATO na Geórgia sob Saakashvili [18], estipendiário do seu sogro Ghassan Salam (agente no mundo árabe dos interesses atlantistas, arquiteto da destruição constitucional do Iraque pós-Hussein [19], elemento de ligação da Sociedade Aberta de Soros no mundo árabe [20]) viu-se capaz de impor a toda a esquerda as suas condições leoninas e uma capitulação incondicional perante a UE e a política internacional atlantista.

É, portanto, uma união perfeitamente desacreditada de antemão que a esquerda está a vender-nos, porque é óbvio para as massas que esta aliança se destina apenas a ajudá-las a manter os seus lugares miseráveis, e que a farsa do “medo do fascismo às nossas portas” não é a sua principal preocupação. E não é o choro de um Corbière ou de um Rufin diante do “perigo fascista” na noite das eleições que vai mudar as coisas. O programa contenta-se com medidas perfeitamente social-democráticas, defensivas, muitas vezes confusas, especialmente em questões socais e é perfeitamente reacionário a nível internacional [21]. No programa, portanto, “apoia-se indefectivelmente a Ucrânia” e o envio de armas para a apoiar, alinhando-se assim com a política macronista e ignoram todo e qualquer risco para a França quanto a uma escalada militar com a Rússia. Em Gaza, retomam a falsa narrativa de Israel em 7 de outubro e fecham-se no gueto mental de um Ocidental narcisista. Quanto à UE, o programa declara a sua submissão e o seu apoio à integração europeia.

Escusado será dizer que, nestas condições, as medidas sociais do programa são impraticáveis. Na melhor das hipóteses, teremos uma repetição das desventuras de A. Tsipras na Grécia, que teve as costas quebradas pela Comissão Europeia em 2015. Dada a dimensão da nossa dívida, o programa da “Nova Frente Popular” não pode ser financiado com ela, e sem sair da UE, não é sequer concebível qualquer aplicação alternativa. Mais uma vez, uma esquerda sem coragem cedeu às exigências de uma esquerda canalha, para gáudio dos crédulos que ainda acreditam ingenuamente nela. A união da esquerda é o ópio do povo de esquerda. E já é tempo de deixarmos de ser viciados nesta droga doentia.

A raiz do problema reside no facto de uma nova esquerda ter surgido na década de 1970 e ter subvertido completamente a base social e a ideologia da velha esquerda. As novas classes médias urbanas e educadas substituíram o proletariado como classe social de base, e o liberalismo libertário, esse antiautoritarismo individualista e relativista, substituiu o marxismo. Estamos a viver o culminar deste processo. Só podemos desejar que esta esquerda morra, nas circunstâncias mais atrozes e indignas possíveis, para que outra esquerda a venha substituir. Esta esquerda vive apenas da confusão: confusão entre o social e o societal (a economia, a geopolítica e o nacional colocados ao mesmo nível, e muitas vezes abaixo, da ecologia, do feminismo, do antirracismo e de muitos outros itens), confusão entre europeísmo e soberanismo (críticos da UE que se aliam aos seus apoiantes sem verem o problema), confusão entre internacionalismo e atlantismo (críticos da Ucrânia e de Israel juntos com os seus defensores acérrimos). É preciso ser um cientista político para ver que isto não vai dar em nada?

 

(continua)

 


Notas

[8] Por exemplo, desde novembro 2023. Ver aqui.

[9] A lista de Aubry terá assim conseguido ganhar 1 milhão de votos em número absoluto em comparação com 2019, numa eleição que normalmente não tem muito sucesso para a LFI.

[10] Tão diversos quanto Anice Lajnef, Olivier Berruyer, Charles Gave ou ainda Jérôme Fourquet. Por exemplo: ver aqui.

[11] A tal ponto que a Comissão Europeia já nem sequer se esconde de querer colocar a França sob a tutela da ” Troika (BCE, FMI e a chamada Comissão) : Ver aqui .

[12] Statista (Ver aqui) e INSEE (ver aqui).

[13] Le Figaro (Ver aqui ).

[14] Exceto em caso de força maior, como a ativação do artigo 16º da Constituição. Ver aqui

[15] Reveladoramente, G. Darmanin e B. Lemaire parecem já antecipar o fim dos seus mandatos, quaisquer que sejam os resultados. Ver aqui.

[16] Ver aqui.

[17] Les Crises. Ver aqui.

[18] Revista Marianne. Ver aqui.

[19] Ver aqui. O antigo ministro Gahassan Salame defendia uma Constituição calcada sobre a de Taef. Uma fórmula à libanesa para governar, ver aqui.

[20] Ver aqui.

[21] Le Monde. Ver aqui.


Os autores

Victor Sarkis, é um filósofo francês, membro do Pôle de renaissance communiste em França (PRCF), movimento político comunista, marxista-leninista, fundado em 2004.

Étienne Burle, membro do Pôle de renaissance communiste em França (PRCF), movimento político comunista, marxista-leninista, fundado em 2004.

 

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