Sabemos que são vários os comportamentos, no que respeita ao estilo de vida, capazes de promoverem o desenvolvimento das manifestações clínicas de muitas doenças, sobretudo das doenças degenerativas, cardiovasculares e outras. Hiperalimentação e dietas pouco saudáveis, dislipidemias, sedentarismo, obesidade, hipertensão, diabetes, tabagismo etc. Inúmeros estudos se têm debruçado sobre estes factores de risco, amplamente divulgados por tudo o que é revista científica ou de cabeleireiro, e por toda uma comunicação social interessada em transmitir ideias e imagens, ditas modernas, mas que não façam ondas, cumprindo os desígnios de quem comanda e de quem encomenda, mais interessados numa desinformação ignorante e acrítica do que na séria elucidação das pessoas.
Mas debrucemo-nos um pouco sobre aqueles factores de risco, na minha opinião os mais importantes, os que mais poder destrutivo e degenerativo têm na nossa sociedade e dos quais decorrem, em princípio, todos os outros. Aqueles cujo diagnóstico, conhecimento e desenvolvimento científico e social pouco interessam ao comércio das doenças, aqueles que não convém que sejam denunciados e divulgados, aqueles que não são referidos nas imponentes naves dos congressos. A indústria não está para aí virada, pouco lhe importando as causas, embora não despreze tudo o que possa gerar um desenfreado consumo de psicofármacos.
Os factores de risco de que ninguém fala são de carácter psicossocial, que tal como os primeiros, mas talvez com muito maior intensidade, promovem fortemente o desenvolvimento de doenças a todos os níveis, arterioscleróticas e outras, eventos vasculares adversos, cardíacos e cerebrais, doenças oncológicas, mas sobretudo graves perturbações mentais, psicossomáticas e sociais.
Estes factores de risco psicossociais são, fundamentalmente, factores de natureza emocional e factores de stress crónico, embora nós saibamos que todos eles, orgânicos ou não, se encontram de tal modo intrincados que é muito difícil analisá-los separadamente. Os factores emocionais abrangem essencialmente as perturbações afectivas, criando sentimentos destrutivos e corrosivos como a depressão e as perturbações ansiosas. Os factores de stress crónico constituem um grande leque, incluindo o desrespeito do Estado pelo cidadão, o baixo apoio social, a exploração do homem pelo homem, a insegurança na doença, o baixo estatuto sócio-económico, o endividamento e a crua insensibilidade da especulação bancária, a progressiva angústia da vida cada vez mais difícil numa sociedade dita de progresso e desenvolvimento, a corrupção institucionalizada, a desinformação e a mentira, os conflitos de trabalho, o abandono dos idosos, os desencontros conjugais e familiares, factores sempre crescentes numa sociedade injusta e pouco solidária como a nossa. As perturbações depressivas variam, como sabemos, desde os sintomas ligeiros até à depressão grave, caracterizada por um humor fortemente abalado e por frequente anedonia ou seja uma grande rigidez afectiva e incapacidade de sentir prazer com a vida, aversão ao trabalho, propensão para a violência, um estado que se acompanha de incapacidade funcional significativa e de queixas somáticas que se arrastam pela vida fora. O isolamento social, em termos de cidadania, cria a sensação de não se ser amado e a amargura do viver só, consequências da falta de confidentes, das dificuldades financeiras, das más condições de trabalho, da falta de paz no emprego, das tarefas fisicamente repetitivas, da rotina excessiva sem escapes criativos, da sensação de confinamento rígido, do desequilíbrio entre esforço e compensação, das más condições habitacionais, da instabilidade conjugal, dos maus-tratos infantis e de todas as más experiências. Existe uma importante relação entre o grau destes sintomas depressivos e a ocorrência de eventos patológicos adversos. Estudos epidemiológicos mostraram também a relação destes mesmos eventos com factores emocionais como a ansiedade, a hostilidade e a raiva. Tudo isto leva a que sejam evocadas respostas emocionais fortemente negativas, com enorme poder de somatização, capazes de favorecerem o aparecimento e desenvolvimento de doenças, de uma forma bem mais poderosa do que aquela com que actuam outros factores de risco amplamente divulgados em campanhas de sensibilização.
A constante e perseverante denúncia de tudo isto constituiria, a meu ver, a autêntica e verdadeira campanha de sensibilização da sociedade.
adão cruz

