Este mundo não é para velhos, ou uma outra frase igual ou parecida, deu já origem a livros e a filmes onde esta temática, mais as questões que lhe estão ligadas, de carácter social, político ou religioso, embora ficcionadas, têm sido analisadas e questionadas, de modo a eventuais críticas se transfiram a todos os que têm responsabilidades em tais campos, como até aqueles de nós outros, que só recordamos vagamente, ter dito ou ouvido, algum dia, Vô ou Vó.
Mas, e de qualquer modo, a verdade daquela frase, está no facto de os depositarmos em casas de acolhimento, por já não caberem no sítio onde vivemos, por já não estarem ‘conformes’ com as regras sagradas desta sociedade de mercado estatuída para nós passarmos os dias, dando a máxima protecção ao bem material, punindo severa e rapidamente aquele que lhe ‘tocar’ se for de quem ‘tem’, mas deixando de lado os mais vulneráveis, (pelo trabalho, por falta de tempo, ou de outras alternativas), todos aqueles a quem sempre sobram dias no final das eventuais ‘entradas’, convertendo a sua solidão na pior das ofensas a quem levantou as mãos um dia, para agradecer a luz do sol, a vida e a dignidade da condição humana.
Lembrei-me dos meus, dos que conheci, com quem aprendi e me ajudaram a crescer, quando li num uma notícia onde se afirmava que no Japão, ‘Há muitos anciãos japoneses que decidem transgredir para serem levados para a prisão, por ser único meio de sobreviver. Melhor na prisão que na rua. A rua é um inferno, a casa um poço de penúria e solidão, onde a morte esvoaça e sussurra insistente’.
Os números apresentados são significativos –todos os anos cerca de 5.000 anciãos dão entrada na prisão– numa proporção tal que, quase um terço dos presos japoneses são anciãos. ‘Arrepiante’, escreve o jornalista a terminar o apontamento noticioso.
Mas não antes de salientar que, no desenvolvimento obrigatório, ‘Ter-se-á progredido economicamente, somos mais ricos, mas estamos doentes de ética e carentes de humanidade. Muitos bens materiais e pouco coração, passos firmes no caminho da degeneração, até à extinção’.
Com efeito, este mundo parece não ser para velhos. Patriotas feitos à pressa, agitando bandeiras variadas (algumas de procedência medonha) com gritos e berros a condizer, não têm noção de a Pátria (palavra que muito usam) ser apenas o conjunto de cidadãos de um país, velando pelo bem-estar de todos e de cada um, independentemente da origem, do sexo, da religião e da condição social, conceito que está muito para além das eventuais ‘selfies’, e da condição social ou política der quem as faz e ou, as grita.
O escritor Juan Antonio Molina, escreve a propósito e abrangendo estas duas situações, ‘A ideologia pós-moderna, convertida em sujeito comunicacional, abomina a História como totalidade, como caminho para o progresso, convertendo-a em fragmentos confrontados entre si, dando desta maneira cobertura à irracionalidade dos mercados, desarmando-nos intelectualmente e desactivando-nos politicamente. Assim não há alternativa ao mercado, e a História, fragmentária e caótica, não pode ser eminente pela acção do indivíduo’.
Dramática a descrição que Philippe Claudel, escritor, guionista e realizador, dá de uma prisão, que bem se pode adaptar a esta situação, ‘Parecia uma grande fábrica que não fabricava coisa alguma; só tempo, consumido, aniquilado. Os presos pareciam trabalhadores estranhos, sem máquinas, mas obedeciam a directrizes e horários’.
A terminar esta Carta diferente e a pedir reflexão, aqui deixo mais uma, do inimitável Grouxo Marx, ‘A idade não é assunto particularmente interessante. Qualquer um pode envelhecer. Tudo que precisa fazer é viver o suficiente’.
E disse!
António M. Oliveira
Não respeito as normas que o Acordo Ortográfico me quer impor
Excelente Post👏👏👏👏