Nota prévia
No quadro da série Quatro Democracias em crise profunda: França, Inglaterra, Alemanha, Estados Unidos que estamos a editar, termino hoje o conjunto de textos dedicados à situação francesa. E termino com um grande texto, grande em número de páginas e grande em qualidade. Termino então com o texto O tempo de uma clarificação: crónicas de uma anarquia anunciada de Victor Sarkis e Étienne Burle – publicado em 21 de junho de 2024 e com uma introdução de Régis de Castelnau, Uma vez as ilusões perdidas haverá tempo para a claridade.
Dadas as duas características enunciadas quanto ao texto, este merece-nos alguns comentários.
Nos anos 90 li um texto de Bertrand Poirot-Delpech, membro da Academia Francesa e jornalista de referência do Le Monde e no tempo em que este era o Le Monde e não um pasquim. Nesse texto descrevia-se a prova de admissão à entrada para Sciences Po, em Paris. A prova rainha neste concurso de entrada, para uma das mais prestigiadas Instituições Universitárias de França consistia na resposta à seguinte questão:
Fale-me de um livro que tenha lido e que ache tão importante que o considera de leitura indispensável para os seus amigos.
Naquela altura senti-me reconfortado ao ler este texto, pois referia-se ao que eu fazia habitualmente nas minhas aulas ou nas conversas que tinha com os meus alunos de mestrado e, sobretudo, com aqueles que orientava em tese de mestrado: aconselhar livros que considerava importante que os alunos lessem e na linha dos trabalhos que desenvolviam. Chegou-se mesmo a impor um livro de cultura geral em economia, variável ano a ano, na disciplina obrigatória de Economia Internacional, o que hoje seria impossível fazer, porque ler é coisa para a qual a maioria dos estudantes universitários de hoje não tem apetência e porque eu seria acusado de conflito de interesses, de conluio com o editor! Naturalmente desistiria de me lançar nessa aventura cultural, para a qual também não seria nem pago nem reconhecido enquanto tal.
Ora, hoje, julho de 2024, que faz Régis de Castelneau? O mesmo que eu fazia e ainda faço. Descobre um grande artigo, lê-o com alegria, gosta muito dele, acha que mais gente gostará de o ler e não hesita: procura contactar o autor, não consegue e então decide roubar o texto para o disponibilizar aos seus leitores e, no conjunto dos seus leitores estou também eu. É por isso que aqui temos o texto na língua de Camões.
No excerto abaixo, os autores fazem uma síntese do trabalho de Emmanuel Todd e de Jerôme Fourquet sobre a dinâmica do capitalismo atual, um texto brilhante, onde se diz o seguinte.:
“O “niilismo”, a febre do vazio, apoderara-se das nossas elites, e aquilo a que chamaria” diplocracia”, esta massa de pessoas que pensam que são melhores do que as outras e que são naturalmente superiores a elas pelo simples facto de possuírem um diploma, sem se perguntarem por um segundo o que é que está por detrás dele. Estes países, que foram nações, são, portanto, agora movidos por uma simples e estranha força de inércia: a racionalidade é agora desconhecida neles, os diplomados estão a caminhar para carreiras lucrativas, mas improdutivas, as ideologias e os valores coletivos estão mortos e enterrados, e não há mais valores transcendentes que enquadrem a vida do indivíduo” Fim de citação.
No caso deste excerto pensem em Portugal, pensem na realidade da “diplocracia” que nos invadiu e, se quiserem, liguem-na aos problemas mais recentes da nossa situação política.
Posto isto, desejo-vos coragem para a leitura deste enorme texto e com a certeza de que não darão o vosso tempo por perdido, mesmo quando os autores avançam com teses que são o oposto de coisas que desde há muito tempo nos habituámos a considerar como certas. Se este for o caso, não desistam, porém, admirem o método de análise e de exposição: uma verdadeira peça de Ciência Política. Só por isto, vale a pena o esforço da sua leitura.
Júlio Marques Mota
Coimbra, em 15 de Julho de 2024
Nota de editor: dada a extensão deste texto, o mesmo será publicado em 6 partes. Hoje a sexta e última parte.
Seleção e tradução de Júlio Marques Mota
10 min de leitura
França – Texto 10 – O tempo de uma clarificação: crónicas de uma anarquia anunciada (6/6)
Por
Victor Sarkis e
Étienne Burle
Publicado por
em 2 de Julho de 2024 (ver aqui)
Publicação original por
Le Gros Rouge qui Tâche, em 21 de Junho de 2024 (ver aqui)
(conclusão)
6) O RN, necessariamente num impasse
Nestas condições, é necessário considerar o mais friamente possível a eventualidade mais provável, a de uma chegada do RN ao poder. Para começar, temos de parar de fazer jogos assustadores com a “ansiedade do fascismo”, e uma espécie de fantasia do regresso do hitlerismo, numa sociedade que já não tem nada a ver com isso – como se o fascismo fosse uma espécie de essência demoníaca e oculta, sempre pronta a derreter-se sobre as nossas sociedades amáveis que nada pediram a ninguém. Uma boa ilustração será encontrada na pessoa do inenarrável F. Lordon, que, sempre ávido de comportamentos narcisistas, obviamente se considera perigoso e suficientemente importante para o grande capital para merecer, ele e todos os grandes palermas da esquerda, uma rusga feita pelas SA na sua casa [48]. Se ao menos o grande capital pensasse que ameaçava chegar a tais extremos! Mas é uma aposta segura que, mesmo que fosse esse o caso, eles vão deixar tranquilos os Ruffins, os Corbière e os Lordons: é preciso ter a estatura de um Ernst Tholmann para morrer em Buchenwald; e os Thalmanns, não há nenhum em França em 2024. Que toda a gente durma descansado sobre esta questão [49].
Mais seriamente, o efeito de um RN no poder dependerá de uma série de fatores que apenas a eleição determinará: maioria absoluta? Relativa? E nesse caso, coligação com quem? LR? Todo ou parte dele? Até aos deputados macronistas sobreviventes? E qual o peso dos transfugas de Reconquête? Tudo isto, apenas a correlação de forças eleitoral decidirá, e por enquanto, é bastante flutuante.
No entanto, parece que estamos a avançar para uma espécie de “união das direitas”, com contornos indeterminados. Não há nada para subverter as regras: 7 anos de macronismo demencial e todo este circo, para reconstituir o UMP! Valeu a pena…. O RN, portanto, parece estar a atingir aqui o seu processo de normalização e o desvanecimento total das suas ideias apresentadas durante 10 anos. Os velhos amigos abertamente nostálgicos do fascismo foram colocados na sala dos fundos, ou mesmo expulsos [50]. As propostas polémicas foram abandonadas uma após a outra [51]. As propostas socialmente ofensivas da época de Philipot, sobre a nacionalização dos bancos, a saída da UE, do Euro, do espaço Schengen são todas história passada. Diremos que, uma vez que os programas nunca são aplicados, isso não muda grande coisa. Não está errado. De qualquer forma, olhando para o funcionamento do RN, para o seu programa e para a sua ideologia, não há aqui mais nada de um programa de rutura em comparação com os partidos centristas dominantes, mesmo pela direita [52]. Portanto, não vamos esperar por grandes convulsões na repressão com a chegada ao poder do RN, num sentido, como no outro. Provavelmente haverá alguns ataques aos trabalhadores, por um lado, mas também provavelmente concessões, por outro, e, portanto, esperar deste evento um endurecimento da política de Macron é um sonho. Como se com este fanático do capital que era Macron, a grande burguesia precisasse de alguém mais agressivo! É difícil ver o que é que o RN seria capaz de impor como reacionário que Macron não poderia fazer, ou mesmo que ainda não fez.
O primeiro impulso do RN será, portanto,” melonizar-se”, como o que G. Meloni fez na Itália: o partido é de extrema-direita, mas em tudo, política económica, política internacional, o partido de Meloni faz como todos os partidos de esquerda e direita no poder antes fizeram. O RN é, portanto, um beco sem saída, no sentido de que não conduzirá a nada de novo.
Apenas, dois elementos são suscetíveis de explodir em estilhaços este plano da burguesia de negócios como de costume, e do “Tudo vai bem, Sra. Marquesa” [53].
Em primeiro lugar, a sociologia eleitoral do RN, que, como vimos, nada tem a ver com a de Meloni em Itália: por mais que tivesse um eleitorado perfeitamente burguês, também tem um eleitorado totalmente plebeu. Isto terá algumas consequências para o futuro. Com efeito, se o RN tentar inicialmente preservar o equilíbrio existente, a saber, a camisa de forças europeia, e o pré-domínio das classes e estratos sociais atualmente no poder, nada diz que será capaz de o conseguir. Pelo contrário, mesmo: se o RN se trancar na imobilidade, a sua base social fá-lo-á pagar por isso, e pagará caro. Porque, não esqueçamos, ela mostrou isso durante os Coletes Amarelos, a plebe manifesta- se duramente na prática: ela não se manifesta gentilmente como as camadas médias liberais-libertárias. Os seus métodos são duros, porque a vida é-lhe difícil. Ninguém, e especialmente o RN, quer enfrentá-la. No entanto, tendo prometido tanto às categorias populares, e resignando-se tão rapidamente ao status quo social, o RN correrá o risco de um aperto total. Também é possível que, impulsionado pela sua base popular, seja forçado a tentar impor compromissos à oligarquia europeia. Para, pelo menos, sobreviver politicamente. Mas um Tsipras poderá dizer-lhes: destas pessoas não se consegue nenhum, compromisso. Qualquer pedido de compromisso no âmbito da UE e da camisa de forças atlantista equivale a fazê-lo explodir. O RN será apanhado em enorme dificuldade, encurralado entre a sua base popular e a grande burguesia europeia, mediada pelas instituições comunitárias da UE, e é uma aposta segura que será esmagado por esta posição mais do que desconfortável. Mais uma vez, tudo dependerá da magnitude da sua vitória nas eleições legislativas: com uma maioria absoluta, o processo acelerar-se-á; no caso de uma maioria relativa, será abrandado. Seja como for, a chegada do RN ao poder não será semelhante à de Meloni: pois se nada aconteceu quando esta abdicou de todos os seus temas, é porque o seu eleitorado, burguês, já havia votado para ser traído [54]. Este não será o caso do RN, muito mais plebeu como vimos.
O segundo elemento a ter em conta, e que terá impacto no cenário de uma continuidade muito tranquila, é a situação económica e financeira do Estado que o RN tem de gerir. A dívida é colossal e, se o Estado quiser continuar a financiar-se por empréstimos, é uma aposta segura que será forçado pelos mercados financeiros a impor curas de austeridade sem precedentes. Mesmo supondo que queira implementar o seu programa, o RN não poderá fazê-lo sem virar a mesa contra a economia dominante, e é improvável que o faça. O RN vai, portanto, encontrar-se numa situação sem precedentes de caos social, com um país ingovernável e um estado à beira da falência. É difícil ver como as coisas podem permanecer como estão, e num status quo amável. Especialmente porque, se seguirmos os movimentos nos mercados financeiros, as ameaças contra o RN já começaram [55]: se o RN tentar alguma coisa contra a UE, o mercado de obrigações francês será atacado, e estaríamos na mesma situação que a Grécia em 2010. Não atacamos impunemente estes poderes e, se o fizermos, temos de ter os ombros capazes de aguentar a carga, o que o RN não tem.
Tudo isso causará uma pesada desilusão entre muitas pessoas: a desilusão das classes trabalhadoras que terão levado o RN ao poder, e a desilusão das camadas médias da esquerda, cada vez mais empobrecidas, que terão acreditado na “frente antifascista” que lhes terá sido vendida. O impasse do RN é, portanto, uma etapa necessária para toda a gente, a fim de perderem as suas ilusões e, finalmente, passarem a uma outra coisa. Na situação atual, não há outros caminhos, exceto uma ronda adicional de macronismo, ou um grande impostor da união da esquerda, mas que não mudarão nada na situação atual, e apenas abrandarão o ritmo da História, e nos farão recuar, dentro de alguns meses, ou anos, exatamente ao mesmo ponto, mas em pior situação. Já perdemos tempo suficiente. O RN é um beco sem saída, mas é um beco sem saída necessário.
Especialmente porque o medo do fascismo ligado à chegada do RN ao poder é partilhado com uma confusão lamentável: a entre a anomia e o comportamento desviante dos indivíduos, por um lado, e a política global fascista, por outro. É certo que a chegada do RN ao poder aumentaria os atos agressivos e desviantes de muitos indivíduos, incluindo funcionários, e pequenos grupos, que se sentiriam mais autorizados a “soltar-se”, e que seriam menos sancionados. Só que não queremos ver que, em primeiro lugar, o aumento da anomia já está presente no macronismo e, em segundo lugar, que a anomia por si só não faz o fascismo, mesmo que para tal possa ser um fator importante. Porque o RN será provavelmente apanhado numa contradição face a estas iniciativas individuais. Por um lado, tê-los-á encorajado objetivamente com a sua retórica e com as paixões que o RN mobiliza. Por outro lado, será mais o aparelho de Estado que controlará o RN do que o inverso, e este último, sempre ansioso por preservar o status quo político num conservadorismo inabalável, será certamente um fator de inércia. Podemos, portanto, ver que a chegada do RN ao poder seria um fator de anomia, e do que chamamos na introdução de anarquia, e veremos, em conclusão, quais os efeitos objetivos que produzirá.
Além disso, não devemos negligenciar um fator psico-ideológico, que chamaríamos de “prisma das etiquetas”. Se Macron foi capaz de ir tão longe na violência de classe, incluindo a violência física, é porque foi percebido pelos meios de comunicação e pela massa da população como “centrista” e “moderado”, jovem, dinâmico e “moderno”.
A força do preconceito que incidia sobre ele serviu-lhe de cheque em branco para toda a sua ignomínia. Que importam as imagens atrozes da repressão sobre os Coletes Amarelos: para todos, ele era o “moderado razoável”, aquele que em 2017 nos salvou do fascismo; como, nestas condições, podemos imaginar que ele próprio poderia ser um fascista torcionário e sanguinário? Era impossível, por isso essas acusações não eram verdadeiras. Por outras palavras: o facto de não ter sido visto como fascista permitiu que E. Macron exercesse a violência de classe com impunidade, o que certamente lhe teria sido impossível de outra forma. O facto foi verificado durante os últimos mandatos dos governos de “esquerda” (os de Jospin e de François Hollande): eles foram capazes de ir muito mais longe, por exemplo em termos de restrições orçamentais, e mesmo muitas vezes em questões de temática identitária, do que a direita de Chirac e de Sarkozy, porque foram previamente inocentados de qualquer suspeita, sendo vistos como “de esquerda”.
Assim, tudo leva a crer que um mandato RN começaria e teria lugar sob estreita vigilância, estando todos à espreita do menor traço de “fascismo”, real ou suposto, para gritar olha o lobo e brincar para se assustar. A pressão ideológica e mediática seria, portanto, paradoxalmente maior sobre um governo da RN do que sob Macron. No entanto, sabemos desde Lenine que os capitalistas nunca podem governar ignorando completamente a opinião pública e a imagem que lhe transmitem. A ironia é, portanto, picante: não é de todo impossível que o facto de o RN ser de extrema-direita aos olhos de todos a tempere na sua ação de repressão em comparação com a de Macron! A crença em categorias esvaziadas de toda a substância de classe terá, portanto, feito mais do que cegar a esquerda.
A única área em que a chegada do RN ao poder poderia imprimir fenomenologicamente a sua marca particular seria a política cultural. E, objetivamente, dado no que esta se tornou nos últimos 40 anos, surpreendemo-nos a pensar que não seria pior. A exclusão dos livros de banda desenhada e novelas gráficas do “Passe Cultural” pode fazer gritar relativistas e bourdieusianos de todos os matizes, sempre mais rápidos em querer impor One Piece do que Balzac aos estratos populares, teremos dificuldade em ver isso como uma regressão. O mesmo vale para uma possível privatização da radiodifusão pública: quem ainda é suficientemente cego para acreditar que ela oferece programas culturais de alto nível e uma independência política e ideológica suficientemente importante, para que uma passagem para as mãos de interesses privados esvazie a sua substância e seja um drama terrível? Tendo em conta os disparates que aí se produzem, apercebemo-nos de que a iniciativa seria salutar.
E poderíamos continuar a lista por muito tempo. A esquerda verá isso como uma razão para gritar “fascismo”, e nisso não parecerá muito séria. E se o Estado francês deixasse de subsidiar alguns espetáculos de teatro com atores nus no palco, porque não [56]…
7) Os dois caminhos para a anarquia
Após a apresentação destes poucos elementos, compreendemos então porque é que estamos a avançar para uma anarquia, no sentido etimológico do termo, de uma ausência de governação, e que ela é anunciada e totalmente previsível. E isso é tão verdadeiro que mal se esconde que as três forças concorrentes não querem ganhar estas eleições: nem o RN, nem os macronistas, nem a esquerda querem realmente ganhá-las, porque seria um presente envenenado.
De agora em diante, no entanto, existem dois caminhos distintos que podem levar-nos à anarquia.
Ou o RN trairá a sua base social uma vez no poder e aplicará os tratamentos da austeridade europeia com determinação. O país corre então o risco de uma explosão social sem precedentes. Também poderia ser por ocasião de uma submissão à UE. Com a base social do RN que descrevemos, podemos imaginar seriamente um J. Barrela a chegar à Assembleia e a dizer, como fez Meloni [57] que “a França precisa de imigração”, sem que nada aconteça? A raiva de classe seria gigantesca e menos silenciosa do que na Itália. Poderíamos então ver as duas partes do eleitorado do RN a enfrentarem-se numa violência sem nome: as forças da ordem, possivelmente branqueadas antecipadamente pelas leis previstas pelo RN como é indicado no seu programa [58], e as classes trabalhadoras brancas e rurais, que manifestarão o seu descontentamento, e serão então brutalmente reprimidas. A partir dessa confrontação, ninguém pode prever o que daí sairia, exceto uma anarquia generalizada.
Ou, por alguma razão desconhecida (talvez apenas para sobreviver fisicamente?), o RN terá ainda de satisfazer a sua base social e será forçado a empurrar certas áreas da camisa de força europeia. Talvez mesmo se mantenha firme em certos pontos, e ao tentar impor um compromisso, ele irá, apesar de si mesmo, causar uma rachadura nesta camisa de forças, e abrir a caixa de Pandora que irá virar a mesa de pernas para o ar. Mas, novamente, dada a natureza não pretendida desta situação por parte do RN, ele não será absolutamente capaz de administrá-la, e seria um tipo diferente de anarquia que seria estabelecido. Seja como for, o apaziguamento e a estabilidade estão muito longe à nossa frente. E melhor ainda: os Dioclecianos vão ter de esperar.
O leitor que seguiu até agora o raciocínio também terá compreendido que, a curto prazo, talvez alguns meses, talvez dois anos, todas as principais forças políticas que compõem o nosso cenário político terão desaparecido na tempestade que se aproxima, ou, em todo o caso, serão reconfiguradas a ponto de se tornarem irreconhecíveis. O macronismo já está morto, a esquerda não sobreviverá à sua própria mentira e ao muro da realidade, e o RN às suas contradições que o exercício do poder revelará a céu aberto. Os velhos lobos marinhos da política, que são Mélenchon e Le Pen, já o compreenderam de forma obscura e mantêm-se à distância de todos estes eventos [59]. Talvez até abandonem os seus partidos antes de serem desacreditados, para tentar voltar mais tarde e jogar a carta do homem ou da mulher presidencial. De qualquer forma, é uma página que se está a virar.
Portanto, não importa qual seja a distribuição atual das cartas, pois tudo será reconstruído muito rapidamente. Portanto, que os comunistas não fiquem demasiado aborrecidos por serem insignificantes neste momento, porque uma vez que as ilusões tenham sido eliminadas, haverá tempo para a clarificação política. Por enquanto, é um pouco escuro demais para os olhos dos nossos contemporâneos.
Notas
[48] https://blog.mondediplo.net/sale-tartine: Lenine referenciado por esta farsa, é para rir.
[49] Saudemos este artigo da Unité communiste que, no meio do delírio reinante, tem o mérito de recordar que a instauração do fascismo num país onde não há movimento revolucionário seria um disparate e um processo tão absurdo como uma subida sem descida. (Ver aqui)
[50] Por exemplo, as relações do partido com Serge Ayoub estão a começar a aumentar e as ligações com Frédéric Chatillon têm vindo a tornar-se cada vez mais ténues.
[51] Pensemos, por exemplo, na estupidez de Chenu sobre a dupla nacionalidade e sobre o véu. Ver aqui.
[52] Mesmo em matéria de imigração: Bardella, confuso e incapaz de compreender o que lhe dizia uma ouvinte de nacionalidade estrangeira, inventou ao vivo a categoria de “francês de nacionalidade estrangeira” (?!?). Bardella esteve muito perto de reinventar a constituição jacobina de 1793, que concedia a nacionalidade francesa após um ano de trabalho em França! Ver aqui.
[53] Mais lúcida do que muitos “marxistas” sobre este ponto, a grande burguesia, por intermédio do BCE e da Comissão Europeia, parece já ter vislumbrado esta possibilidade e estar a tentar evitá-la, planeando antecipadamente colocar a França sob a supervisão da Troika, ou do Artigo 16, ou mesmo (sejamos loucos!), as duas coisas ao mesmo tempo: Bardella pode nem sequer ter a “honra” de ser um Tsipras, e de ter a oportunidade de trair!
[54] Curiosamente, Lordon tem uma vaga noção disso no post já citado, mas, de acordo com a sua orientação pequeno-burguesa e esquerdista, assusta-se ao imaginar um RN nazi a enfrentar uma Meloni domesticada. É uma distorção, mas lógica, uma vez que Lordon sabe muito bem que o proletariado que terá colocado o RN no poder não se deixará dominar pela UE. É evidente que esta perspetiva o aterroriza. A nós, não nos assusta.
[56] Situação autenticamente vivida com alunos no seio da educação nacional …
[58] É claramente a medida mais fascista do programa de RN : ver aqui.
[59] O observador atento terá também notado a simetria da sua atitude: sem oposição aos sindicatos no seu campo, mas sem envolvimento.
Os autores
Victor Sarkis, é um filósofo francês, membro do Pôle de renaissance communiste em França (PRCF), movimento político comunista, marxista-leninista, fundado em 2004.
Étienne Burle, membro do Pôle de renaissance communiste em França (PRCF), movimento político comunista, marxista-leninista, fundado em 2004.

