Quatro democracias em crise profunda: França, Reino Unido, Alemanha e Estados Unidos — Reino Unido: Texto 4

Nota prévia

Continuamos a fazer circular textos sobre as Democracias em profunda crise. Hoje o quarto texto sobre o Reino Unido.

Quanto ao Reino Unido de hoje direi que ganhe quem ganhar, os Conservadores, os Trabalhistas ou a extrema-direita de Farage, o Reino Unido acordará amanhã pior do que estava ontem.

 

Júlio Mota


Seleção e tradução de Júlio Marques Mota

12 min de leitura

Reino Unido – Texto 4 – O Projeto de McSweeney. O diretor de campanha de Starmer entrou em guerra contra o Blairismo

 Por Tom McTague

Publicado por  em 11 de Maio de 2024 (original aqui)

 

Ao entrar no estranhamente anónimo novo edifício de escritórios do Partido Trabalhista, situado numa rua lateral de Southwark, não se pode deixar de reparar em quem está sentado e onde é que está sentado. O gabinete de Keir Starmer fica à direita, juntamente com os seus assessores mais próximos: a chefe de gabinete, Sue Gray, e a secretária privada, Jill Cuthbertson. Ao lado destes guardiões estão os veteranos do New Labour Matthew Doyle, Peter Hyman e Deborah Mattinson, todos eles trabalharam para o partido quando Tony Blair era primeiro-ministro. E ao lado deles está a nova geração: o chefe de política Stuart Ingham, o redator de discursos Alan Lockey, o diretor político Luke Sullivan e o homem dos media Paul Ovenden. Estas pessoas estarão em breve a dirigir o No. 10, a acreditar nas sondagens.

E, no entanto, a primeira coisa que chama a atenção quando se entra nesta sala chique e aberta, que será o centro nevrálgico da campanha para as eleições gerais do Partido Trabalhista, são as secretárias mesmo no meio da sala: as de Morgan McSweeney e Pat McFadden, respetivamente diretor e coordenador da campanha do partido. Os generalíssimos para as eleições do Partido Trabalhista.

Ambos são homens de origem nitidamente irlandesa, de constituição ligeira mas robusta: McSweeney nasceu e cresceu nos arredores de Cork; McFadden é filho de pais que emigraram de Donegal para Glasgow. Acrescente-se Sue Gray, filha de pais de Belfast que se mudaram para Londres nos anos cinquenta, e a equipa de topo de Starmer é notoriamente irlandesa. De fala suave mas ao mesmo tempo determinada, espera-se que cada uma destas pessoas desempenhe um papel importante no próximo governo trabalhista.

Destes três, porém, é McSweeney quem tem a aura do poder. Ele é o arquiteto e o dono da operação Starmer. “Este projeto é dele”, como disse um alto responsável trabalhista. “Ele concebeu-o; fez a investigação; tirou as conclusões; e entregou Starmer.” Como tal, McSweeney continua a ser o conselheiro intocável no coração do atual Partido Trabalhista, a fonte do Starmerismo.

A influência de McSweeney tornou-se uma fonte de muita especulação em Westminster – e, claro, de amargura na esquerda, que o vê como uma espécie de Maquiavel implacável que entregou o partido nas mãos da direita trabalhista através da força da astúcia e da mentira. E, há que dizer, há alguma verdade nesta análise. No rescaldo imediato da campanha para as eleições gerais de 2017, McSweeney assumiu o cargo de diretor do “Labour Together”, uma organização cuja intenção original era reforçar a coligação trabalhista, apenas para a transformar numa ferramenta para derrotar a esquerda corbynista como primeiro passo no caminho de regresso ao poder. Mesmo nos dias que se seguiram ao desastre da torre Grenfell [edifício de apartamentos de 24 andares em North Kensington que se incendiou em 14/07/2017 em parte devido às deficientes regulamentações de construção], quando parecia que o governo conservador poderia cair, McSweeney não vacilou no seu compromisso de abater Corbyn como líder.

Nos dois anos que se seguiram, McSweeney sondou os membros do partido para identificar o que precisavam como substituto de Corbyn, revelando uma filiação partidária que não estava perdida para um exército militante de infiltrados, como alguns acreditavam, mas que podia ser persuadida a apoiar uma figura de fora da esquerda corbynista, desde que não defendesse um regresso aos fracassos do passado. Foi a partir desta investigação que McSweeney se orientou para Starmer, o secretário-sombra para o Brexit que tinha regressado ao gabinete-sombra de Corbyn após a sua reeleição como líder trabalhista em 2016 e permaneceu com ele até à derrota em 2020. Com a orientação de McSweeney, Starmer ofereceu aos membros do Partido Trabalhista um conjunto de promessas cuidadosamente construídas: aumentar os impostos sobre os ricos, abolir o crédito universal, acabar com as propinas, defender a livre circulação de pessoas e iniciar uma revolução energética verde.

Starmer abandonou muitas delas desde que se tornou líder. Os impostos não vão aumentar, a liberdade de circulação não vai regressar e o investimento verde vai ter de esperar até haver dinheiro para o pagar. Entretanto, Jeremy Corbyn foi expulso do partido, a esquerda perdeu quase toda a sua influência e a velha direita prosperou. Então, será que o New Labour está a regressar? A ascensão de Pat McFadden sugere certamente que os Blairistas estão de volta ao coração do atual Partido Trabalhista. McFadden foi Secretário Político de Tony Blair no nº 10 e continua a ser um devoto convicto do velho mestre. A sua mulher, Marianna, é agora adjunta de McSweeney, depois de ter saído do Tony Blair Institute, que Starmer elogiou como “o melhor da inovação em políticas públicas”. Será esta, então, uma reconquista blairista?

Não – e ver o projeto McSweeney-Starmer como um regresso ao Blairismo é não perceber nada do que se pretende com ele. Nos últimos meses, falei com muitas figuras importantes do partido que trabalharam e conhecem bem McSweeney, Starmer e Blair. McSweeney não só rejeita a análise central de Tony Blair sobre a política e sobre o que o Partido Trabalhista deve fazer em consequência disso, como também, durante grande parte do tempo em que tentou retomar o Partido Trabalhista, McSweeney não lutou apenas contra a esquerda corbynista, que estava determinada a manter o controlo do partido, mas também contra a direita blairista, muita da qual tinha concluído que o partido já estava morto e estava determinada  a criar algo novo no seu lugar.

O núcleo do projeto McSweeney, por outras palavras, não é uma restauração do Blairismo, mas uma rejeição do mesmo.

Em 2017, ano em que Morgan McSweeney se tornou diretor do Labour Together, Tony Blair criou o seu Instituto para a Mudança Global. O TBI, como ficou conhecido, fundiu as várias instituições de caridade, empresas e outras organizações variadas que o antigo primeiro-ministro tinha construído desde que deixou o cargo num gigante sem fins lucrativos. No centro deste empreendimento estava uma nova unidade política cujo objetivo declarado era “renovar o centro”.

Blair recrutou um grupo de jovens e inteligentes políticos para apresentarem as ideias que considerava necessárias para salvar a ordem liberal. A sua equipa era chefiada pelo académico e escritor germano-americano Yascha Mounk, que tinha escrito uma série de avisos polémicos sobre o estado da democracia ocidental e a forma de a salvar.

A ideia central da nova unidade era promover o “centrismo radical” de Blair: a ideia de que a verdadeira divisão na política britânica já não é entre a esquerda e a direita, mas entre aqueles que estão abertos ao mundo moderno (os centristas) e aqueles que estão fechados à sua realidade e só querem explorar as queixas das pessoas em relação a esse mundo moderno (os populistas). Neste mundo, George Osborne e David Cameron são potenciais companheiros centristas, enquanto Nigel Farage e Jeremy Corbyn são populistas.

Dizem-me que Blair pensa que o Partido Trabalhista é essencialmente um produto da Revolução industrial e deve reformar-se dramaticamente para sobreviver à agitação tecnológica que está a ocorrer. O centrismo Radical, portanto, não é apenas uma tática para vencer, mas uma ideia construída sobre uma crença numa mudança tecnológica e social irresistível numa era de globalização que está a corroer a própria ideia de uma classe operária que o Partido Trabalhista foi criado para representar.

Blair há muito tempo que pensa nisso. Quando chegou ao poder, em 1997, apelou a uma nova Aliança Progressista com os Liberais Democratas. Isso, pensava ele, daria início a um novo século dominado pelo que ele chamou de “radicais”, da mesma forma que o século 20 foi dominado pelos conservadores. Ironicamente, esta Aliança Progressista morreu porque Blair era demasiado forte para precisar dela. No entanto, a ideia foi trazida de volta à vida após as eleições gerais de 2017, quando o Blairismo parecia mais fraco — com Corbyn no controlo dos trabalhistas, o governo conservador a lutar para promulgar o Brexit e apenas Emmanuel Macron a apresentar um caminho alternativo na França.

Em público, Blair insistiu que não estava de forma alguma “a defender um novo partido, a querer organizá-lo e a desejar votar num”. No entanto, ele concluiu que o Partido Trabalhista estava acabado, de acordo com alguém que compartilhou as suas opiniões, e estava envolvido em discussões sobre um novo partido. “Ele diria àqueles que pensavam o contrário dele que eles estavam a ser nostálgicos”, disse o mesmo associado. “Ele sentiu que muitos no partido não seriam capazes de se reconciliarem com a realidade de que o Partido Trabalhista era simplesmente irrecuperável, que já tinha passado da sua data de validade.”

E houve tentativas de criar novos partidos nesse momento. Em 2018, surgiu um partido centrista alternativo chamado United For Change, apoiado pelo doador trabalhista Simon Franks, que manteve por um curto período de tempo  a noção de que poderia obter sucesso capitalizando o sentimento antipolítica do momento. Ele teria contatado figuras políticas tão divergentes como Nick Clegg e Dominic Cummings para saber  se eles estavam interessados (eles não estavam  interessados). Um de seus fundadores foi Ryan Wain, agora Diretor Executivo do Instituto Tony Blair. Ao mesmo tempo, havia uma fação separatista de deputados de todo o espectro político, muitos dos quais continuariam a formar o Change UK, outro movimento centrista de curta duração que tentava eliminar a velha divisão política.

McSweeney viu-se em concorrência para as doações com outro grupo, mas tentando arrecadar dinheiro para um novo movimento no estilo “En Marche”. A alguns doadores trabalhistas foi até apresentada uma proposta formal para um novo partido, escrita em setembro de 2018, cuja informação se escapou para o Labour Together e para vários deputados trabalhistas. Aqueles que agora estão próximos de Starmer acreditam que esse projeto veio de figuras ligadas a Blair (embora não do próprio Blair).

Recentemente, recebi uma cópia deste “Movimento Político, documento de Planeamento”, sem autor, de 72 páginas, onde se apelava à criação de um novo partido que estava a ser partilhado com os doadores trabalhistas em 2018. No seu “sumário executivo”, o autor anónimo declara: “a Grã-Bretanha está encurralada, sem saída. A promessa de que a próxima geração estará melhor do que os seus pais está quebrada. A desigualdade está a destruir o país. A habitação é demasiado cara, os rendimentos são estáticos e a qualidade do trabalho é demasiado fraca para muitos. O mundo está a mudar rapidamente e estamos a afastar-nos dele. A antiga divisão binária Esquerda-Direita deixou de fornecer uma plataforma que atenda aos desafios de hoje ou do futuro.”

Tal fracasso ofereceu uma oportunidade para algo novo, argumentou o autor. “Os velhos partidos não podem enfrentar o futuro porque ficaram sem respostas, sem energia e sem liderança. Agora é o momento de a Grã-Bretanha seguir em frente e enfrentar o futuro”. Era necessário um novo “movimento” para fazer avançar “uma nova classe política”. Essa nova classe política “escalaria a inovação social que já está a verificar-se nas nossas comunidades” enquanto “incuba soluções e não ideologia”.

Essas soluções são então apresentadas numa linguagem distintamente Novo Partido Trabalhista: educação nos primeiros anos para reduzir a desigualdade; cuidados infantis universais para ajudar as pessoas a regressarem ao trabalho; um SNS forte e habitação a preços acessíveis. A reforma do planeamento também é mencionada, ou o que o autor chama de “rezoneamento de terras para cima, para fora e para dentro”. Os impostos devem ser sobre a terra, não sobre o trabalho; a economia deveria permanecer aberta; e “os limites de imigração sem sentido” removidos. A Grã-Bretanha também deve recuperar o seu papel “como líder global”, enfrentando desafios internacionais como as mudanças climáticas. “Podemos avançar para este futuro, mas apenas se tivermos a coragem de  enfrentar.” Por mais dignas que essas políticas possam ou não ser, parece improvável que formem a base de uma grande nova revolta popular.

A visão de McSweeney, de acordo com aqueles que o conhecem bem, é ainda mais dura, vendo o documento como tudo o que está errado com a política progressista hoje, tentando explorar um sentimento anti-político com um toque de clarim para uma nova classe política envolta em linguagem aparentemente de outra época. No cerne do seu desacordo, no entanto, está a atitude do documento em relação à classe. “Em cada século na Grã-Bretanha, uma nova força na política surgiu como resultado de grandes mudanças na sociedade”, afirma o documento. “Essas mudanças criam as novas coalizões sobre as quais uma nova política pode ser construída.” E a grande mudança no século 21? “O crescente domínio das classes médias e dos diplomados pelas Universidades”. Entre esses “grupos sociais em ascensão”, como o documento os chama – “diplomados, profissionais de classe média e minorias étnicas” – há uma abertura para o mundo que não se encontra entre os “grupos outrora dominantes, mas agora em rápido declínio” referidos como “eleitores brancos mais velhos, as classes trabalhadoras e os que abandonam a escola”.

O argumento central para o novo partido político proposto, portanto, é que a classe deixou de ser a divisão central na política democrática. “As opiniões de um eleitor sobre o multiculturalismo, a diversidade, a imigração e a internet são agora um melhor estimador de lealdade política do que os interesses económicos”, argumenta o documento. A maioria dos eleitores “abertos” em todas as regiões do Reino Unido acredita que “o multiculturalismo, o liberalismo social, o feminismo, a sustentabilidade ambiental, a imigração, a globalização e a tecnologia” são positivos. Como tal, “pela primeira vez num século, uma nova força nacional na política britânica poderia prosperar”. Para tirar esse movimento do chão, era necessário um líder carismático e um exército de novos apoiantes. Ah, e dinheiro – daí a proposta. O documento sugeria oferecer adesão gratuita a todos com um nível “fundador” mais alto de 5,99 por mês com a oferta: “encontrei a nova Política pelo mesmo preço que uma assinatura Netflix”.

Durante grande parte do final de 2018 e 2019, quando o Parlamento parou sobre o Brexit e Tony Blair se tornou cada vez mais franco no seu apelo a um segundo referendo para quebrar o impasse, McSweeney estava a lutar para persuadir os doadores a boicotar este novo partido proposto: não apenas porque representava uma ameaça existencial à sua própria tentativa de assumir o controlo do Partido Trabalhista – mas porque achava que a sua análise política era inútil. McSweeney e Starmer não aceitam fundamentalmente a ideia de que existe um número cada vez maior de licenciados liberais “abertos” que podem ou devem substituir as classes trabalhadoras.

Quando um doador perguntou a McSweeney qual a razão pela qual ele não deveria apoiar a proposta como um “barco salva-vidas” no caso de o Labour Together falhar, McSweeney respondeu que, se o Labour Together tivesse sucesso, a primeira coisa que ele faria seria explodir o barco salva-vidas para fora da água.

O momento relevante na formação na carreira de Morgan McSweeney deu-se muito antes de ele assumir a direção de Labour Together. Era 2008, e ele tinha sido encarregado pelo Barking e Dagenham Borough Council de promover as relações com a comunidade. De acordo com a Lei de Relações Raciais de 2000, as autoridades públicas tinham o dever de “promover a igualdade de oportunidades e as boas relações entre pessoas de diferentes grupos raciais”. Em 2008, o Conselho trabalhista concluiu que isso significava derrotar o Partido Nacional Britânico, que se tinha afirmado na área.

McSweeney encontrou um lugar falhado tanto por seu Conselho Trabalhista como pelo seu governo trabalhista. No centro do bairro estava Becontree, outrora o maior domínio municipal do mundo, apoiado pela fábrica de automóveis Ford nas proximidades de Dagenham. No entanto, quando Blair se tornou primeiro-ministro em 1997, a desindustrialização e a perda de poder de compra tinham minado o seu tecido social.

As casas foram compradas por proprietários, divididas e alugadas, muitas vezes para novas famílias de imigrantes atraídas pelas moradias mais baratas de Londres. À medida que a área se tornava mais transitória, tornava-se menos cuidada. À medida que os inquilinos iam e vinham, os proprietários simplesmente despejavam os seus pertences indesejados nos jardins da frente. Quando os moradores reclamaram, o conselho produziu panfletos rejeitando essa “desinformação” e realçando o quanto se gastou a limpar a área. Entre no British National Party, que simplesmente culpava os estrangeiros.

Para McSweeney, o problema não era da comunicação, mas da realidade. A zona tinha-se degradado. As famílias que viveram aqui durante gerações ficaram envergonhadas por as casas ao lado delas estarem subitamente uma confusão. Eles também estavam irritados que os proprietários ausentes de Hackney, Islington, Essex e além fossem capazes de agir com impunidade, enquanto eles mal podiam mudar a cor da sua porta da frente sem a permissão do Conselho. Em resposta, McSweeney encorajou a substituição do líder do Conselho existente e ajudou a pôr em prática uma das políticas mais populares da história do governo local: a “Política de jardins monstruosos”, proposta pelo novo líder do Conselho Liam Smith, com a qual o Conselho Local enviou trabalhadores para remover o lixo fora das casas das pessoas — e depois acusou os proprietários pelo problema. Em 2006, o BNP tinha concorrido com 13 candidatos nas eleições autárquicas e ganhado 12 lugares. Em 2010, perderam-nos a todos, uma vez que os trabalhistas varreram o conselho, ganhando todos os lugares no bairro.

A lição de McSweeney de Barking não foi apenas que os eleitores deveriam ser ouvidos porque isso era uma boa política, mas que os eleitores deveriam ser ouvidos porque sabiam do que estavam a falar. Tinham razão quanto a Barking e o conselho estava errado. Nacionalmente, no entanto, uma história semelhante estava a acontecer, pensava McSweeney. Em 2010, o Partido Trabalhista entrou na eleição dizendo aos eleitores que a recessão não era culpa deles porque foi causada por uma crise global; eles estavam a agir como um gigante Barking Borough Council. Os eleitores tinham todo o direito de culpar o governo trabalhista pela realidade da queda dos padrões de vida. Era necessário algo de novo, mas os Trabalhistas não apresentavam nada como resposta à situação.

McSweeney levou esta análise ao seu trabalho no Labour Together. E assim, enquanto lutava contra os separatistas que tentavam criar um novo movimento para substituir o Partido Trabalhista, ele também estava a afastar os avanços do vice-líder trabalhista, Tom Watson, que havia criado o “Future Britain Group” para impedir que os parlamentares trabalhistas deixassem o partido. Embora os objetivos de Watson parecessem alinhados com os trabalhistas, McSweeney concluiu que o seu grupo se parecia muito com uma tentativa de ressuscitar o New Labour unindo as antigas tribos de partidários de Blair e de Brown que se disputavam entre si desde a derrota do partido em 2010. E o New Labour, na opinião de McSweeney, não era uma solução para o Corbynismo, mas uma barreira à sua derrota.

De qualquer forma, de acordo com aqueles que o conhecem, McSweeney acredita que Blair só se afastou mais da realidade da vida das pessoas ao longo dos anos desde que deixou o poder. Em vez de tentar melhorar os padrões de vida dos pobres comuns em lugares como Barking, o centrismo radical que ele propõe agora parece basear-se na ideia de que os partidos progressistas estariam melhor se simplesmente reunissem uma nova coligação de eleitores que não fossem tão pobres. Esqueça os inquilinos da casa do conselho que votaram Leave (saír da União Europeia); o alvo seriam os proprietários que votaram Remain (os defensores de continuar na União Europeia)

Como diretor do Labour Together, McSweeney aconselhou Starmer de que a única maneira de conquistar os membros do partido e o eleitorado mais amplo era rejeitar uma tal análise e ir além do New Labour. Isso era necessário politicamente, para que os trabalhistas tivessem uma chance de ganhar novamente. Mas foi também um reflexo da realidade. Mesmo antes da crise financeira, as pessoas comuns não estavam a sentir os benefícios do crescimento económico nacional da maneira que o deveriam, argumentou McSweeney. O BNP estava a crescer em Barking antes de 2008.

O deputado trabalhista de Dagenham, Jon Cruddas, disse-me que Barking era o canário na mina de carvão da política britânica-e foi preciso um homem de Cork para o explicar.

O radicalismo no cerne do projecto McSweeney-Starmer é que ele está, de facto, a tentar provar que Blair está errado — mas a utilizar muitas das ferramentas que Blair dominou para fazer o que fez. Quando Starmer apareceu ao lado de Blair no palco da Conferência Future of Britain do TBI no ano passado — amplamente divulgada como o encontro dos dois líderes — Starmer realmente criticou de forma subtil a visão política do seu antecessor. “O projecto”, declarou ele, falando dos seus próprios desígnios sobre o poder “é devolver o Partido Trabalhista ao serviço dos trabalhadores, tornar-se mais uma vez o veículo natural das suas esperanças e aspirações.”

Havia outros projectos disponíveis, admitiu. Uma alternativa era o que ele chamou de “Situação bizarra da Política de identidade”. Mas o outro foi mais apontado. “Poder-se-á até mesmo afastar completamente das preocupações dos trabalhadores”, disse Starmer enquanto Blair assistia. “Isso parece-me ridículo, mas algumas pessoas sugeriram-no seriamente após o referendo do Brexit”. Starmer aqui, é claro, está convenientemente a patinar sobre o seu próprio apoio a um segundo referendo neste momento, mas há pouca dúvida quanto ao alvo a atingir com as suas observações. Starmer, em seguida, acrescentou que, embora tenha concordado com Blair que a revolução tecnológica seria uma mudança de jogo, havia “um lugar onde eu discordo com Tony: a ideia de que isso está de alguma forma além da divisão entre esquerda e  direita. Não, para mim, este é um momento progressista.”

Para Starmer, as lições da história recente não são realmente Blairistas. A esquerda venceu as eleições, disse ele, quando persuadiu os eleitores de que “proporcionaria, por mais volátil que seja o mundo externo, segurança para a sua família, a sua comunidade e nosso país.” Isto, de facto, é exatamente o que os trabalhistas não conseguiram fazer em 2008.

Talvez seja por isso que Blair nunca foi totalmente aceite. Peter Mandelson, que permaneceu próximo e conversou com ele durante este período, acredita que Blair não estava inicialmente convencido de que Starmer ou mesmo McSweeney, o arquiteto do projeto, poderiam ter sucesso. Durante grande parte do primeiro ano de Starmer, Blair pensou que Starmer não poderia mudar as coisas. Mandelson, em contraste, viu em McSweeney uma versão de si mesmo. Aqueles que conhecem bem McSweeney dizem que ele tem um respeito saudável por Blair, e vê-lo como um político talentoso que estava no seu melhor nos seus primeiros anos, quando ele tinha um senso claro das preocupações das pessoas comuns. No entanto, McSweeney também acredita que Blair perdeu esse tipo de ideia, desde então.

Em setembro do ano passado, McSweeney e Starmer foram a Montreal para participar na “Global Progress Action Summit”, onde os principais políticos de centro-esquerda do mundo se reuniram para discutir “novas ideias e direções ousadas na governação progressista”. A Cimeira atraiu alguns dos maiores nomes da política centrista: Justin Trudeau, Jacinda Ahern, Mark Carney, David Miliband, Tony Blair.

McSweeney odiava isso. De acordo com aqueles que falaram com ele depois, McSweeney sentiu que muitos dos argumentos apresentados estavam desconectados da realidade. O mundo seguiu em frente, mas grande parte do conteúdo parecia ser versões refeitas do Clintonismo. Durante a sua sessão, Blair foi acompanhado no palco pela deputada Liberal canadense Anna Gainey, que afirmou, quase como um aparte, que o populismo era o produto da “ansiedade” — o oposto da visão de McSweeney.

Blair, por sua vez, reafirmou a sua ideia de que a próxima revolução tecnológica era a questão central no mundo de hoje. “A missão da política progressista agora … é entender essa revolução, dominá-la e aproveitá-la”, disse ele. Em essência, então, a missão é tecnocrática.

A análise é Blairismo aplicado ao mundo moderno. Hoje, Blair vê o mundo de cima para baixo: grandes ondas oceânicas, movimentos tectónicos, mudanças de época, etc. Voando de capital em capital, conversando com líderes e bilionários plutocráticos, ele vê tendências muito além das fronteiras nacionais: países a subir e a descer, populações em mudança, políticas em desenvolvimento e de tecnologias a derrubarem tudo. “Ele realmente opera numa estratosfera que nenhum outro primeiro-ministro britânico jamais operou antes”, observou um dos seus amigos

Não é difícil ver como Blair poderia ter ficado frustrado com o paroquialismo da política britânica do dia-a-dia, não convencido pela importância das políticas de “monstruosidade”. E talvez tenha razão. O desafio para Starmer e McSweeney, caso entrem em Downing Street ainda este ano, será contar uma história convincente sobre o que estão a tentar fazer que não comece a parecer pequena no momento em que entram no número 10. Necessitarão de um projeto para governar, bem como para vencer, tendo em conta as grandes forças globais do tipo que hoje fixam o olhar de Blair. Para que Starmer seja um líder do Conselho em geral, ele precisa fazê-lo em vestes imperiais. A forma como o faz dependerá em grande parte do papel que encontra para o guardião da chama do “projecto”: Morgan McSweeney.

 

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O autor: Tom Mctague é editor político em Unherd. É autor de Betting The House: The Inside Story of the 2017 Election.

 

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