Teoria e Política Económica: os grandes confrontos de ontem, hoje e amanhã, também – uma homenagem ao Joaquim Feio — Parte B: Melissa – Texto 3: Melissa em 29 de outubro de 1949.  Por NATALE PACE

Reflexos de uma trajetória intelectual conjunta ao longo de décadas – uma homenagem ao Joaquim Feio

 

Capítulo 5 – Da teoria da renda diferencial de Ricardo à violência da renda absoluta de Marx

Seleção e tradução de Júlio Marques Mota

  8 min de leitura

Parte B: Melissa – Texto 3: Melissa em 29 de outubro de 1949

 Por NATALE PACE

Publicado por  em 30 de outubro de 2020 (original aqui)

 

«Il passato di tanti anni fa

alla fine del quarantanove

è il massacro del feudo Fragalà

sulle terre del Barone Breviglieri

Tre braccianti   stroncati

col fuoco di moschetto

in difesa della proprietà.

Sono fatti di ieri»

Lucio Dalla – extrato da canção Passato, do álbum “Il giorno aveva cinque teste”

“Todos aqueles que esquecem o seu passado estão condenados a revivê-lo”, escreveu Primo Levi.

 

É verdade, ai das pessoas que esquecem o seu passado, porque por mais esforços que façam para apagar os horrores, os fracassos, os erros, esses esforços resultarão em álibis, justificações, absolvições, e então os horrores disfarçar-se-ão noutros disfarces para voltarem a repetirem-se.

Hoje queremos recordar: recuemos alguns passos.

Em 1944, o socialista de Catanzaro Fausto Gullo, sem o esperar, foi nomeado Ministro da Agricultura do governo provisório de Badoglio e, sem o querer, passou à história como Ministro dos Agricultores. Foi Fausto Gullo que propôs e fez aprovar o chamado projeto de lei sobre as “terras incultas”:

“As associações de camponeses, constituídas em cooperativas ou outros organismos, podem obter a concessão de terrenos privados ou públicos não cultivados ou insuficientemente cultivados, ou seja, que permitam a prática de culturas ou métodos de cultivo mais ativos e intensivos, também em relação às necessidades da produção agrícola nacional”.

A Calábria foi a primeira região a organizar-se para a aplicação de uma regulamentação revolucionária, por simples que ela fosse. Acreditaram realmente nela e dezenas de milhares de camponeses de todas as cidades da região deslocaram-se para ocupar latifúndios não cultivados, cheios de espinhos e silvas. Tratava-se de latifúndios que os Bourbons tinham atribuído às comunas a cinquenta por cento, mas que centenas de barões Berlingeri tinham abusivamente tomado na totalidade.

No dia 29 de outubro, há setenta e um anos, as planícies de Melissa foram festivamente invadidos por homens e mulheres convencidos de que a lei é a lei, e que a lei diz que as terras não cultivadas podem ser ocupadas por camponeses para as transformar em locais de produção agrícola, para fazer delas  lugares de produção agrícola, para obterem farinha, pão e fruta e bens de primeira necessidade, para tentar subir a ladeira da miséria, para evitar que os seus pais fossem para a América à procura do pão que a eles lhes faltava, esta redenção social que os via escravos e servos, deixando as suas mulheres, esposas, noivas, os velhos e as suas crianças em regiões cada vez mais despovoadas.

Os trabalhadores de Melissa acreditaram, acreditaram no impossível: o Estado não é apenas uma ilusão hiperbólica, pode tornar-se uma solução.

Mas naquele Estado, valia mais um Berlingeri saciado do que mais de mil camponeses esfomeados, e o Estado mostrou-se nas propriedades de Fragalà di Melissa, ocupadas há dias e onde homens e mulheres, velhos e crianças tinham iniciado o cultivo, plantando vegetais, de enxada na mão e faca de enxertia no bolso, cuspindo saliva nas palmas das mãos para evitar calos. Mostrou-se também nas fardas das tropas móveis especiais (polícias de choque) que chegavam de longe, sem que a ninguém ocorresse minimamente que pudessem ter a mais pequena maldade no coração.

Homens, mulheres, velhos e crianças, esfarrapados, encharcados de suor, ao vê-los, dispuseram-se em semicírculo para dar as boas-vindas ao Estado ao som de “Viva a polícia, viva os carabineiros da República!” Na primeira fila, as crianças, na segunda fila as mulheres, depois os velhos que não quiseram ficar em casa, atrás deles os homens ainda com enxadas nas mãos e facas de enxertia nos bolsos, ainda a suar, as palmas das mãos ainda a salivar para evitar o aparecimento de calosidades.

As forças militares , organizadas para entrar em guerra contra os bandidos sem terra, cumpriram as ordens do Estado: foram disparadas rajadas de espingarda ao nível dos olhos, primeiro com balas de madeira (que doíam de qualquer forma, porque eram inesperadas), depois, quando a multidão assustada se espalhou pelos campos, com balas reais, com balas para matar.

Francesco Nigro morreu com 29 anos.

Giovanni Zito morreu aos 15 anos.

Angelina Mauro, morreu com 23 anos, alguns dias depois devia estar a vestir um vestido de noiva

Dezassete outros ficaram no chão, feridos.

Todos baleados pelas costas.

Morreram e foram feridos da mesma forma, idêntica, que as mulas e outros animais mortos em retaliação, para o derradeiro e ultrajante castigo. Fuzilados como foram os barris cheios de água para regar as plantas, dar de beber às galinhas, aos porcos.

Era um dia sombrio, aquele 29 de outubro de 1949, não muito diferente destes dias de fim de outubro com momentos em que chove pouco e outros em que chove muito, como dizem os napolitanos. Tinha amanhecido como um dia de festa para os camponeses de Melissa, que em Fragalà festejavam a alegria de ter um pedaço de terra para cultivar, de trabalhar para ganhar a vida.

Foram escritas páginas memoráveis para recordar e celebrar esses momentos tristes e trágicos da história calabresa. Escolhi as páginas finais “Marcha dos trabalhadores de Melissa” de “Calabria grande e amarga” de Leonida Repaci, e, cada vez que as releio,  o meu coração gela de emoção.

A chegada do pessoal com as bestas de trabalho  a Fragalà é saudada por gritos de alegria e agitação de bandeiras. Há no ar uma ponta de sol que perdeu a sua força e que já se espalha como uma faixa de sombra e de calma sobre a balustrada. Depois de ter feito um círculo à sua volta, Peppe Campana ajoelha-se e beija o chão. O seu gesto é imitado por toda a população. Onna Cuncia e Grazia Palà, incapazes de se curvarem por causa das suas barrigas inchadas, escovam a terra com dois dedos, que depois levam religiosamente à boca.

Reunidos, debaixo de uma oliveira brava, com a sua folhagem larga e esparsa, com os cestos de géneros alimentícios, com os barris de água e as garrafas de vinho, faz-se a primeira chamada dos que vão guiar as charruas puxadas pelas bestas. Em seguida, são chamados aqueles que constituem a primeira leva de lavradores nos terrenos mais duros e secos. São formadas dez equipas sob o comando de um cabo, que distribui os instrumentos de trabalho aos seus camaradas. Quase todos são jovens entre os vinte e os vinte e cinco anos, robustos apesar das privações sofridas, para quem um pedaço de pão preto e um tomate cru são suficientes para partir pedras ao sol. As mulheres jovens, mais ou menos da mesma idade que os homens, também entram nas equipas. Andam a sachar, pode dizer-se, desde crianças, e agora não é altura de se pouparem. Maria Ferraro e Angelina Mauro não se querem separar e pedem para sachar lado a lado. A força de uma estimula a força da outra. E depois, mesmo suando com a enxada, pode-se falar de amor, de enxovais, de casamentos, o que diminui o cansaço.

Formam-se equipas mistas de jovens e velhos, sob o comando de um destes últimos. Seria a vez de os velhos deitarem as sementes, de os jovens as enterrarem, mas quem poderia impedir Cosimo Malopinto, Natale Cicala, Cristo Surace, Peppe Campana, de enfiarem a lâmina da enxada na terra como nas malditas costelas da Fome?

Formam-se também equipas mistas de mães e jovens, de velhos e jovens, sob o comando de um velho ou de um jovem, à vez.

Enquanto apertam a enxada para dar o primeiro golpe, as mães não deixam de olhar para os pequeninos que colocaram numa elevação do terreno, para além do limite da lavoura. À beira desse limite, as crianças, rodeadas de cães, ficam a observar extasiadas, invejando os mais velhos e apressando os seus pensamentos para uma idade mais avançada.

O trabalho já começa às seis da manhã e prossegue sem interrupções até às nove. Uma grande fatia de terra já está limpa e arada. Os rostos gotejam suor ao sol, cada vez mais quente, que bate nas lâminas das enxadas como no vidro. Às nove horas, há uma pequena paragem, cerca de vinte minutos, para comer um bocado de pão, uma mão cheia de azeitonas, talvez um pimento, tudo acompanhado por um gole daquele bom vinho de Melissa que tem a cor densa das ginjas.

O trabalho recomeça e prolonga-se até ao meio-dia sem interrupção. A terra limpa de arbustos, removida pelos arados e pás, começa a mostrar-se, a aparecer com as suas manchas vermelhas e pretas ao sol.

Alguém propõe que se acampe durante a noite em Fragalà, para não perder tantas horas a caminhar entre Melissa e a terra ocupada. A proposta é discutida enquanto as mulheres empilham as coisas boas trazidas pelas várias famílias nos tachos e panelas alinhados. Como faltam pratos e garfos, estes últimos são compensados com canas silvestres talhadas e com espigões para espetar as batatas, os pimentos e o resto, que se dispensam dos pratos, pescando com as canas pontiagudas diretamente para as panelas.

A refeição começa e prolonga-se alegremente por mais de uma hora: Todos comem com bom apetite, mesmo Onna Cuncia que já não tem aquele espasmo na ponta da sua barriga (Nossa Senhora ouviu as suas súplicas), mesmo Grazia Palà come por duas pessoas, por ela e pelo feto que rola dentro dela; Também Rosario Garre, apesar de grávida, também quis enxertar e agora repõe as forças, engolindo bocados cheios que imediatamente se transformam em sangue, ajudado por longos goles de vinho, que devolvem o sol que as uvas absorveram  para amadurecer e endurecer.

Neste preciso momento, do lado sul da encosta, avançam os militares armados, vindas s especialmente da Apúlia vizinha. São centenas e estão todos armados de mosquetes, com bombas nas mochilas. Avançam como na guerra, dobrados sobre as pernas, encurvados o mais que podem para evitar os tiros de metralhadora dos camponeses de Melissa. Estes, quando os veem, não se mexem, continuam a sachar em silêncio. Os militares não confiam nessa calma traidora. Aqui estão eles, avançando rapidamente contra as equipas de camponeses que ousaram esculpir com a enxada o direito eterno do proprietário. Estão agora a duzentos metros de distância, estão agora a cem metros de distância, e os trabalhadores continuam a golpear a charneca com os seus golpes precisos, pontuados por um chiado algo pesado na garganta.

É a vez de Peppe Campana, o mais velho de Melissa, levantar a cabeça. Olha para as fileiras que avançam e grita com uma voz solene:

– Meus filhos , sejam bem-vindos. Estamos a trabalhar muito, não pequem diante de Cristo…

Dois jovens, Francesco Nigro e Giovanni Zito, levantam-se ao seu lado.

O primeiro grita, protegendo a voz com a mão:

– Vós também sois filhos do povo. Nós só queremos pão. Não temos armas… – grita o outro.

– Esta terra abandonada não serve a ninguém… Para nós, pobres, é a graça de Deus… Vós sois nossos irmãos… –

Não podem dizer mais nada. Ao breve comando de um graduado, os militares abrem fogo. Zito e Nigro caem no seu próprio sangue, arrasando os regos que tinham cavado.

Ileso, no meio do assobio das balas, está Peppe Campana. Branco como cera, grita, levantando os braços para o céu:

– Cobardes, matais aqueles que nada vos fizeram. Sejam amaldiçoados. Vós e os vossos filhos até à sétima geração… –

Continuando o esforço de guerra, os militares atacam outros esquadrões de trabalhadores. Cai fulminada Angelina Mauro, que se tinha apressado a içar a bandeira ao sol, cai no chão. Desmaia, atingida na testa, enquanto dezenas de feridos se torcem à sua volta.

Nesta altura, os vingadores param para ver o que acontece. O que acontece é que os que escapam se atiram sobre os mortos e moribundos para os chorar ou para os salvar. Este espetáculo desperta a veia hilariante dos soldados. Um deles tem como alvo uma mula enlouquecida, que arrasta o seu arado pelo campo sem comer nenhuma  erva . O militar faz uma boa pontaria e a mula cai morta. Outros militares pensam que a água dos barris não é adequada para lavar as feridas dos moribundos e os rostos dos mortos. Disparam contra os barris de água que se escavacam no chão como cascas de nozes.

Nenhum militar pensa em metralhar a pequena criança de Grazia Palà vinda da escuridão. A mãe está inconsciente. Deitada no chão, continuando a sangrar do ventre descoberto, parece já morta. Uma rapariga segura o pequenino ao peito. O recém-nascido parece um enorme inseto vermelho do qual, por milagre, sai um lamento humano.

Esta é a escrita de Repaci.

As tentativas de reforma foram mais tarde frustradas e os mesmos decretos de “terra para os camponeses” desejados por Fausto Gullo foram esvaziados pelo seu sucessor, um certo Antonio Segni, um rico proprietário de terras e futuro Presidente da República.

Mas o sacrifício daquelas vidas não foi em vão e, na história da Calábria e do movimento camponês, permanece como um símbolo do desejo de redenção do campesinato, já não com o boné na mão e o correspondente cartaz, mas com a aspiração a um ideal de igualdade e dignidade, do direito ao trabalho. Poucas horas mais tarde, o Congresso Mundial para a Paz, organizado em Roma pelo Partido Comunista entre 28 e 30 de outubro de 1949, deu grande relevo internacional aos acontecimentos de Melissa.

Tudo isto deve ser recordado, e sempre. Caso contrário, o passado, nos seus factos mais desumanos e dolorosos, volta, e volta a fazer-nos sofrer.

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O autor: Natale Pace poeta, escritor, ensaísta e jornalista, nasceu e vive em Palmi.Durante mais de trinta anos esteve envolvido na Federação do emprego público da CISL, com importantes funções regionais e nacionais.

A sua amizade pessoal com Leonida e Albertina Repaci, mas também com Giuseppe Selvaggi, Pasquino Crupi, Antonio Altomonte, Domenico Antonio Cardone, Gilda Trisolini, Carmelina Sicari, Giuseppe Bova, bem como o compromisso nos anos 60/70 em Melicucca, onde viveu por alguns anos, no círculo Cultural dedicado a Lorenzo Calogero, para o renascimento da voz isolada do poeta suicida, forjaram em Pace a veia cultural, especialmente no que diz respeito às produções artísticas e literárias da Calábria. Publicou poemas “A terra e outras canções” em 1978; poemas “A semente sob a neve” em 1988; contos “Pequenas penas” em 2001; “A dívida – Leonida Repaci na história” Laruffa ed. 2006; poemas “Convites supérfluos” em 2017; “.

Colabora actualmente com as actividades do círculo cultural Rhegium Julii e é editor-chefe da revista mensal Corriere della Piana. (Fonte Pellegrini Editore).

 

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