CARTA DE BRAGA – “das funções do Estado e dos que se crêem deuses” por António Oliveira

A função do Estado é, essencialmente, manter a paz entre os cidadãos. Se um deles quiser uma qualquer coisa e um outro também a querer para si, e se não houver quem regule e organize a convivência humana desde que cada um comece a soltar as primeiras palavras, dando especial importância à educação, o que vai imperar é a lei do mais forte, e são variadíssimos os exemplos que todos temos disso, em casa, na escola, na rua, no bairro, nos media e noutros meios quaisquer, mesmo a falar baixinho, de boca ao ouvido.

O Estado surge como necessidade de construção da paz. Abrimos mão de nossas capacidades de autoconservação, de autodefesa e as delegamos ao Estado, constituído através de um contracto, para que cuide de nossa segurança, para que possamos viver civilizadamente, para que não vivamos em eterna guerra de todos contra todos’.

A afirmação é do filósofo político inglês Thomas Hobbes, uma das muitas reflexões constantes na sua obra maior, ‘Leviatã’, mas Hobbes acrescenta ainda, ‘E as liberdades em tudo isto? Sede felizes, está nas vossas mãos escolher ou recusar o pacto social, de transferir (ou não) o poder a um homem ou uma mulher forte que assuma a nossa segurança, faça respeitar a lei antes mesmo de determinar os direitos e defenda a soberania. Tendes a liberdade de confiar nele, e de ele vos proteger contra todos’.

Vem isto a propósito de duas eleições que parecem estar agora a comandar a actualidade mundial, as da Venezuela e a dos states, estas marcadas por uma mudança de ‘actores’, que levou também a uma alteração sensível do ‘script’ da estória toda, quando um dos ‘heróis’ foi substituído por uma ‘heroína’, ainda por cima filha de um caribenho e de uma indiana.

Na Venezuela só foram aceites, como observadores, as delegações dos países aliados do autocrata, que não ousassem uma qualquer crítica ao processo eleitoral. Nos states e, de acordo com a imprensa internacional, o louraço despenteado mental que quer voltar ao poleiro, já afirmou, ‘Pode haver uma Terceira Guerra Mundial se não ganho as eleições, por haver gente incompetente à frente deste país’.

À hora em que escrevo este texto ainda não saíram quaisquer resultados, as da Venezuela só serão conhecidas durante a noite e as dos novos actores da fita americana, ainda levam tempo; lembro-me apenas de o louraço ter afirmado, ‘À Fox News, em Dezembro passado, que no caso de vitória eleitoral em 5 de Novembro será um ditador, mas apenas no primeiro dia, para encerrar a fronteira sul com o México e aumentar a exploração de petróleo’.

Mandaram-me há já algum tempo, um apontamento da ‘Play Ground BR’, narrando o encontro entre o Cacique Seattle, chefe dos Peles Vermelhas da região de Washington, com o presidente Franklin Pierce dos EUA, quando este lhes quis comprar as suas terras em 1854. Aqui não posso deixar senão um curto resumo das palavras do Cacique, que também servem para explicar tudo o que lhes aconteceu depois.

Talvez seja porque sou um selvagem enão entendo, como é possível comprar o céu ou o calor da terra? Essa é, para nós, uma ideia estranha. Se nós não somos donos da frescura do vento, nem do brilho da água, como poderia o senhor comprá-los? Cada pedaço dessa terra é sagrado para o meu povo. Sabemos que o homem branco não entende os nossos costumes. Cada raio de luz e o zumbido dos insectos são sagrados para o pensar e o sentir do meu povo.

Se lhes vendemos as terras, os senhores deverão lembrar que ela é sagrada. Esta água brilhante que corre pelos rios, é o sangue dos nossos antepassados. Ver as suas cidades machuca os Peles Vermelhas. Talvez seja por ser um selvagem e não entendo.

Não existe silêncio nas cidades do homem branco. Nenhum lugar onde se pode ouvir o crescer das folhas na Primavera, ou o bater das asas de um insecto. Se lhe vendemos a nossa terra, por acaso os senhores poderão fazer com a Terra o que quiserem, apenas porque um Pele Vermelha assinou um pedaço de papel?

O homem branco quer possuir o poder, já acredita que é Deus. Isso é o que sabemos: a terra não pertence ao homem. O homem pertence a Terra’.

Está aqui, nestas palavras simples de um homem também simples, mas sábio, a melhor resposta que se pode e poderia dar a todos os louros ou menos louros, mais ou menos descabelados, que por aí andam a acreditar que são deuses, a maior parte das vezes sem alguém ter assinado um qualquer papel, e deixam milhões mortos ou miseráveis, esquecendo que são, ou eram, tão humanos como eles e que a dignidade não se mostra com tanques, com drones, com mísseis e, como disse Garcia Pereira no DN de 27.07.24, ‘Em Democracia, nem pode haver poderes, quaisquer que eles sejam, incontroláveis e/ou incontrolados, nem podem existir seres moral ou juridicamente superiores aos seus semelhantes, ungidos por qualquer espécie de toque divino que os arvore em reguladores ético-sociais”.

António M. Oliveira

Não respeito as normas que o Acordo Ortográfico me quer impor

1 Comment

  1. Sobre a Venezuela, conviria não ignorar o regime de sanções que os Estados Unidos impuseram há alguns anos, as quais retiram a possibilidade de o país ter uma vida normal, tanto econômica como política. Quanto a observadores nas eleições, também não se pode esquecer a presença de uma rede internacional de boa reputação com experiência nestes processos eleitorais, a par de outras alinhadas com o actual governo. Que se sabe, sobretudo da primeira?
    Claro que a situação não é normal; nem podia ser. Mas não há um lado bom e outro mau. Quando muito, haverá um que é pior. E nenhum que seja melhor.

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