MANUEL SIMÕES – CEIFEIRA, NÃO DOBRES TANTO A CINTURA

 

Ceifeira, não dobres tanto a cintura

 

Ceifeira,
cantar agreste
na flor do vento,
trigo e suor
amargurado
no esquecimento.

Ceifeira,
de sol a sol
teu canto trespassa
o trigo.
Com lâmina
fere a espiga,
põe-na revolta,
explosiva.

Ceifeira,
ó que amargura
te vai no corpo
agravado.
Sempre a dar
o corpo à terra
e teu sangue
amotinado.
Ceifeira,
levanta a foice
não dobres tanto
a cintura.

Quem trabalha
a terra alheia
não pode usar
a ternura.

in Crónica Breve, (Tomar, 1970)

 

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