PALCO 226 – MULHERES EXEMPLARES – por Roberto Merino

 

A RTP2 repete numa segunda emissão um programa que eu já tinha visto e que aborda o tema da bruxaria e o papel das mulheres. Nesta produção da BBC, a historiadora Lucy Worsley investiga em quatro capítulos dramáticos da história britânica, numa perspectiva contemporânea, os julgamentos: das bruxas do século XVI, a peste negra, a loucura do rei George III e os príncipes da torre.

No primeiro episódio sobre as bruxas L. Worsley aborda, entre outras coisas, como se iniciou em 1590 este processo que está ligado à Escócia, e no qual se destacou o próprio rei James VI. O Rei tinha desenvolvido o medo de que as bruxas planeassem matá-lo depois de ter sofrido tempestades no mar enquanto regressava da Dinamarca.

Em 1487 foi lançado o livro Melleus Meleficarum, pelos inquisidores Heinrich Kraemer e James Sprenger. Com 28 edições, esse volumoso manual define as práticas consideradas demoníacas. A obra de Kraemer, “um catálogo de sadismo e perversão”, conclui que as feiticeiras são geralmente mulheres, em razão da sua suposta credulidade e baixa inteligência. Já os homens, considerados mais fortes e inteligentes, estariam mais aptos a abominar a feitiçaria.

O rei criou subsequentemente comissões reais para caçar bruxas no seu reino, recomendando a tortura ao lidar com suspeitas, e em 1597, escreveu um livro sobre a ameaça que as bruxas representavam para a sociedade, intitulado Daemonologie. Nesse “manual de caça” o rei James VI, nota que “a experiência diária” prova como elas, as bruxas, relutam em confessar sem tortura. Um número aproximado de vítimas é impossível de obter: muitos registos perderam-se ou foram destruídos. As estimativas atuais do número de pessoas que foram executadas por bruxaria variam de cerca de 35 mil a 50 mil.

Entre as torturas aplicadas às mulheres,  já nessa época, se destaca a tortura do sono, que consiste, ao que sabemos, em privar às pessoas do sono mediante uma luz intensa e mantê-las de pé, sempre acordadas! De notar que a cartilha defendida sob o presidente norte-americano G. Bush II, excluiu do conceito de tortura métodos como o waterboarding (imersão em água da cabeça da pessoa interrogada, com simulação de afogamento) e que, nas palavras de um congressista norte-americano, admitiam a licitude de todos os métodos de interrogatório parando apenas à beira da mutilação do prisioneiro.

Também na RTP2, um documentário sobre a mulher cineasta Alice Guy-Blaché/ Be Natural, uma verdadeira pioneira que entrou no mundo do cinema logo no seu início.

Começou a carreira como secretária de Léon Gaumont e, aos 23 anos de idade, inspirou-se para fazer o seu próprio filme chamado “La Fée aux Choux” (A Fada do Repolho), um dos primeiros filmes de ficção. Após a carreira cinematográfica na Gaumont, seguiu para os EUA onde fundou e dirigiu o seu próprio estúdio em Fort Lee, Nova Jersey.
Ao longo da carreira escreveu, produziu ou realizou 1.000 filmes, incluindo 150 com som sincronizado durante a era “muda”. O seu trabalho inclui comédias, faroestes e dramas, bem como filmes com temas inovadores, como o abuso infantil, a imigração, a paternidade planeada ou o empoderamento feminino. Alice Guy-Blaché conquistou um lugar na história ao fazer o primeiro filme conhecido com um elenco totalmente negro.

O documentário de Pamela Green revela a verdadeira história de Alice Guy-Blaché, destacando não apenas as suas contribuições pioneiras para o nascimento do cinema, mas também a sua aclamação como força criativa e empreendedora nos primeiros anos da produção cinematográfica, e o ápice da fama e do sucesso que alcançou antes de ser excluída da indústria que ela própria ajudou a criar.
Através de testemunhos de protagonistas do mundo do cinema, imagens raras de entrevistas a Alice Guy-Blaché, o documentário reescreve a história do cinema, revelando pela primeira vez toda a extensão da vida e obra de Alice Guy-Blaché. (informação RTP2)

Entre as curiosidades que o documental destaca, o facto de nas diferentes publicações sobre a História do Cinema, o nome desta mulher notável não figurar. Em particular naquela, que tenho, e considerava como a mais completa na altura da sua primeira edição, a de Georges Sadoul (*). 

Be Natural, retira o título de uma orientação que a realizadora da SOLAX dava aos seus actores (“sejam naturais”). Não é este o primeiro documentário sobre Guy-Blaché, antes deste, um filme de Susan Koch, e outro, Le Jardin Oublié: La vie et L’oeuvre d’Alice Guy-Blaché, produção canadense de 1996 dirigida por Marquise Lepage que contou com a participação da nora da cineasta, Roberta Blaché, e da neta, Adrienne.

Uma tortura medieval aplicada entre nós!

 

A mulher que mais horas de tortura sofreu às mãos da PIDE.

 

Sob este título as jornalistas Carolina Reis, Manuela Ferreira e Margarida Martins da SIC, contaram nas vésperas do 25 de Abril de 2024, a história de Aurora Rodrigues marcada por um dramático recorde. Hoje, é uma procuradora jubilada e conta que nunca perdeu a força.

Conheci esta corajosa mulher no Funchal nos anos 1978/1982, privamos como amigos de outros amigos e camaradas. Curiosamente, talvez pelo respeito do seu passado, nunca abordamos o tema da tortura nem do cárcere. Afortunadamente não houve tempo para isso. Notável, inteligente, minuda e de riso alegre, Aurorinha, como lhe chamávamos entre os seus amigos, é uma das minhas belas recordações madeirenses. Aprendi a conhecê-la e valorizá-la passado algum tempo e na distância.

“Era maio de 1973. Aurora tinha 21 anos. Foram, pelo menos, 20 dias, 480 horas de tortura. “Sobretudo, era a tortura do sono. Impedir de dormir, consecutivamente, dia e noite. O tempo todo. Tinha só um banco sem costas, nunca tive uma cadeira.”

Mas Aurora Rodrigues, garante, “tinha força”. “Não quebrava. Eles não iriam fazer de mim aquilo que queriam.” (SIC- 23 de Abril do 2024)

 

Uma actriz torturada

Shelley Duvall, conhecida do grande público pelo seu papel no clássico ‘The Shining’ (1980), morreu na passada quinta-feira dia 18/7/24 , aos 75 anos, durante o sono, devido a complicações relacionadas com a diabetes, informou o companheiro à revista especializada em entretenimento ‘The Hollywood Reporter’. Contam que foi literalmente torturada nesse filme pelo cineasta e realizador Stanley Kubrick, com repetição de cenas mais de uma centena de vezes. O genial realizador não teve para ela a genialidade da amabilidade e do trato. Foi uma actriz da qual me lembro, sobretudo nas participações nos filmes de um dos grandes realizadores norte-americanos, Robert Altman, e num dos seus papéis como Olivia Palito (ela era miudinha, mais alta e de aparência desgabada) no filme Popeye de  Altman do ano 1980, junto a Robin Williams.

 

Uma jovem exemplar

Raquel Barros sonha tirar o curso de marketing em Aveiro. Os pais não têm possibilidades financeiras para a ajudar. Não queria estudar, mas mudou de ideias. Agora vende pastilhas para pagar a universidade

Coragem Raquel…se me cruzar contigo compro um chupa-chupa. Abraço!


Nota: (*) Historia del Cine Mundial, desde los orígenes, de Georges Sadoul- edición de Siglo XXI – Na net Historia del cine mundial: desde los orígenes – Georges Sadoul – Google Livros

 

Aurora Rodrigues e Susaninha – duas amigas no Funchal – foto António Rodrigues

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