ANTÓNIO MOTA REDOL – A CENTRAL NUCLEAR DE ZAPORIJIA NA UCRÂNIA. NOTÍCIAS DE JULHO DE 2024

 

Pequeno historial

Devem os meus leitores lembrar-se que, quando a Rússia invadiu a Ucrânia, jornalistas e comentadores portugueses alarmaram toda a gente, porque uma catástrofe pior do que a de Chernobyl podia acontecer, em resultado dos combates na proximidade da central e da sua ocupação por tropas russas.

Chamei a atenção que as armas utilizadas por ambos os lados nesses combates, mesmo a artilharia, não poderiam afectar os órgãos fundamentais da central, protegidos por um contentor de betão pré-esforçado e por uma cuba de aço, bastante espessos. E que só bombas perfurantes lançadas de avião o poderiam fazer. Na realidade, apesar dos combates prosseguiram na região de fronteira entre a zona ocupada pela Rússia e o resto da Ucrânia, nenhum acidente se verificou, mesmo de pequena amplitude.

Aliás, como já escrevi anteriormente, desde que uma missão da Agência Internacional de Energia Atómica visitou a central em Setembro de 2022, apesar de o seu Director–Geral ser claramente pró-EUA/União Europeia, e constatou que não havia nada de muito preocupante, as vozes calaram-se.

A central tem agora 5 grupos desligados e um a produzir vapor para a cidade próxima, Ernodar, onde vive a maior parte dos trabalhadores da central, os quais passaram, por opção própria, a estar sob o comando da empresa russa de energia nuclear, a Rosatom, rescindindo o contrato com a empresa ucraniana.

O facto de a central estar desligada não agradará à Rosatom, pois certamente desejaria que ela alimentasse em energia eléctrica a zona que a Rússia ocupa no Sul. A importância estratégica de uma central eléctrica explica a razão porque foi ocupada pelas tropas russas e a insistência em a manter, apesar das pressões internacionais e do Governo ucraniano para a desocupar.

Os combates continuam naquela zona de fronteira e os ataques à central por drones ucranianos continuam, embora os citados jornalistas e comentadores, quando ainda falam do assunto, procuram fazer passar a mensagem, sub-repticiamente, que são os russos os autores, o que não tem sentido, pois estariam a visar uma instalação que ocupam, de que necessitam e que querem proteger. Interessa referir que os ataques são às linhas que saem da central, impedindo que alimentem as populações. Outras centrais ucranianas, não ocupadas pelos russos, são por eles atacadas pelo mesmo motivo que os ucranianos atacam esta: impedir o fornecimento de energia eléctrica às populações. Assim, das 4 linhas a 750 kV (ou 750.000 V, comparados com 220 V das nossas casas) e das 2 a 330 kV, apenas duas estão operacionais.

Entretanto, em Março deste ano, o Director-Geral da AEIA encontrou-se com Putin, o que mostra que as coisas não estão a correr bem para a Ucrânia.

Acontecimentos recentes.

 

No dia 11 de Julho deste ano, o Director-Geral fez um relato das missões da AEIA na central. A  21ª equipa de técnicos revezou a equipa anterior, mostrando, mais uma vez, que a presença prolongada dessas equipas significa que não são relevantes os riscos corridos. E que a troca de equipas através da fronteira se faz com a concordância e a fiscalização de ambas as partes, mostrando que os contactos existem também para outras questões.

A equipa actual constatou que as actividades militares na zona continuam, bem como os ataques com drones. O transformador de uma sub-estação de Ernodar foi atingido, deixando a cidade sem energia eléctrica durante algumas horas, mas  também sem água, porque não pôde funcionar a bombagem de água. Foram feridos alguns trabalhadores de outra sub-estação. Nas sub-estações faz-se a transformação da corrente em muito alta tensão para baixa tensão.

Quando o Director-Geral visitou a central pela primeira vez em Setembro de 2022, uma delegação da população da cidade entregou-lhe um abaixo-assinado de 20.000 habitantes locais, solicitando que fizesse pressão sobre as autoridades ucranianas, com quem estivera na véspera, incluindo Zelenski – mas nunca contactou as autoridades russas na zona – no sentido de não se realizaram os ataques com drones. O Director-Geral não fez qualquer referência a esse abaixo-assinado no relatório de apresentou na altura, nem que que os ataques tinham origem ucraniana, nem a nossa comunicação social relatou o facto.

A equipa da AEIA que esteve recentemente na central, verificou como estavam a realizar-se os complicados trabalhos de manutenção; o relato não refere se foram retirados elementos de combustível do núcleo, nem qual o nível de radiação no exterior e na zona, o que foi feito em visitas anteriores.

Também foram testados os grupos a diesel.

Com os grupos funcionar ou com eles desligados tem de se processar sempre o arrefecimento do núcleo por água canalizada em tubagens, que circula devido a bombas mecânicas. Ora estas funcionam com energia eléctrica produzida pela própria central. Como no caso a central não está a produzir essa energia, a alimentação tem de fazer-se através das 2 linha de alta tensão referidas. Se estas falharem devido aos bombardeamentos, entram em acção os geradores a diesel. Logo, estes têm de estar operacionais, e tem de haver stock de combustível para funcionarem durante uns dias, e possibilidade de abastecimento de combustível novo, o que a equipa da AEIA verificou estar assegurado.

19 de Julho de 2024

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