Quatro democracias em crise profunda: França, Reino Unido, Alemanha e Estados Unidos — Reino Unido – Texto 15

Nota prévia:

Continuamos a fazer circular textos sobre as Democracias em profunda crise, o décimo quinto sobre o Reino Unido.

Quanto ao Reino Unido de hoje direi que ganhe quem ganhar, os Conservadores, os Trabalhistas ou a extrema-direita de Farage, o Reino Unido acordará amanhã pior do que estava ontem.

 

Júlio Mota


Seleção e tradução de de Júlio Marques Mota

10 min de leitura

Reino Unido – Texto 15. Bem-vindo à ordem pós-liberal de Keir Starmer

Estamos todos a viver no mundo de Tony Blair

 

 Por Mary Harrington

Publicado por em 6 de Julho de 2024 (original aqui)

 

‘Um leal Skywalker ao samurai Blair’. Chris J. Ratcliffe/Bloomberg/Getty Images

 

Então, agora que Keir Starmer é Primeiro-Ministro, o que é que vai mudar? Há duas respostas aparentemente contraditórias a esta questão.

A primeira é: nada vai mudar. A revelação verdadeiramente devastadora da época desde o Brexit tem sido a que se pode viver um chamado “terramoto político”, seguido de anos de ululação e de apertos de mãos, e depois de tudo acabar, as mesmas pessoas de folhas de cálculo e vestidas com calças chinesas continuarão a defender mais ou menos as mesmas políticas de antes, e ignorando mais ou menos as mesmas questões estruturais e preferências populares. É o novo normal pós-democrático e transnacional. Poderíamos chamá-lo de “pós-liberalismo realmente existente”. A eleição de Starmer irá simplesmente consolidá-lo ainda mais

Mas porque só existe um consenso político entre partidos nominalmente opostos, não se segue daí que a política como tal tenha acabado. Isso não era verdade mesmo antes do voto de massas, e não é verdade agora, quando um número crescente percebe que o direito de voto é praticamente inútil. Mas o terreno onde a política acontece mudou, das urnas para um ecossistema de lóbi cada vez mais politizado — mesmo que os termos da nossa polarização também tenham mudado, de “esquerda” e “direita” para novas e cada vez mais existenciais formas de política de identidade. Mais ameaçadoramente, a questão ainda maior diz respeito à adequação da governança pós-liberal num mundo do século 21 de crises interligadas e cada vez maiores.

Quando Boris Johnson alcançou a sua esmagadora vitória com a promessa de “terminar o Brexit”, pareceu por um momento ou dois que uma cosmovisão política que ficou conhecida como “pós-liberalismo” estava prestes a aproveitar o seu momento de estar ao sol. Os líderes apenas tiveram que deixar de lado a ficção liberal de que o governo não precisa ter uma visão moral substantiva. Se eles pudessem fazer isso, então a esperança era, talvez eles pudessem de alguma forma ser capazes de restaurar pequenos pelotões e pequenas fazendas e lojas, e fazer com que as pessoas queiram viver com os seus pais idosos em pequenas cidades prósperas, em vez de bombeá-los com diplomas inúteis e dívida, em seguida, aprisionando-os em existências sem filhos, com rendimentos que pouco mais dão do que para satisfazer as necessidades de base e a gastarem muito do seu tempo a procurar on-line as notícias ao longo do dia sobre os Organismos Geneticamente Modificados (OGMs) cultivados industrialmente em caixas de sapatos urbanas excessivamente caras.

Não era para ser. Boris ganhou, e num piscar de olhos, aconteceu a crise Covid. De repente, todo a gente ficou presa em casa, ligada aos media enquanto comia OGMs. Acabaram as pequenas composições de carros em circulação [little platooning], mesmo para a coorte cada vez menor que realmente o queria. Em vez disso, agora desfrutamos do outro pós-liberalismo. Não aquele imaginado por escritores que eram principalmente conservadores sociais, mas com Tolkien extra. Aquele em que o poder estatal está, sim, alinhado com uma visão explícita do bem – mas aquele que tem muito pouco a ver com o Nacionalismo de Bilbo Bolseiro que floresceu por um momento em 2019.

Na verdade, o pós-liberalismo existente toma como base o que veio a seguir: o momento em que a revolta populista foi esmagada sob uma fusão de Estado e comércio, com a população sob toque de recolher e tudo mediado pela internet. Por outras palavras: o nosso ponto de isolamento individual máximo, é garantido (aspiracionalmente pelo menos) pela penetração total do Estado, das grandes empresas e dos Big Data.

Sob o liberalismo, o pano de fundo não reconhecido para a política era uma visão moral influenciada pelos cristãos centrada na dignidade humana e na liberdade individual. A unidade política era geralmente o Estado-nação, e o direito de voto era elemento de peso na tomada de decisões políticas. Esta ordem encurralou a dissidência através de censura moral ou prisão física, enquanto uma grande parte da dialética política em questão, pelos seus efeitos colaterais não intencionais da “libertação”, deve ser priorizada como remédio político. Deveriam os políticos tentar mitigar os efeitos colaterais negativos do liberalismo social, como famílias desfeitas, ou do tipo económico, como a pobreza?

Esse mundo desapareceu. Não importa o Nacionalismo de Tolkien; sob o pós-liberalismo que realmente temos, as elites governantes têm mais em comum umas com as outras transnacionalmente do que com os seus cidadãos nominais, cujos Estados-nação estão, de qualquer forma, a caminhar para a obsolescência (exceto quando há uma ameaça de guerra). Nesta geopolítica pós-pós-Vestefália, a governação é internacionalizada e tecnocrática, e a política é moldada  através de um longo caminho antes das eleições. Entretanto, acredita-se que os seres humanos não possuam nenhum vínculo cultural, genético ou afetivo distinto, mas são vistos como unidades de trabalho radicalmente intercambiáveis e fungíveis que podem ser implantadas em qualquer lugar de acordo com o imperativo económico.

E o pano de fundo partilhado para tudo isso não é moral, mas uma relação comum com as tecnologias que mediam a cidadania, desde a participação na praça pública digital até à política como entretenimento. De acordo com isso, a dissidência deixa de ser gerida não tanto através da sanção social ou mesmo do encarceramento; testemunha disso é a política agora comum de libertar até mesmo criminosos sérios a metade das suas sentenças.  Em vez disso, isso faz-se  através da direção digital da atenção pública, enquanto a dissidência mais séria resulta na revogação do acesso às tecnologias que medeiam a vida pública, desde a concessão de  privilégios para serviços bancários.

Tendo “conseguido o Brexit”, os Conservadores, em teoria, tiveram uma oportunidade única de mudar a moldura política. Eles poderiam ter usado o tempo para embalar a NGOcracia britânica com o seu povo, ou até mesmo enfrentar a infinidade de inovações constitucionais do New Labour que abriram o caminho para a ordem pós-liberal. Mas eles não aceitaram, o que sugere que eles ou tinham uma compreensão muito pobre da máquina política que supostamente dirigiam, a ponto de criar inadvertidamente um problema  para os “especialistas” tecnocráticos que eles afetaram se queixarem. Ou então, talvez, eles entenderam como essa tecnocracia funcionou, e acharam isso muito bem.

Esta última posição é compreensível, se não é mesmo louvada. Quando se pode deixar a máquina do Estado em grande parte no piloto automático e, em vez disso, concentrar-se em encher os vossos bolsos assim como os dos vossos amigos, quem, em sã consciência, desejaria uma verdadeira responsabilidade? Há honrosas exceções: Danny Kruger e Miriam Cates levantaram a cabeça e por expressarem as suas ideias sobre a visão britânica quanto ao controlo da migração e a inadequação do multiculturalismo, Suella Braverman foi difamada e acusada de ser a reencarnação do fascista Oswald Mosley.

Mas são apenas três deputados, do que foram (até ao pesado e merecido martelo eleitoral dos tories) várias centenas. Quanto aos outros deputados, o seu comportamento no Parlamento sugeriu que, independentemente do que o eleitorado esperasse deles, eles aceitaram maioritariamente que vivíamos agora no mundo de Tony [Blair] e todos nós iremos viver nele. Na quinta-feira, o eleitorado recuou revoltado com esta descoberta, oferecendo a Starmer uma maioria quase duas vezes maior do que a de Boris Johnson, com menos votos do que Jeremy Corbyn teve ao perder contra Theresa May em 2017. O povo não votou tanto nos trabalhistas, mas sim contra os conservadores. E, tendo feito isso, estamos agora num programa de mudanças constitucionais que consolidarão ainda mais o pós-liberalismo. O manifesto trabalhista compromete-se a drenar o que resta da supremacia parlamentar, com vetos concedidos a representantes regionais e tribunais. Enquanto isso, o voto pode ser diluído e banalizado ainda mais, por extensão para os jovens de 16 anos que a esquerda noutros contextos trataria apenas como tendo atingido a idade da responsabilidade penal. Podemos ter a certeza de que nenhuma decisão muito séria será confiada a um eleitorado que inclua literalmente crianças.

Mas esta tecnocracia sabichona é assim tão má? Talvez a civilização do século XXI seja realmente técnica demais para o governo de não-especialistas eleitos, votados pelas massas. As tribulações das pequenas empresas do Reino Unido após o Brexit ilustram indiscutivelmente o que acontece, quando se começa a fazer grandes mudanças nas operações de um Estado complexo de alta tecnologia sem um quadro de especialistas totós compatíveis pensando em todos os detalhes para todos nós. Há sempre a possibilidade de você poder encontrar-se com filas de camiões de 10 milhas ou com uma queda de £ 25 mil milhões no comércio com os seus parceiros geográficos mais próximos, para não mencionar encargos provocados pelo Brexit que levarão à extinção de lojas de produtos alimentares (de queijos, por ex.). Então, talvez Sua Exª Toni tenha estado certo durante todo este tempo e a plebe deveria ser protegida, para o bem de todos nós, de toda a ação política significativa.

O que Starmer escolher focar nas suas primeiras semanas irá oferecer alguma indicação de quão comprometido ele está com esta visão, bem como de quão dependente ele está das fações mais malucas do seu próprio partido para a concretizar. Se gastar o seu capital político pós-eleitoral impondo IVA às propinas escolares privadas contra os interesses dos seus próprios eleitores de classe média, ou talvez institucionalizando as leis islâmicas de blasfémia ou revertendo os direitos das mulheres, podemos inferir que se sente vulnerável a ataques das suas próprias fações. Mas se ele priorizar a destruição do que resta da Constituição não escrita da Grã-Bretanha, podemos supor que ele tem tanto o desejo quanto o espaço político para governar como um Skywalker leal ao samurai Blair.

Mas não se segue que a política chegue ao fim. Pelo contrário: se a velha ordem teve de lutar contra os efeitos colaterais não intencionais da liberdade, a nova ordem deve lidar com as externalidades de tentar unir uma política através de meios tecnocráticos. Pois mesmo que a Daveocracia goste de imaginar que todos os povos são intercambiáveis, alguns subconjuntos da população realmente têm mais em comum do que outros. Algumas culturas são realmente incompatíveis, e algumas parecem realmente mais propícias à riqueza e ao poder do que outras. Os seres humanos realmente não podem mudar de sexo, não importa o quão inteligente seja o seu cirurgião. E assim por diante.

Espero que grande parte do ruído quotidiano na administração de Starmer provenha dos esforços do seu regime para gerir esta realidade. Quais identidades podem ser notadas e celebradas, e quais devem ser tratadas como inexistentes ou mesmo tabu? Tivemos um vislumbre dessa negociação durante o Covid, quando igrejas e parques infantis foram fechados sob pena de prisão, mas o racismo foi considerado uma urgência de saúde pública, justificando grandes e às vezes violentos ajuntamentos de pessoas na rua. Podemos supor que o incentivo reflexo de Starmer será de promover o igualitarismo por decreto; a consequência previsível disso será o identitarismo em toda a linha.

Já a consciência racial entre os jovens britânicos não se restringe a minorias étnicas ou de esquerda , mas inclui agora uma versão branca de Direita cada vez mais radical. Starmer já prometeu consolidar a consciência racial na lei e nas políticas públicas, através de uma nova lei de Igualdade Racial que promete garantir salários iguais em todas as etnias, e impor um dever do setor público de coletar dados sobre pessoal, remuneração e resultados por etnia. Quem imagina que isso não intensificará os murmúrios entre os zoomers britânicos brancos descontentes a quem realmente não se tem prestado atenção.

Entretanto, um ponto de interrogação paira sobre os restos destroçados do Partido Conservador. Dado que a escala das perdas dos conservadores não se deveu a um aumento da quota de votos dos trabalhistas, mas ao facto de os eleitores terem abandonado os conservadores por uma alternativa mais à direita, mesmo o mais empedernido dos conservadores sobreviventes terá dificuldade em persuadir os membros do partido de que o futuro do conservadorismo é ir para o centro. Não que isso os impeça de tentar. Mas quando, na prática, o “centro” conservador parece ter consistido na prática em queixar-se de “wokeness” [n.t. a preocupação com desigualdades por raça, sexo, ou negação dos direitos LGBT] ao mesmo tempo que ignorava as preferências do eleitorado e governando para os seus amigos, talvez esta coligação tenha ficado, de qualquer modo, sem rumo.

O que é que lhe vai suceder? A minha aposta é uma política de identidade mais e mais variada. O governo pós-liberal de Starmer será assediado de um lado pelo bloco de votos muçulmanos, que emergiu nestas eleições como uma força política consciente e cada vez mais bem organizada, e de outro por um bloco “anglo-saxónico” também cada vez mais consciente. É provável que surjam outros blocos para se juntarem a estes. Neste contexto, é difícil vislumbrar um grande futuro para o resto dos “pantanosos” conservadores sobreviventes, a não ser que façam o que já deviam ter feito há muito tempo e se fundam com o outro centro de recolha de agrupamentos políticos obsoletos: os liberais-democratas.

À medida que a política representativa se fractura em lóbis de blocos de interesses, podemos também esperar que a pressão sobre o nosso sistema eleitoral aumente. Atualmente, o Partido Reform obteve 14% dos votos contra 12% dos Liberais Democratas e, no entanto, conquistou quatro lugares contra 70 lugares dos Liberais Democratas; a política e o sistema eleitoral do Reino Unido estão agora completamente desfasados. O Partido Trabalhista foi o maior beneficiário desta disjunção na quinta-feira, o que significa que Starmer tem poucos incentivos para a alterar; este facto irá sem dúvida alimentar o ressentimento contra o seu regime em muitos quadrantes.

Olhando para o futuro, espero que qualquer versão da Direita que surja do outro lado da extinção da Nação Conservadora seja otimista quanto à existência de um pós-liberalismo real e à vontade com a política identitária. Um terreno de caça plausível para essa direita seria aceitar a ideia de gestão empresarial na política como um assunto encerrado e concentrar-se na promoção de uma relação menos utópica com a diferença: isto é, menos fixada na imposição de “equidade” de cima para baixo por decreto e mais em políticas que se adaptam pragmaticamente à variação normativa entre grupos identitários. Combinando isto com uma visão otimista da inovação tecnológica e uma política de lei e ordem suficientemente robusta para lidar com uma população verdadeiramente multicultural, temos algo parecido com o caucus progressista de direita que já está a emergir noutros lados.

Apesar de uma generosa dose de gritaria com temática hitleriana no período que antecedeu as eleições, a presença no Parlamento dos cinco novos deputados do Reform servirá mais como um impedimento a este programa do que como um acelerador. Espero que tenham um impacto direto mínimo na elaboração da lei, e é pouco provável que Farage se torne o demagogo nativista das fantasias daqueles que o odeiam. Os seus instintos estão enraizados na antiga Inglaterra liberal da tolerância e da liberdade individual e, tanto quanto sei, nunca expressou o tipo de sentimento etno-nacionalista com que é habitualmente associado na imprensa. De facto, recentemente, tem agido no sentido de controlar os instintos mais combativos dos seus colaboradores mais jovens nesta área. A pessoa a observar será quem suceder a Farage como líder de uma jovem direita britânica cada vez mais identitária; até à data, o Reino Unido não tem nenhum Jordan Bardella, mas é provavelmente apenas uma questão de tempo.

Mas se tudo o que Starmer tem para se preocupar são os “zoomers” raciais no TikTok, vai certamente suspirar de alívio. Os prenúncios são sombrios: não tem margem de manobra orçamental, uma população inquieta que se debate com o custo de vida e uma economia em estado deplorável, da qual os ricos estão a fugir como ratos de um navio a afundar-se. As franjas políticas estão a ferver com os islamitas e outros grupos geradores de motins. Dir-lhe-ão que o envelhecimento da população e a diminuição da taxa de natalidade significam confrontar os eleitores com o compromisso entre a impopular imigração em massa, por um lado, e a estagnação económica, por outro. Outros dir-lhe-ão que não, que a imigração nem sequer proporciona as prometidas vantagens económicas, e outros ainda dir-lhe-ão que é obrigado a abrir a Grã-Bretanha aos imigrantes deslocados pelas alterações climáticas e pelos conflitos mundiais.

Para lá das fronteiras da Grã-Bretanha, a reação popular às mesmas dinâmicas populacionais fraturantes levou Giorgia Meloni ao poder em Itália, e Geert Wilders na Holanda, e poderá em breve fazer o mesmo com Marine le Pen em França. Uma Europa cada vez mais à direita terá, por sua vez, ramificações para uma futura resposta da Starmerite aos migrantes do Canal da Mancha. Esta situação é ainda mais complicada pelo facto de a Grã-Bretanha ser hoje, tanto em termos de auto-perceção como, cada vez mais, em termos de propriedade efetiva, uma província imperial da América, o que significa que muito do que Starmer pode fazer dependerá das eleições presidenciais de novembro. Com a crescente preocupação sobre a aptidão do Presidente Biden, de 81 anos, para um segundo mandato, não existe uma alternativa muito popular a um Trump entusiasmado. Se este último for reeleito e a fação Trumpista da política externa for bem sucedida na sua política proposta de deslocar as prioridades de defesa dos EUA para longe da Europa, a pressão para remilitarizar os Estados ocidentais da UE intensificará os interesses divergentes existentes na UE, com consequências ainda desconhecidas.

Perante este cenário, o prometido “realismo progressista” de David Lammy poderá ter de se apoiar mais no realismo do que no progresso. Mas o realismo requer subtileza e liderança; entretanto, a ordem pós-liberal está otimizada para uma governação sem liderança. Privilegia o processo, o consenso e o poder institucional em detrimento do carisma, da inspiração e da vitalidade. Valoriza e eleva pessoas como Rishi Sunak: inteligentes, diligentes e totalmente desprovidas do molho especial que inspira o afeto e a lealdade das massas.

Quando confrontado com uma situação extraordinária, este regime processual sem cabeça e sem rosto produz algo como uma resposta imunitária: uma reação de todo o sistema concebida para expulsar ou neutralizar o irritante. A resposta coletiva do sistema financeiro à primeira-ministra Truss enquadra-se nesta categoria, tal como a decisão coletiva da classe tagarela de deitar fora os planos de pandemia existentes e exigir confinamentos em massa durante o Covid. Mas, tal como um sistema imunitário, este tipo de resposta à perceção de um ataque é impreciso, propensa a reações exageradas e incapaz de pensamento estratégico. Se a situação internacional se tornar muito mais agitada, isto pode revelar-se uma fraqueza crítica.

Por isso, Sir Keir, foi ungido avatar do pós-liberalismo efetivamente existente. E boa sorte. Se o pior com que tiver de lidar for com zoomers racistas, estará a rir-se. O mais provável, porém, é que esteja a lutar para consolidar o processualismo tecnocrático para uma população que culpa a criminalidade, a estagnação económica, a escalada do custo da habitação pela imigração (motivada por procedimentos), o preço da energia pelo Net Zero (motivado por procedimentos) e tudo o resto. Um líder que se encontra ele próprio como a última ilha do Blairismo, entre uns Estados Unidos Trumpistas e uma UE cada vez de direita mais dura, está à frente de uma administração sem cabeça e desesperadamente mal equipada para responder estrategicamente a qualquer um destes desafios. Por outras palavras, pode acontecer que o sucessor de Saint Blair tenha assumido o leme de uma Grã-Bretanha totalmente pós-liberal, precisamente no momento em que isso deixou de ser um modo de governo viável.

___________

A autora: Mary Harrington é uma escritora baseada no Reino Unido, e editora contribuinte de UnHerd, onde escreve uma coluna semanal. Interessa-se (entre outras coisas) pelos efeitos secundários políticos e culturais da globalização, a substituição da política de classes por políticas de identidade, a alegria dos limites, e os direitos das mulheres na era da biotecnologia, que é o tema do seu próximo livro Feminismo Contra o Progresso.

 

Leave a Reply