
Breve Carta Sobre o Porto dos Dias de Hoje
A minha querida cidade do Porto tem enfrentado diversas perdas significativas. A cidade perdeu muitos dos seus habitantes, especialmente os mais jovens, que se viram obrigados a procurar locais mais acessíveis. Moradores com idades mais avançadas foram também forçados a sair devido à pressão de senhorios sem escrúpulos. Foram às centenas, as famílias que saíram. O despovoamento do centro da cidade é crítico. A cidade perdeu asseio e brio, assim como a empatia e solidariedade que a caracterizavam. Os tradicionais tascos, onde se comiam petiscos típicos, se bebia e socializava, desapareceram, levando consigo a alegria e a sabedoria dos mais velhos. A segurança nas ruas, becos e praças diminuiu, assim como o policiamento. A abordagem rigorosa aos problemas da cidade e dos seus habitantes foi substituída por discussões partidárias, onde todos têm razão, excepto a cidade. O parque habitacional foi reduzido, com as recuperações feitas ao edificado a servir apenas para alojamento temporário de turistas, e as novas construções a serem destinadas quase exclusivamente às classes mais ricas. A cidade perdeu grande parte da sua massa arbórea de grande porte. Perdeu a sua indústria e independência criativa, tornando-se uma cidade de serviços. A inteligência, e as elites intelectuais comprometidas com a cidade e com os portuenses, ativas e sem grilhetas políticas, também se perderam. A vanguarda da estética e da arquitetura, o orgulho na sua história e nos seus antepassados, a educação, a identidade, a capacidade crítica, o bairrismo moderado, a ambição, as noções e o respeito por si mesma, desapareceram. A cidade perdeu o norte.
E o que ganhou?
Ganhou alcatrão e betão, com ruas sem árvores e com sombras quase só provenientes dos prédios. Ganhou jardins de ervas daninhas em nome do cuidado com o meio ambiente, ecologia e biodiversidade. Ganhou comida de inferior confecção para turistas, que muitas vezes não sabem distinguir a qualidade do que consomem. O turismo de massas aumentou, com turistas em números descontrolados e mal distribuídos pela cidade, criando a sensação de excesso de turismo. Ganhou prestígio e potencial, e com eles a cidade também ganhou uma invasão estrangeira e a diversificação e internacionalização de costumes estranhos, embora ainda em estágio preliminar e visível apenas aos mais atentos. A revitalização do comércio trouxe dinheiro, mas não diferenciou a cidade de outros lugares. O novo Metro Bus parece servir apenas a zona mais rica da cidade, custando milhões de euros que poderiam ser gastos em outras áreas. As paragens, criticadas por não servirem as viaturas dos STCP, bem como pelo seu desenho, podem eventualmente vir a servir como locais de consumo de drogas, urinóis e esconderijos para assaltantes. A cidade ganhou também a esperteza dos políticos locais e dos seus interesses partidários, ganhou mediocridade, carreirismo, idiotice e novo-riquismo, tudo em pouco mais de uma dúzia de anos, reflectindo a aproximação às diretrizes nacionais que seguem outras, impostas pelos governantes em quem votamos, que se venderam a ideias progressistas e destruidoras da identidade do nosso povo.
Foz do Douro, 20 de Agosto de 2024

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