ANDRÉ BRUN – MANUAL DO PERFEITO REVOLUCIONÁRIO

1881 - 1926
1881 – 1926

 

Há uns tempos a esta parte, eu andava bastante inquieto e pensava a miúde:

― Que terá sucedido aos nossos bons revolucionários? Estarão doentes? Terão ido para fora?

Foi, portanto, com sincero jubilo que, no sábado passado, tendo ouvido estalar no ar qualquer coisa que me pareceu ser foguetaria de tourada, a esposa do meu guarda-portão me comunicou estar na rua mais uma revolução.

Como de costume, instalei-me na minha carvoeira, recomendando à minha casa civil que não me chamasse senão quando as hostilidades tivessem terminado e estivesse em caminho mais uma das bem conhecidas reconciliações da família portuguesa.

Domingo de manhã, a voz de tenor do homem que vende fressura de vaca na minha rua, deu-me o primeiro sinal da paz restabelecida. Logo a seguir a já citada esposa do porteiro me mandou comunicar ter terminado o movimento. Beijei-a comovidamente em ambas as faces e, sem indagar quem tinha ficado de cima, exclamei radiante:

― Parabéns, Dona Ofrásia! Já sei que venceram os “nossos”…

E, levando nos lábios um esplêndido sorriso, que há dias viera da engomadeira, saí à rua, onde constatei que o sossego era absoluto em todo o país. Dirigi os meus passos serenos a casa do Procópio Baeta. Teria esse amigo estimável padecido algo com a revolta, levando nos queixos com uma granada de percussão ou iria eu acaso encontrar a sua família reduzida ao estado de escumadeira por uma pérfida rajada de metralhadora?

A sopeira, que me abriu a porta, desvaneceu, desvaneceu a minha inquietação.

― Está tudo bem, graças a Deus, e não tivemos medo nenhum. Só o papagaio é que se agachou e esteve assim enquanto não leu o edital do novo comandante de divisão.

― E o Baeta está em casa?

― O patrão está a escrever.

Baeta, efectivamente, sentado à mesa da casa de jantar, diante de um caderno tudo quanto possam imaginar de mais pautado liso, escrevia.

― Que é isso, Baeta? Estás compondo algum drama pirandelóstico para o Teatro Novo?

― Não, meu velho. Aproveitei estes dias de descanso e de sossego para lançar as bases dum livro de que o país anda muito precisado.

― Dum “Compêndio de Civilidade”?

― Upa! Upa! Vou publicar um “Manual do perfeito revolucionário”… A parte civil é só minha. Para a parte militar preciso de umas ligeiras indicações que hei de pedir a um camaradão, sargento dos sapadores de caminho de ferro, que a estas horas deve ir a caminho do Alto do Duque, da Trafaria ou do forte de Elvas. Não sei se tens notado a falta de método, de organização, de ordem, em resumo, com que costumam ser feitas as revoluções em Portugal. Lá disposições e jeito temos nós. O que nos falta é a basezinha, os princípios, a ciência, enfim. Ora, graças a Deus, com as múltiplas experiências que temos feito já se pode estabelecer a base, fixar os princípios, definir a ciência.

― Ai, Baeta! Que bem que te exprimes! E quando pensas ter o livro concluído?

― Se o estado de sítio durar mais oito dias, eu em oito noites devo dar a obra por concluída. Estou senhor do assunto e, afinal, isto de escrever não custa nada.

― A quem o dizes, meu velho!

― Basta-me acabar de desenvolver em vários capítulos uma série de aforismos que tenho aqui apontados. Queres ouvir?

― Com muito gosto. Deixa-me primeiro limpar as orelhas com um palito para não perder pitada do que me vais dizer.

E Baeta, enquanto eu procedia ao meu preparo auricular, punha em ordem os seus papéis. Depois, vendo-me a postos, tossiu, enxotou o gato e em voz pausada e grave leu-me o seguinte:

 

Os revolucionários, quer civis ou militares, dividem-se em duas espécies: os que dizem que vão e não aparecem e os que são trouxas e vão mesmo. Os primeiros fundam-se no grande princípio de que, se o movimento falhar, ficam prontos para preparar com sossego o seguinte sem os inconvenientes da cadeia, da amnistia ou, em casos felizmente raros, de algum tiro desgarrado.

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Numa revolução abortada o mais difícil é definir o momento em que se deve cavar. Há camarada, teimoso ou estúpido, que fica até ao fim. O menos que lhe pode acontecer é ser considerado pelos correligionários como um insigne ficante.

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Todo o chefe de família, convidado para tomar parte numa revolução, deve perguntar, antes de mais nada, ao comité, a como tenciona pôr as batatas e o arroz carolino quinze dias depois do triunfo. Se o comité não se comprometer por escritura pública em notário a baixar sensivelmente o preço desses artigos de primeira necessidade, o melhor que o chefe de família tem a fazer é ficar em casa a jogar a bisca com a família.

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O citado chefe de família deve pensar a miúde naquela história da velha que rezava pela saúde do tirano de Siracusa, com medo que viesse um outro muito pior.

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Há revolucionários que, se lhes violassem a tia, encolhiam os ombros, e que jogam a vida porque ouviram dizer que o governo queria violar a Constituição.

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Quando um patriota é convidado a ir à Rotunda, deve indagar primeiro quem é que está no Castelo, na Penha de França e na Serra de Monsanto. Se não forem os nossos, arrisca-se a fazer uma figura de boneco de pim pam pum.

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Nenhum revolucionário, ao passar pelo chafariz do Rato, deve dizer: ― Desta água não beberei…

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Todo o revolucionário, que anda aos tiros aos seus amigos e conhecidos, deve lembrar-se que pode aparecer de repente um polícia que o multe por falta de licença de porte de arma.

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A única classe que verdadeiramente aproveita com as revoluções, é a das lavadeiras. Além das lavadeiras, simpatizam com os barulhos as mulheres casadas. Com a inevitável suspensão das garantias têm elas garantidos os suspensórios dos maridos logo depois das nove da noite.

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Há muito mais revoluções no inverno do que no verão. É porque os que dão dinheiro para elas querem tomar as suas águas e os seus banhos descansados.

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Nas revoluções a prudência do conselho e os bons empregos são como a sorte grande na lotaria: saem sempre aos outros.

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Nas revoluções há sempre gente de boa fé. Quase sempre, no outro dia, ou está na Morgue ou desiludido.

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Certo revolucionário, que andara três dias aos tiros a meio mundo, ao chegar a casa e querendo a família fazer uma canja para festejar a vitória, teve que chamar um galego para degolar a galinha. O que, por um lado é triste e por outro nos vale, é que são quase todos assim…

In Procópio Baeta – Ditos e Feitos de um Burguês Lusitano do Primeiro Trinténio do Século XX. Primeira edição, 1927, Livraria Editora Guimarães & C.ª.

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