As sílabas marginais/faço o que posso/de Nelson Ferraz

 

faço o que posso

para descobrir pequenas lógicas na sucessão das circunstâncias

porque a normalidade é um território onde não sou bem-vindo.

as minhas certezas são dúvidas autenticadas pelos tempos somados

em gerações antigas que conversavam indagando o universo

e em que todas as sabedorias se vestiam de humildades sérias.

faço o que posso

mas os extintores feitos de silêncios não são grandes combatentes

perante a modernidade das evidências artificiais a quezília das relações

construídas como se fossem legos de papel

e a indiferença agressiva que adolesce gerações adentro.

percebo que

as desordens continuam a nascer nos mestres dos mil teclados

principalmente nos mais poderosamente avulsos e selvagens.

já ninguém compra canetas.

a experiência foi derrotada pela presunção mecânica

de profetas instantâneos.

o vento não resistiu à aragem dos dias rápidos.

as guerras são espelhos sujos de hominídeos sem valor.

Darwin enganou-se e só os macacos sabem disso.

e os deuses fazem lives para apóstolos sem perguntas.

 

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