DAVID MOURÃO-FERREIRA (1927-1996), “ABANDONO” (OU “FADO PENICHE”)

(1927 – 1996)

 

DAVID MOURÃO-FERREIRA (1927-1996), “ABANDONO” (OU “FADO PENICHE”)

 

 

«Por teu livre pensamento

foram-te longe encerrar.

Tão longe que o meu lamento

não te consegue alcançar.

E apenas ouves o vento.

E apenas ouves o mar.

 

«Levaram-te, era já noite:

a treva tudo cobria.

Foi de noite, numa noite

de todas a mais sombria.

Foi de noite, foi de noite,

e nunca mais se fez dia.

 

«Ai dessa noite o veneno

persiste em me envenenar.

Ouço apenas o silêncio

que ficou em teu lugar.

Ao menos ouves o vento!

Ao menos ouves o mar!»

 

 

(de “À Guitarra e à Viola”, 1960).

 

 

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