Quatro democracias em crise profunda: França, Reino Unido, Alemanha e Estados Unidos — Estados Unidos – Texto 27. Kamala Harris é uma neocon disfarçada.  Por Thomas Fazi

 

Nota prévia:

Continuamos a fazer circular textos sobre as Democracias em profunda crise. Hoje publicamos o vigésimo  sétimo da série de textos sobre as Estados Unidos da América do Norte.

 

Júlio Mota


Seleção e tradução de Francisco Tavares

6 min de leitura

Estados Unidos – Texto 27. Kamala Harris é uma neocon disfarçada

O seu pedigree de progressista torna-a ainda mais perigosa

 

 Por Thomas Fazi

Publicado por em 18 de Setembro de 2024 (original aqui)

 

                        (Chris duMond/Getty Images)

 

Kamala Harris pode ter conseguido convencer a América de que ela é uma alternativa moderna e “alegre” ao sonolento Joe, mas aqueles que estão fora dos EUA não se deixem enganar. Quando se trata de política externa, todos os sinais sugerem que Harris seguirá o caminho traçado pelo seu ex-chefe: um caminho baseado em combater agressivamente quaisquer desafios à hegemonia minguante da América, por todos os meios necessários.

Mas e a Harris progressista, alguém poderia perguntar? Durante meses, a direita americana pintou alegremente a Democrata como uma guerreira “woke”[1], uma militante liberal que se preocupa mais com a “bondade” do que com manter a América segura. No entanto, a verdade não poderia ser mais diferente. De facto, no cenário global, o pedigree progressista de Harris é precisamente o que a torna tão perigosa.

Uma das maneiras pelas quais os EUA tradicionalmente justificam as suas intervenções estrangeiras, especialmente após a Guerra Fria, é através de apelos ao humanitarismo e à moralidade. Isto representa, em muitos aspectos, o fundamento ideológico do intervencionismo liberal, que defende o uso da força militar, a mudança de regime ou a pressão económico-diplomática para garantir a “ordem internacional baseada em regras”. Na realidade, estes elevados ideais serviram muitas vezes de pretexto para o avanço dos interesses económicos e geopolíticos dos EUA.

Em 2022, o estudioso de relações internacionais Christopher Mott cunhou o termo “woke imperium” para descrever a mais recente iteração desse modo de governo, que não busca apenas derrubar rivais estrangeiros, “mas [para] projetar as suas próprias culturas de acordo com o modelo progressista Ocidental”. O seu verdadeiro objectivo, explicou, é “avançar os objectivos de política externa da bolha atlantista liberal”.

A defesa de Harris de questões progressistas – das alterações climáticas à governação democrática nos países em desenvolvimento – enquadra-se perfeitamente neste padrão. Tal como Biden, tem frequentemente enquadrado as tensões resultantes da emergente ordem multipolar como uma luta global entre democracia e autoritarismo, e defendido os direitos humanos como pedra angular da política externa dos EUA. Como primeira mulher presidente dos Estados Unidos, e multirracial, ela estaria exclusivamente qualificada para duplicar essa agenda.

Para entender o que isso pode implicar, basta olhar para trás nos últimos quatro anos. Desde o seu papel na provocação e escalada da guerra na Ucrânia até ao seu apoio quase incondicional a Israel e à sua abordagem agressiva à China, não é exagero dizer que o Partido Democrata de Biden se tornou o herdeiro oficial da agenda neoconservadora. Leia novamente a doutrina Wolfowitz de 1992, que afirmava que “a missão política e militar da América na era pós-Guerra Fria seria garantir que nenhuma superpotência rival pudesse surgir na Europa Ocidental, na Ásia ou no território da antiga União Soviética”. A única diferença agora é que os EUA já não lutam para impedir o aparecimento de adversários sistémicos à sua hegemonia, mas, muito mais perigosamente, para conter e suprimir novas potências que já surgiram, em primeiro lugar a China e a Rússia. Talvez isso tenha sido melhor captado por um relatório confidencial aprovado em março pelo Governo Biden e recentemente divulgado pelo New York Times, defendendo que os EUA se devem preparar para uma guerra nuclear simultânea contra a China, a Rússia e a Coreia do Norte.

Harris desempenhou um papel importante na cimentação desta postura. Nos seus discursos como Vice-Presidente, ela repetidamente ressaltou a importância de manter a superioridade militar americana e reafirmar o papel central dos EUA na NATO e em outras alianças militares. Ela lidou extensivamente com a Ucrânia, por exemplo, encontrando-se com Volodymyr Zelensky seis vezes desde o início da invasão da Rússia. Em várias ocasiões, reiterou o compromisso inabalável dos Estados Unidos com a Ucrânia. Harris também fez inúmeras viagens à Ásia, encontrando-se com aliados dos EUA na região para reforçar as várias alianças de segurança militar anti-China de Washington, bem como empurrando legislação importante visando a China por violações dos direitos humanos.

Desde que assumiu o papel de candidata presidencial democrata, Harris deixou bem claro que a sua abordagem à política externa continuará a basear-se nos princípios Wolfowitzianos. Na recente Convenção Nacional Democrata em Chicago, ela prometeu “garantir que a América tenha sempre a força de combate mais forte e letal do mundo”. Ela também prometeu “nunca vacilar em defesa da segurança e dos ideais da América, porque na luta duradoura entre democracia e tirania, eu sei onde estou e sei onde os Estados Unidos pertencem”. Isto pode soar relativamente benigno, mas revela uma visão de mundo profundamente maniqueísta — que rejeita abertamente a ideia de distinção civilizacional como fundamento de uma ordem internacional baseada na igualdade soberana entre as nações, mas divide o mundo em Estados legítimos (“bons”) e ilegítimos (“maus”).

Harris também deixou claro que manteria o status quo na Ucrânia: continuando — e possivelmente escalando — a guerra por procuração de Washington contra a Rússia. Na verdade, é difícil imaginar que Harris não tenha estado envolvida nas recentes discussões da Casa Branca sobre permitir que Kiev use mísseis de longo alcance de fabricação americana e britânica para atacar profundamente o território russo, mesmo até a própria capital Moscovo – algo que Putin alertou que levaria a NATO a um conflito direto com a Rússia.

Podemos esperar que Harris siga uma linha de continuidade semelhante sobre a China e o Médio Oriente. O seu manifesto, por exemplo, afirma que “ela sempre defenderá os interesses americanos diante das ameaças da China” — em que “ameaças” devem ser entendidas como o declínio do status hegemónico da América resultante da ascensão da China, não como uma ameaça militar ou de segurança direta para os EUA. Entretanto, no que diz respeito a Israel, apesar de Harris dar mais ênfase ao sofrimento humanitário dos palestinianos em Gaza, ela pouco fez para realmente controlar Israel — nem mostrou qualquer intenção de o fazer no futuro. De facto, no seu manifesto de campanha, ela promete que “sempre defenderá o direito de Israel de se defender e garantirá sempre que Israel tenha a capacidade de se defender”.

Isto segue-se a relatos dos actuais e antigos membros do pessoal de Harris de que ela não só rejeitará quaisquer cortes ou condições na ajuda militar a Israel, mas também se recusará a voltar a aderir ao acordo nuclear com o Irão como meio de reduzir as tensões na região. De acordo com o Times de Israel, o congressista Brad Schneider afirmou que a ligação judaica de Harris informou-o de que o candidato presidencial do Partido Democrata se oporia à reentrada no acordo nuclear — embora o desenrolar do acordo tenha permitido ao Irão avançar maciçamente o seu programa nuclear, incentivando-o a reforçar os seus laços com os seus representantes na região, incluindo a Rússia.

Em todas as grandes questões de política externa, então, podemos esperar que Harris siga a linha imperial do Partido Democrata. Especialmente quando se considera que o seu conselheiro de segurança nacional, Philip Gordon, é um “transatlanticista tingido de lã” que desempenhou um papel fundamental na elaboração da desastrosa tentativa de Obama de derrubar o presidente sírio, Bashar al-Assad.

Também não é surpreendente que, apesar das suas credenciais progressistas, Harris tenha recebido apoios pesados de neoconservadores de linha dura e falcões Republicanos de política externa. Na verdade, ninguém menos que Dick Cheney – falcão Republicano de toda a vida, o mentor das “guerras para sempre” pós-9/11 e notório defensor da tortura – anunciou recentemente que votará em Harris, que disse que estava “honrada” por ter o apoio de Cheney. A filha de Cheney, Liz, uma ex-congressista Republicana, também deu o seu apoio a Harris. Referindo-se ao discurso de Harris na Convenção Nacional Democrata, ela disse: “É um discurso que Ronald Reagan poderia ter feito. É um discurso que George Bush poderia ter feito. É muito mais um adotar e uma compreensão da natureza excepcional desta grande nação… [se você se importa] com o papel de liderança da América no mundo, um voto para a Vice-Presidente Harris é o voto certo para fazer desta vez.”

Enquanto intervenção, foi tão reveladora como notável. O facto de os ultraconservadores estarem agora a apoiar Harris é um lembrete de que as “guerras culturais” são, em última análise, pouco mais do que um espetáculo secundário: quando se trata das questões que realmente importam — em primeiro lugar e acima de tudo a política externa — as elites irão alegremente unir forças com pares que partilham pontos de vista opostos sobre questões “culturais”. De facto, os Cheneys são apenas parte de uma lista crescente de republicanos que vieram apoiar Harris, nomeadamente Roberto Gonzales, Procurador-Geral da administração Bush Jr, onde foi arquiteto de algumas das piores ofensas legais do início da guerra contra o Terror; Larry R. Ellis, um general aposentado que também serviu sob George W. Bush; e mais de 200 ex-altos funcionários republicanos. Os media do establishment têm bajulado Harris pela mesma razão. Jennifer Rubin escreveu recentemente uma análise brilhante da política externa de Harris no Washington Post, descrevendo-a com aprovação como “Reaganista”.

Entretanto, enquanto o establishment dos EUA se alinha para celebrar a perspectiva de uma presidência Harris, o resto do mundo poderia ser perdoado por ser mais cauteloso. Afinal, para os milhares de milhões de pessoas em todo o mundo que estão profundamente preocupadas com a perspectiva de uma guerra global, este tipo de mentalidade de soma zero da Guerra Fria apenas significa más notícias. Sob Harris, o “woke imperium” terá encontrado o seu imperador. E com um sorriso, ela fará mais do mesmo: intervenção em nome da democracia e guerra em nome da paz.

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[1] N.T. Woke é um adjetivo derivado do inglês vernáculo afro-americano (AAVE) que originalmente significa alerta para o preconceito e discriminação racial. A partir da década de 2010, passou a ser usado como gíria para uma consciência mais ampla das desigualdades sociais, como injustiça racial, sexismo e negação dos direitos LGBT.


O autor: Thomas Fazi é escritor, jornalista e tradutor. É autor de The Battle for Europe: How na Elite Hijacked a Continent (Pluto, 2014) e co-autor com Bill Mitchell, de Reclaiming the State: a Progressive Visiono f Sovereignty for a Post-Neoliberal World (Pluto 2017). O seu último livro, em co-autoria com Toby Green, é “The Covid Consensus”.

 

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