CARTA DE BRAGA – “só andando se faz caminho” por António Oliveira

A linguagem, aquela que aprendemos quando aqui chegámos, no ambiente que os deuses escolheram para qualquer um de nós, é a base da comunicação do ser humano, da maneira como entendemos o mundo e mesmo as pequenas coisas, aquelas que nos serviram para trepar todas as escadas da vida.

É óbvio que fomos crescidos com uma visão própria (a que nos foi transmitida), mas com ela construímos e podemos interpretar a realidade de uma outra maneira (nossa, individual e própria de cada um), para nos aproximarmos do ‘outro’ e poder trocar e partilhar factos e ideias, talvez mais as poucas coisas daquele universo interior, que só abrimos a alguns.

É um outro mundo, o do relacionamento nas suas diversas gradações, pois cada palavra depende da ocasião e da forma como a usamos, por vezes sem conhecermos as regras totais da gramática ou da linguística, mas permite a criação de vínculos dificilmente explicáveis, aqueles que são o segredo e a maravilha do entendimento entre as pessoas, por muito distintas e diversas que elas sejam.

É óbvio também que, a nível individual e colectivo, esta construção de vínculos se transforma num desafio para cada um e também para a comunidade, por ‘exigir’ que ambos tenham noção ‘de onde’ vieram, bem como do ‘onde’ estão e, mais importante ainda, do ‘para onde vão’, que é o cimento que pode agregar toda e qualquer associação.

Esta questão reveste-se hoje de especial importância, marcada pela necessidade de responder aos desafios de uma outra realidade digital, que agora se impõe no conhecimento e na economia, e tenho a sensação de (pelo que vejo em qualquer parte e a qualquer hora), que a juventude optou pela solução individual, sem ter em conta que a grande maioria está nessa mesma e igual situação.

Não quero agarrar-me a conclusões preconcebidas ou precipitadas, mas lembro-me que nos últimos anos que leccionei, muitos alunos me perguntavam se a bibliografia indicada era toda para ler. Respondia sempre que o desconhecimento do passado, tanto individual como colectivo, também é objectivo das novas políticas; a base são as redes sociais e políticas que arrastam para a homogeneização e normalização, como forma de controlo do comportamento, pois onde não há diversificação nem diferendos, é muito mais fácil impor normas de conduta, tanto sociais como políticas, por nem haver bases de um saber ‘ser e estar’, que as possam contestar.

Li também o texto de um historiador e cronista onde afirmava qualquer coisa como isto, ‘É um facto evidente que, pela primeira vez em décadas, há gerações que desconhecem o que aconteceu antes deles’. E salienta o cronista, que tudo o que não passe dos estrangeiros que saibam jogar futebol, ou outros quaisquer que encham recintos para concertos de qualidade discutível, mas com intenso poder mediático, não poderão colmatar a ruptura instalada num sistema que se mostrou incapaz de recomendar os seus próprios valores, éticos e estéticos, levando a serem cada vez mais os que inclinam para opções autoritárias antigas e já ensaiadas, com resultados catastróficos que estas mesmas gerações desconhecem, por não terem aprendido o que aconteceu antes deles.

Recordo que numa das últimas Cartas transcrevi as palavras do escritor Francisco Faraldo, ‘Hoje os alunos das escolas, jovens trabalhadores e universitários portugueses, nada sabem do 25 de Abril de 74. Os inquéritos de rua mostram que para a população mais jovem, Otelo era um futebolista brasileiro, Salgueiro Maia um ministro e Rosa Coutinho uma modelo brasileira’.

Talvez seja bom recordar também, as palavras de Sophia de Mello Breyner Andresen, na Assembleia da República, em 2 de Setembro de 1975, ‘A cultura não existe para enfeitar a vida, mas sim para a transformar – para que o homem possa construir e construir-se em consciência, em verdade e liberdade e em justiça. E, se o homem é capaz de criar a revolução é exactamente porque é capaz de criar a cultura’.

Convém não esquecer que uma cultura viva satisfaz as necessidades, cumpre desejos e permite realizar objectivos, pois dá sentido às atitudes, e permite integrar gente e comportamentos, num todo colectivo, actuando em bloco para conseguir realizar o que, também em bloco, se propuseram. Daí que saber, ter uma noção perfeita daqueles ‘de onde’, ‘onde’ e ‘para onde’, seja muito mais importante que as dezenas de ‘amigos’ com que se trocam ‘likes’ e ‘selfies’, mas não servem para mais nada além disso.

Este poderá ser um dos caminhos mais fáceis para aprender democracia, o resto só se aprende ‘por, a andar, se fazer caminho’.

António M. Oliveira

Não respeito as normas que o Acordo Ortográfico me quer impo

 

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