As sílabas marginais/MEMÓRIAS/Nelson Ferraz

 

MEMÓRIAS

há memórias que são pessoas casas mil coisas

e que ainda são um hoje a desaparecer.

memórias cercadas por cortinas

que são um ontem a respirar numa aflição com asas baças

incapazes de esvoaçar infância.

por isso a urgência deste sossego de palavras que são cacos

que se escrevem devagar

como se o poema fosse um relento que fica.

da água que escorre saem todos os meus

que vivem sentados nas pálpebras que agora

vertem encruzilhadas no lavatório.

quando acabar de lavar os dentes

serei um rochedo de luz redonda.

 

 

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