CARTA DE VENEZA – OS COMÉRCIOS E OS FONDACI – por Vanessa Castagna

 

      Uma das palavras típicas da toponímia veneziana é fontego  (em italiano “fondaco”), um termo de origem árabe – funduq designava um armazém, um empório, ou uma estalagem – que se refere, ainda hoje, a um edifício histórico típico, usado principalmente como armazém ou espaço de comércio. Na sua origem, os fondaci eram imóveis de vários andares situados ao longo dos canais, que permitiam o armazenamento de mercadorias e facilitavam o comércio. Além de servirem como depósitos, muitas vezes também tinham áreas de habitação para comerciantes e constituíam um ponto de fiscalização aduaneira e de negócios e trocas comerciais.

     Os fondaci eram administrados pelas autoridades venezianas, que estabeleciam as suas regras e impunham que os mercadores residissem no fondaco da sua comunidade, de modo a facilitar os controlos e garantir a segurança do comércio. Um dos mais conhecidos é o Fontego dei Tedeschi, construído no século XIII perto da Ponte de Rialto, destinado aos mercadores da Europa Central; na sequência do declínio comercial de Veneza, este como os outros fondaci perdeu a sua função inicial e no século XIX, durante o domínio austríaco, passou a funcionar como sede central dos correios, o que se manteve até finais do século XX.

      Depois de anos de abandono, o Fontego dei Tedeschi sofreu uma restauração importante, que o transformou num centro comercial de luxo desde 2016, com um terraço panorâmico capaz de oferecer uma extraordinária vista sobre a cidade e uma programação cultural aberta ao público geral. A requalificação do edifício não tinha deixado de suscitar alguma polémica, mas muito mais espanto despertou a notícia de que o centro comercial vai fechar em breve deixando sem emprego mais de duzentas pessoas, perante um défice enorme atribuído sobretudo à redução dramática dos fluxos turísticos asiáticos.

       Enquanto resta por escrever o futuro deste fondaco, vale a pena lembrar o que é feito dos outros. O Fontego dei Turchi, antigamente destinado aos mercadores otomanos, é hoje sede do Museu de História Natural de Veneza; o Fontego del Mégio, antigo depósito de cereais, é hoje uma escola primária, enquanto o menos conhecido Fontego dei Persiani, destinado a mercadores da área persa, foi demolido em 1830 e no mesmo lote de terreno no fim do século XIX foi edificado o Palazzo Ruzzini.

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