ADÃO CRUZ – CARTA A UM AMIGO ( II ) (Continuação)

O Universo está infinitamente pejado de misteriosas estruturações materiais das quais conhecemos um minúsculo infinitésimo. São provavelmente aos biliões, por exemplo, as estruturas materiais irradiantes cuja essência e complexidade ultrapassam todos os limites da imaginação humana. Ao descobrirmos os raios X, os raios Gama, os raios Laser, tão reais como os meus dedos, não desvendamos mais do que uma ínfima molécula das inimagináveis radiações deste Universo, espalhado por milhões de anos-luz. As estrelas são muito provavelmente aos triliões, e cada uma delas constitui, certamente, o centro de um sistema solar imensamente maior do que o nosso, o qual, sendo dos mais pequenos, faz da Terra uma pedrinha nas mãos duma criança. A Terra é muito menos do que um pequeníssimo grão de poeira no seio do Universo, e o Homem, essa infinitesimal partícula, considera-se, numa ridícula e paranoica postura, o ser mais perfeito, a obra-prima, a criação por excelência, como se tal fosse racionalmente compreensível e aceitável.

Negando os limites da sua própria natureza e da sua imaginação, assume-se como o centro do Universo e inventa um deus, seu pai, cuja ontológica preocupação máxima, permanente e eterna, é a salvação da alma deste ridículo micróbio, marimbando-se para todos os outros seres cuja diferença está, apenas, num número inferior de neurónios! Admitindo absurdamente a preexistência de um tal deus, a sua revelação exclusiva ao animal-homem, repito, apenas porque os neurónios deste são ligeiramente mais numerosos do que os dos primatas superiores ou mesmo do cão ou do macaco, faz rir. Consideram os cientistas, após as fotografias das sondas que pousaram em Marte, que este planeta deve ter contido muita água e provavelmente vida, há milhares de milhões de anos. Se assim for, que tipo de vida? Animais com mais ou menos neurónios do que o Homem? Sem neurónios, mas com outro substrato da razão que não imaginamos? Outros seres, estruturas materiais desconhecidas, mas, eventualmente, muito mais complexas do que o Homem? Sendo deus sempre o mesmo – uno e universal – onde estará a alma dos marcianos? No céu? No inferno? Não a tinham? Coube-lhes a pouca sorte de lá não terem chegado os missionários e todos os bons pregadores da fé e do império, a tempo de os salvar? Quando a terra ficar assim deserta como Marte – do que não duvido -, a avaliar pelo grau de destruição presente nos nossos dias, e ao fim de milhares de milhões de anos chegarem aqui os habitantes de outra galáxia, adivinharão a existência de um punhado de almas que por aqui andaram, e agora se encontram chilreando na imensidão do paraíso, e de outro punhado gemendo nas profundezas do inferno?

Nascido, revelado ou realizado em tão microscópico cérebro, tal deus universalmente omnipotente, omnividente e omnisciente nunca poderia existir, pois ao primeiro sopro de vida geraria, de imediato, a negação dessa omnipotência, omnisciência e omnividência, bem como a sua autodestruição, através de uma incompatível e absurda subestimação divina, decorrente de tão inglória e mesquinha concepção.

 

(continua)

Leave a Reply