Nota de editor
O presente texto, é, como alguém disse “um texto espantoso”, também comovedor e muitíssimo estimulante. Não obstante estarmos habituados à excelência da escrita de Júlio Marques Mota, é um texto que, centrado na experiência de vida do seu autor, reflete não só realidades passadas que não queremos ver serem repetidas, mas também preocupantes realidades presentes sobre as quais não nos devemos iludir e a que devemos estar atentos e que o pensamento dominante nos tenta vender como sendo a desejável normalidade. É também uma bela mostra do quanto importam as circunstâncias que nos rodeiam e moldam e dentro das quais nos movemos ao longo da vida. Pensamos por isso que o conteúdo convida a que este texto seja publicado na íntegra, justificando plenamente o uso de tempo que fazemos para o ler.
FT
27 min de leitura
Não me doutorei: uma tentativa de explicação
Coimbra, 22 de Novembro de 2024
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Dedico esta peça a José Veiga Torres, João Cravinho, Boaventura Sousa Santos e a um antigo aluno meu cujo nome não sei, por fazerem parte desta história. A todos o meu reconhecimento. JMota
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Meu caro Amigo
Recebi o teu email e agradeço. Não comento o primeiro período e tentarei responder ao segundo.
Dizes:
Parabéns pelo trabalho notável de educação permanente de alto nível que tens vindo a fazer há anos. Prometeste que um dia me dirias porque não fizeste doutoramento. Espero.
Devo-te a resposta a uma pergunta e esta vem de longe, vem dos meados da década dos anos 80, feita no teu gabinete no palácio dos Limas. Na altura dizias-me: não entendo porque é não te doutoras. Não conheço ninguém tão desprendido da realidade material. Nem a comunidade religiosa X é como tu. (digo X porque não consigo lembrar-me do nome. Não sei já o que respondi, mas possivelmente tê-lo-ei feito com evasivas).
Da tua parte há aqui um faro sociológico espantoso como tentarei mostrar-te depois.
Não me doutorei, esta é a realidade. Explicações possíveis são várias e nem sempre antagónicas. Elenco duas no campo do senso comum:
H1. Falta de nível intelectual para conseguir doutorar-me.
H2. Falta de motivação para vencer obstáculos académicos. Isto pode ser analisado por duas vias:
– Falta de capacidade de trabalho (H2a- versão forte)
e/ou
– Falta de interesse pela profissão de docente [H2b- hipótese versão fraca] em que a profissão seria então vista apenas como uma fonte de rendimentos. E a hipótese fraca tem um nome: alienação no trabalho.
Houve alunos que há décadas deram uma terceira explicação: Um dia recebo na minha caixa de emails uma sugestão: a de que consultasse o sítio Dias Riscados, uma vez que nele se falava longamente de mim.
Nele se dizia que eu não me doutorava porque me queria diferenciar de alguns doutoramentos que circulavam por aquela que foi a nossa casa, a minha, a tua, a de muitos outros.
Eliminemos esta última explicação porque na época isso não tinha qualquer sentido. Era patético. Curiosamente tem-no hoje e face aos doutorados de hoje. Quando uma faculdade, como a nova FEUC, aprova este ano, e para o cargo de catedrático em economia, alguém que não tem uma licenciatura em economia, tem um mestrado em economia Financeira, Pedro Godinho, ou se aceita um candidato a catedrático na primeira reunião do júri porque preenche as condições de candidatura, o Professor Fuinhas, e se recusa na segunda reunião do júri porque não preenche as ditas condições (é ou não é) diríamos que a afirmação publicada no sítio Dias Riscados, se fosse dita hoje e face a muitos dos doutorados de hoje, teria sentido. Como são os novos tempos, meu caro. Os jovens têm uma imaginação fértil, por isso é que são jovens e muitas vezes adivinham o futuro!
Creio que o responsável do sítio eletrónico era um assistente do ISCA que teria sido meu aluno e que, pelos vistos, nutria um enorme respeito pelas pressupostas minhas qualidades intelectuais. Cheguei a admitir que o autor do texto fosse o Luís Aguiar-Conraria, falamos de algo passado há mais de 20 anos. Não foi ele, disse-mo, sendo certo que hoje não lhe faria esta pergunta e exatamente porque os tempos são outros.
Restam-nos as duas primeiras hipóteses em separado ou em conjunto e as vias de explicação seriam então H1, H2a, H2b ou ainda: (H1+H2a) (H1+H2b) se quisermos alargar o campo de análise para percebermos porque é que não me doutorei.
Para muita gente a explicação é dada por uma qualquer destas hipóteses; é uma opinião e contra ela não tenho nada a opor. Foi assim que convivi, e bem, com os colegas que votaram contra a minha passagem a professor associado na FEUC. E nem sequer precisam de a fundamentar. Porém, tenho o direito de discordar dessa leitura, é próprio da Democracia, mas aqui, sendo contra a lógica do senso comum, devo fundamentar a minha discordância.
Como sabes, e melhor do que eu, o homem é também fruto das circunstâncias (Marx, em 18 de Brumário, Marx, em tese 3 sobre Feurbach) ou, como diz Ortega y Gasset, que serei eu sem as minhas circunstâncias. É nestas circunstâncias que estarão, do meu ponto de vista, as razões pelas quais não me doutorei. E, como circunstâncias que são, elas abarcam os longos anos do fascismo e os 50 anos de liberdade democrática formal.
A explicação será assim longa e tentarei fazê-la abarcando estes dois períodos da nossa história social, política, económica, mesmo que em traços gerais, através de escritos meus publicados ao longo destes anos e nada mais que isso. Trata-se de textos que foram escritos completamente fora deste contexto e isto para não se dizer que eu estou a fabricar a história para levar a água ao que podem supor ser o meu moinho. Desta forma minimizo a eventual distorção de que nos fala Gabriel Garcia Márquez quando nos diz: A vida não é a que se viveu, mas a que se recorda e como se recorda para a contar.
Se o conseguir fazer terei assim uma explicação procurada em quatro etapas da minha vida:
- A minha infância no Fratel
- A minha adolescência vivida com um livro de fiados na mão percorrendo as ruas da pobreza de Lisboa e a conclusão do secundário como aluno externo
- De aluno a professor do ISCEF – um olhar sobre a queda do fascismo
- De professor do ISCEF à minha longa permanência na velha FEUC
Recebido o teu email pensei construir a resposta longa na linha dos quatro temas acima expostos e publicar o texto depois da despedida oficial na FEUC do José Reis, ou seja, mais precisamente penso publicar isto em 26 de novembro, dia em que dei a primeira aula nas instalações da Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra, uma vez que a Faculdade de Economia ainda não dispunha de instalações próprias para aulas. Faltou-me um texto fundamental na recriação desta história em que explico as minhas ligações com a editora Terramar e no âmbito das atividades escolares na velha FEUC. Ainda não o consegui arranjar e não quero elaborar nenhum texto novo, quero situar-me apenas na história, como se disse acima quando me referi a Gabriel Garcia Márquez. Ficará para outra oportunidade refazer e alongar este texto, talvez quando fizer 82 anos e já não falta muito, se tiver disposição para tal.
Assinalemos aqui apenas alguns pontos de referência.
Período da infância:
– filho de camponeses sem terras e analfabetos
– aos 9-10 anos um casal abastado da minha terra, à saída de um acto religioso, no adro da igreja, oferece-se para me pagar os estudos no seminário. Recusei com o argumento de criança: quero casar e ter filhos. Obrigado, mas não aceito. Toda a gente se riu.
-sou impossibilitado de fazer a admissão ao liceu, por exigências de 1500$00 na época (1953-4, cerca de 3-4 meses de trabalho do meu pai se tivesse trabalho todos os dias úteis ).
– saída da escola primária. Vou trabalhar para uma micro empresa, de serração, moagem e padaria. Fico encarregado da “escrita” dos fluxos de cereais entrados e saídos que eram controlados por Lisboa, pela Comissão Reguladora das Moagens em Rama e a autenticação desses registos era feita mensalmente em Castelo Branco onde me deslocava expressamente para este efeito.
– escrevo ao ministro da Educação protestando contra a exigência da professora (os 1500$00), o que dá origem a um processo em forma que decorreu na sede do concelho Vila Velha de Ródão.
Não deixará de ser conveniente dar uma ideia sobre como é que o destino de muitas crianças deste país ficava marcado desde a infância.
Em junho deste ano fiz um texto intitulado “Carta aberta aos jovens de agora sobre a vida difícil dos jovens de outrora – Imagens dos anos 50-60 sobre uma geração, a minha, uma aldeia, Fratel, um país, Portugal, num tempo que não se quer voltar a viver, nunca mais“ onde explicava como era ser criança em Fratel nos anos 50. princípio dos anos 60. Nesse texto dizia:
“Hoje, os que restam desta geração serão na sua maioria avós, muitos deles com marcas no corpo e na alma por aqueles tempos extraordinariamente difíceis. O destino de muitos de nós era fixado naquela idade tanto pelas condições socioeconómicas dos pais como pelas condições escolares que balizam os projetos futuros. Viver no Fratel, não era a mesma coisa que viver nos Montes de Baixo ou de Cima, povoados da freguesia de Fratel. Nada disso, o que ainda complica, e muito mais, as condições de crescimento de muitas das jovens crianças que viveram naquela década.
Fratel era sede de freguesia de um conjunto de terras, desde Gardete, Riscada, Juncal e Vermum no sentido de Lisboa e, no sentido de Castelo Branco, por Piroledo, Vilar de Boi, Perdigão, Vale da Bezerra, Vilas Ruivas e não esquecendo também o povoado de nome Carepa. Eram quilómetros que diariamente tinham de ser percorridos, desde Gardete a Fratel, desde Vilas Ruivas a Fratel. Destes alunos ainda me lembro do Fernando de Gardete, do Manuel de Vilas Ruivas, do filho do senhor Dias, um descarregador da Estação de comboios de Fratel. Este menino diariamente tinha de fazer 10 quilómetros, 5 a subir e 5 a descer.
(…)
Imagine-se a falta de alegria de muitos destes meninos de 9-10 anos sujeitos a esta quilometragem, mas mais, imagine-se como teriam disponibilidade para fazer, para organizar, já cansados de tanto andar, os seus trabalhos de casa, sendo certo que pelo lado dos pais não poderiam contar com nenhuma ajuda, uma vez que a maioria deles não sabia ler nem escrever, tal como os meus, aliás. Eram, pois, diariamente percorridos quilómetros e quilómetros de ida e volta da escola, seja ao frio, ao vento, à chuva, ao calor, conforme a estação. Em que condições estariam todos estes meninos ao final de um dia de escola para poderem minimamente estudar e realizar os ditos trabalhos de casa? Fácil de calcular. Imagine-se como seria baixo o nível de criatividade para escrever como trabalho de casa o que se chamava então uma redação e todos nós sabemos a importância deste tipo de trabalhos de casa, naquelas idades!
Este era o carimbo da vida de gente ainda tão pequena para ficar com o destino já assim marcado, estreitamente balizado. Adicionemos-lhe a questão do exame de admissão, para aqueles que depois desta maratona de resistência ainda o desejavam fazer e o poderiam fazer e poderíamos dizer: o destino de todos aqueles meninos estava previamente determinado, selado, continuarem a ser ignorantes das coisas das letras mesmo que viessem a ser nada ignorantes nas coisas da vida. A maioria dos meninos da minha idade não poderia passar daqui e, mesmo aqui, a que custo para aqueles que viviam no Fratel! A compor este ramalhete de inconvenientes graves para quem tem aquela idade, adicionemos-lhe a falta de uma adequada alimentação: nada substitui uma refeição de faca e garfo, nada substitui por fim a boa peça de fruta.”
Período da adolescência
Vou como marçano para Lisboa com 12 anos. Haveria de estudar, era esse o objetivo. Sabia de alguém que a tra balhar tinha tirado um curso superior. Haveria também de o conseguir. Deambulei por Lisboa e por diversas mercearias. Soube bem o que era a tristeza de muita daquela gente de viverem a fiado. Era um livro onde escrevia diariamente.
Com 16 anos vou trabalhar para a Rua Afonso Lopes Vieira em Lisboa, junto à Avenida do Brasil. Aí fui extremamente protegido pelos meus clientes. Dois deles deram-me autorização para ir comer a sua casa sempre que não gostasse da comida que me era dada pelo patrão. Um outro cliente emprestava-me de vez em quando um livro para ler e depois ir conversar sobre ele a sua casa.
Com outro casal criou-se uma relação mais curiosa. Tinham um filho que andava no liceu Charles Lepierre ao nível do nosso segundo ano de liceu. As minhas relações com o casal eram muito cordiais. Fiquei a conhecer o filho, neto do pintor Armando Lucena, pela parte da mãe. Motivado por toda essa gente que me acarinhava tentei fazer o exame do ciclo- na altura chamava-se o segundo ano do liceu. No final desse ano letivo, estaríamos em 1960, creio, o filho explicava-me as minhas dúvidas de francês e eu tirava-lhe as dúvidas de matemática.
Não me foi autorizada a inscrição para exame. Tinha menos de 18 anos e não tinha feito a admissão ao liceu. Tinha de ser proposto por alguém externo. Aí deparei-me com um problema grave: um problema de liquidez. Era preciso inscrever-me numa escola, era preciso ter dinheiro para a pagar. Ser marçano não dava. Empreguei-me numa fábrica, a fábrica Monsanto, na rua Centro Cultural, nº 5, onde ganhava 24 escudos por dia, 8 horas por dia.
Inscrevi-me numa escola e fiz no ano seguinte, em 1961, o segundo ano do liceu. Inscrevi-me para fazer o 3º, 4º e 5º ano no ano seguinte. Este ciclo estava dividido para efeitos letivos em duas secções: letras e ciências que eram lecionadas em dias alternados. No dia em que as aulas eram de letras, ia apenas às aulas de inglês. No dia em que eram de ciências ia sobretudo às aulas de desenho, pouco mais que isso.
Porquê assim? Para já pagava o direito de ser inscrito a exame, pois a experiência em 1960 foi muito amarga, fartei-me de chorar. Depois precisava de tempo para estudar e… vejamos: morava no Rego, nas costas do Hospital de Santa Maria. Com chuva, ou com sol, percorria a pé a distância para a fábrica, onde entrava às 8 horas menos 5 min e saía às 17 horas.
Saía da fábrica com os livros e ia estudar para o café, normalmente para o Nova Iorque, ou o Tatu. Depois de jantar ia à escola no Campo Pequeno e depois dirigia-me para o café Nova Iorque. Aí ficava até perto da meia-noite. Dava explicações aos meus colegas com quem estudava em conjunto. Gratuitamente, claro. No fundo, mantinha bem presente a mensagem de Cristo aprendida em Fratel mesmo que tenha perdido Deus enquanto marçano.
Fiz o 3º, 4º e 5º anos num ano mas paguei um preço elevado. Apanhei uma gripe e, de receita médica em receita médica, chegou-se à conclusão de que se tratava de uma tosse nervosa. Decidi ir a um psiquiatra ao Santa Maria e a pedido de um primo meu fui visto pelo médico José Simões da Fonseca, de quem fiquei amigo. Ele diz-me: anda comigo, vou-te mostrar a tua tosse nervosa. Levou-me aos Raios X do Hospital de Santa Maria, faz-se um raio X e bom… a tosse nervosa era uma caverna no pulmão. Tratou-se rapidamente do meu internamento via Hospital Pulido Valente. Fui para o Caramulo poucos dias depois.
Do Caramulo voltei para o Fratel, agora doente. Aí, sozinho, comecei a preparar o sétimo ano, agora em dois anos. Tinha optado pela alínea F, queria ir para Medicina. Num ano fiz Filosofia, Matemática e Administração Política e Administrativa. Sem explicações de ninguém, não foi nada fácil. Não sei como, lembro que estamos em 1963, ainda consegui contactar o professor Palma Fernandes que por escrito me tirou algumas dúvidas e ofereceu-me alguns livros! No ano seguinte, ainda a viver na minha aldeia, em recuperação da tuberculose, preparei as restantes disciplinas com um detalhe bem curioso- na parte final fui para Lisboa, onde por autorização do reitor do liceu Camões, um conterrâneo meu, tive acesso aos laboratórios do liceu, ensinado por dois contínuos!
Queria ir para Medicina, queria ajudar os doentes pobres como o meu pai. Continua a estar bem presente a mensagem de Cristo. Tinha garantido pelo Instituto de Apoio à família uma bolsa. Veio o vulcão dos Capelinhos e todo o dinheiro disponível foi mobilizado para os Açores. Mudei de vida.
Entretanto o meu pai morreu num acidente de viação e tinha agora de olhar pela minha mãe. Mais tarde, nas vicissitudes da vida, fui parar ao ISCEF.
No entanto creio que o relato sucinto até agora feito elimina totalmente a hipótese H2 a e H2b. De uma maneira ou de outra sou também um produto das circunstâncias e estas foram para mim muito importantes. Ortega y Gasset tem razão. Que seria eu sem as minhas circunstâncias, sem o apoio daqueles que me deram de comer, que me deram livros a ler, .que me deram explicações, que me acarinharam nas suas casas, que me deram roupa de jeito, que me incentivaram para o estudo e para a cultura. Ganhava enquanto marçano 100 escudos por mês e tinha de sofrer o desconto daquilo que alguém me roubasse do meu cesto das compras quando as ia entregar aos clientes! Para dar um exemplo, o primeiro par de calças de jeito que tive foi-me dado pelo Eurico de Figueiredo, mais tarde um dos principais líderes estudantis nas crises académicas que posteriormente se desenrolaram.
De aluno a professor do ISCEF (ISEG)
Chegado ao ISCEF em 1968 procuro manter as minhas ocupações em recuperar culturalmente o tempo perdido, quer em termos de leituras, quer de cinema, ou mesmo de teatro ou ainda em termos de política e de filosofia, entrando mesmo em círculos intelectuais da Brasileira ou da casa de Natália Correia, além de me dar também com os círculos da malta com quem convivi e com quem me dava desde os tempos difíceis do café Nova Iorque. Adicionalmente estudava para alcançar uma média de 16 valores. O resultado final foi ficar em situação de quase esgotamento. Clinicamente proibido de estudar durante alguns meses. Fiz todos os exames na primeira época e dei diversas explicações, sempre gratuitas, a amigos meus para a segunda época em Economia e em Propedêutica Comercial. Foram três meses de contenção absoluta e, depois, tudo virou ao normal. As marcas, sem que eu desse conta, ficaram.
Tive depois, no segundo e terceiro anos, professores de referência e por características bem diversas. Foram eles: Pereira de Moura, Alfredo de Sousa e Ramos Pereira. De Ramos Pereira fiquei amigo até à sua morte. Quanto a Alfredo de Sousa, sou por ele convidado duas vezes, uma delas para trabalhar diretamente com ele, uma segunda para aceitar uma bolsa garantida para ir para Cambridge trabalhar com o grupo Sraffa, para Varsóvia com o grupo Oskar Lange, em Budapeste com o grupo Janos Kornai e Andras Brody. Recusei e com os seguintes argumentos: não sei suficientemente economia, não sei suficientemente matemática e, não sei suficientemente inglês e não estou disponível para deixar a minha mãe sozinha. Mais tarde tenho uma proposta equivalente e vinda de João Cravinho, entrada no GEBEI e saída imediata para me especializar em Inglaterra: a mesma recusa e as mesmas razões.
Ainda em 1971 estou uma semana a discutir a Troca Desigual na casa de Arghiri Emmanuel em Paris. Sugeriu-me que, face às dúvidas e esclarecimentos havidos escrevesse um artigo. Nem pensar, professor, os senhores estão no cimo da escada e eu estou abaixo do primeiro degrau, foi a minha resposta. Agradeci e ficámos por aqui. Nunca mais o vi. Foi-me mandando textos, alguns vieram parar à FEUC.
Há depois um debate internacional com economistas de vários países sobre a Troca Desigual, o tema na berra naquela altura, e sou convidado, creio que por Michel Debatisse. Pedi subsídio à Gulbenkian para ir a Paris. Foi recusado por não ser conferencista. Em 73 sou convidado por Monteiro Alves e depois por Elsa Ferreira. A professora Elsa Ferreira chegou mesmo a perguntar-me para onde é que gostava de ir trabalhar. A resposta é aqui relevante. Para nenhum outro lado, gosto do que faço aqui e estou aqui não só para ensinar, mas também aqui para aprender. De resto é isso que tenho feito ao longo da vida, até hoje, quando escrevo este texto.
Foi um tempo riquíssimo em que estudava teoria marxista heterodoxa, neo-ricardianos, além das disciplinas tradicionais e não só. Recentemente reencontrei um amigo daqueles tempos que tinha deixado de ver desde 1975. A minha carta aberta ao atual ministro Fernando Alexandre e recentemente publicada tinha circulado pelo ISEG. Este meu amigo encontrou-se com um colega que lhe deu a carta a ler. O meu amigo leu a carta até ao fim e caiu de espanto. Tinha o meu email, por circular entre um amigo comum, Almeida Serra, e escreveu-me imediatamente, queixando-se de um email que muito antes me tinha enviado e que ficou sem resposta. Na troca de correspondência que tem havido entre nós e relativamente àquele período diz-me o seguinte:
“Júlio
Desconhecia esses pormenores do Ricardo, embora soubesse que foi um grande economista, um dos grandes pilares da Economia [para mim, Ricardo não sabia matemática, mas todo o seu raciocínio é de pura matemática. Dá gosto lê-lo assim]. Saber matemática é diferente de ter um raciocínio tipicamente matemático, penso eu.
Eu sou suspeito, pois sempre gostei de Matemática e leccionei disciplinas ligadas à matemática, como Estatística e Probabilidades (cheguei a ser assistente do Bento Murteira), Investigação Operacional, Teoria dos jogos, etc. A minha opinião, pelo que percebi do teu comentário, não é muito diferente da tua.
Excluindo o matematismo, designação de Miguel Cadilhe num artigo da Revista da Ordem dos Economistas, que consiste no exagero e em utilizar a Economia como pretexto para fazer Matemática, esta é muito útil em duas vertentes:
Ainda a propósito de von Neumann, já falado a propósito da Teoria dos Jogos, em 1937 publica “ A Model of General Economi Equilibrium”, onde formula o modelo de programação linear dinâmica, em que admite alternativos de produção simples ou conjunta. Isto para não falar de economistas do passado, como Walras, Cournot, Leontief, e muitos outros, que conseguiram muitos resultados graças ao domínio das matemáticas. Foi em tua casa (ali no Conde Redondo) que eu vi, e desfolhei, pela primeira vez o livro de Samuelson, Solow e Dorfman sobre “Linear Programming and Economic Analysis” e também o Pierre Massé, “le choix des Investissement), livro que mais tarde adquiriria e me seria útil como professor. Tiveste alguma influência na minha viagem pelas matemáticas aplicadas.
Manuel Ramalhete” – Fim de citação
Percebe-se, pois, que ao ir discutir o trabalho da disciplina de Planeamento, com o meu colega Gouveia Pinto, as duas professoras responsáveis pela disciplina nos tenham pedida emprestada a bibliografia. Eram tempos difíceis para todos, convenhamos.
De professor do ISCEF à minha longa permanência na velha FEUC
Ao despedir-me da FEUC, em 2012, dos seus professores, dos seus funcionários, dos seus estudantes, escrevi:
“Está longe, muito longe, o tempo em que aqui cheguei. Com efeito, larguei em 1975 o ISEG cansado de um destino que aí se desfazia entre a exigência de notas dadas ou exigidas de mão no ar e a existência de um clima universitário que, por fruto da época, não era compatível com a minha pretensão de aproveitar os primeiros anos de docência para uma preparação de ordem científica, por um lado, para meu próprio interesse e estrita valorização pessoal e, por outro, tendo em conta a investigação de carreira, pois considerava que a formação adquirida até aí estava muito longe da que pretendia, para além de querer procurar sempre interrogar os textos que estudava, forma de estar que aprendi enquanto estudante. Estava ali para ensinar, é certo, mas também estava ali para estudar, para aprender. Não tinha tempo para mais. Assim, também recusei diferentes propostas de segundo emprego, por princípio, por um lado, e por não ter tempo disponível, por outro. Tempo de uma geração que aprendeu a interrogar, a contestar também.
Foi neste contexto da degradação do ensino que vim para Coimbra e durante meses o ISEG continuou a pagar-me o ordenado, porque pensava que eu havia de voltar. Não voltei, fiquei. A preparação científica a que fundamentalmente ansiava, a formação face aos meus objectivos de percepção e de acção no mundo, essa, o tempo e a vontade sempre permitiram que fosse sendo feita. Para trás e para sempre ficou a investigação dita investigação de carreira ou, mais simplesmente, o doutoramento, que por efeitos de trade-offs não foi feito. Mas os sinais dessa inquietação quanto à percepção do mundo e a tensão ou a insatisfação intelectual que lhes esteve sempre subjacente permaneceram uma constante que tentei sempre transmitir a quem comigo estudava, a quem comigo partilhava as mesmas dúvidas, as mesmas interrogações, a quem comigo interrogava os mesmos conhecimentos.”
Em relação a este meu texto escreve-me o Coordenador do Núcleo de Estudantes o seguinte:
“Li o seu texto com toda a atenção. 2 anos e meio passados desde que entrei no ensino superior e também a minha visão sobre a Universidade Pública e o Processo de Bolonha se alterou. Se antes os julgava Castelos, hoje reconheço que de areia são feitos e à beira de um mar de interesses. (…)
Nunca ninguém me tinha feito pensar tanto em tão pouco tempo e de forma tão diferente daquela como pensava. Mudei a minha forma de ver o mundo e as minhas preocupações e tenho pena que outros colegas não tenham a sorte de aprender consigo.(…)
Posto este pequeno comentário, deixo-lhe em meu nome pessoal e em nome do Núcleo de Estudantes de Economia os Parabéns, e desejos de um bom ano. Mesmo não estando ao serviço da UC, estou certo que dedicará parte do seu tempo livre ao despertar de consciências por esse país fora, ainda que virtuais possam ser. Como já tive oportunidade de lho dizer (quando li a carta aos líderes parlamentares) é um grande orgulho ser seu aluno e aprender consigo muito do que vem nos livros, mas mais ainda do que vem da vida.” Assinado pelo Coordenador da Cultura-Núcleo de Estudantes de Economia.
O ISEG tinha entrado em derrapagem, como disse acima, e aceitei o teu convite para vir para Coimbra. E por cá fiquei. Depois, creio que foi em 1978 ou 1979, tive uma bolsa de estudo do Governo Francês, com uma duração de 3 anos passível de ser estendida a 5 anos sob proposta do orientador, o Professor Claude Berthomieu, mas dado o muito que havia a fazer na FEUC só fui para Nice a meio do ano e estipulei comigo mesmo que levaria apenas mais dois anos para fazer a tese. Nesse meio ano, mais uma vez para recuperar tempo perdido, por um lado, e ganhar tempo futuro, por outro, estudava em média 14 horas por dia. Cheguei ao final do semestre a ter sinais claros de astenia psíquica, dito esgotamento nervoso. Era a linguagem da época. Parei de estudar e regressei a Coimbra. Diz-me o médico, já falecido, o que te vale é que tens resistência de cavalo, senão ficas inaproveitável durante muito tempo. Foram seis meses de atestado e terei sido, por imposição minha, o primeiro docente da Universidade a descontar no ordenado por estar doente. Tinha estado no Diretivo e não queria sair do quadro estritamente legal.
Neste quadro, passei a ter medo de retomar o doutoramento não só porque já não teria o prazo de cinco anos como anteriormente, como sabia que uma derrapagem na resistência ao nível psíquico era agora mais provável do que anteriormente. E tinha mulher e filha, e tinha ainda a minha mãe para sustentar. Sentia que não podia correr riscos. Era uma contradição brutal. Tal como em 1975 com a Dra. Elsa Ferreira continuava a gostar do que fazia, mas sabia que assim punha em perigo a possibilidade de fazer o que fazia. E vivi constantemente nessa indecisão. Fui com dificuldade promovido a professor auxiliar convidado, e com dificuldades de passagem como sabes, mais tarde fui rejeitado na passagem a professor associado convidado. Nenhuma recriminação contra ninguém quanto a isso.
Não me doutorei, diria, pelas minhas circunstâncias, mais uma vez Marx, e estas circunstâncias nada terão a ver nem com a falta de capacidades intelectuais nem com a alienação no trabalho, a história acima mostra-o, têm a ver com a minha origem de classe, marcado por uma vida extremamente difícil e uma chegada tardia à Universidade, têm a ver com a minha situação de classe, a falta de meios financeiros disponíveis caso eu claudicasse e pela origem de classe eu não podia claudicar.
Na década de 90, num jantar em que estava o José Reis e mais gente, o João Cravinho insistia, tal como tu, que eu me devia doutorar e mais ainda: insistia que os meus trabalhos feitos, desde que ligados, davam uma tese muito boa. Ele estava disposto a trabalhar comigo para se efetuarem essas ligações. Agradeci e recusei. O problema não era esse, não era um problema de ligações de textos. Isso faria eu facilmente, mas uma tese assim corresponderia sobretudo à necessidade de subir na carreira e poderia facilmente reduzir-se a uma questão monetária; na época as questões monetárias eram-me relativamente irrelevantes. Curiosamente foi isso que tu percebeste quando me referiste uma dada comunidade religiosa que, embora a viver muito desligada da materialidade do mundo (e da sua desmonetização) vivia, no entanto, bem menos desligada dela que eu ! Mas o certo é que me habituei a viver sempre com o que tinha. Doutorar-me assim, não, não seria assim, a doutorar-me seria o desenvolvimento do projeto de tese em que eu pretendia ligar Ricardo, Marx, Sraffa e desembocava na teoria neo-ricardiana do comércio internacional e essa tese [1], essa estava fora de questão, exatamente pelas minhas circunstâncias.
Esta minha visão da desmonetização da vida foi igualmente bem captada por Soares da Fonseca e por um médico amigo, grande especialista em alergologia. O primeiro diz-me que um tipo com as minhas características só podia ser uma de duas coisas: ou muito rico ou pobre. Escolheste ser pobre e para nosso bem, foi a sua conclusão. O especialista em alergologia numa consulta à minha neta diz-lhe o seguinte: olha, é pena que o teu avô seja de Esquerda. Se fosse de Direita, vocês estariam na vida muito melhor. Depois, a minha neta perguntou-me o que é que ele queria dizer. Deixei-me rir e disse: disse-te que eu não tinha espírito de capitalista. Só isso.
Enfim, as minhas circunstâncias foram o que foram. Mas curiosamente há um momento crítico em que essas circunstâncias desapareceram, em que perdi o medo e em que podia mais facilmente entrar em situação de stress extremo do que a fazer o doutoramento. Na minha carta de despedida da minha Faculdade escrevi:
“E a um outro nível, e sem querer com isso fazer quaisquer comparações ou exclusões, um diferente tipo de inquietações com outros partilhei e, nesse sentido, devo aqui recordar um dos anos mais violentos da minha vida profissional, o ano em que a Faculdade esteve em risco de ser fechada, devo aqui recordar a extraordinária camaradagem que envolveu todo um Directivo que, sob a presidência serena, competente e muito eficaz do Professor José Veiga Torres, a um muito bom porto a Faculdade conseguiu acostar, afinal, este porto éramos todos nós colectivamente, descobrimo-lo mais tarde. Arte do Professor José Veiga!
Também a um outro nível devo recordar um outro ano muito difícil em que fiquei como presidente do Conselho Pedagógico, ano em que a Faculdade se repartiu por vários sítios, ano também em que este Conselho como um todo se defrontou com sérios problemas de ordem pedagógica, dada a dispersão espacial em que as aulas da FEUC funcionaram e, como se isto não chegasse, deparámo-nos ainda com o exemplo do que é não ser professor e que envolveu a disciplina de Contabilidade Geral. Essa mesma linha de disponibilidade para interrogar tudo o que estudava também a procurei sempre transmitir a todos aqueles estudantes que por todos nós passaram, de licenciaturas a mestrado. Disso se confirma também quando há dias a arrumar papéis do que haveria ou não de largar ao esquecimento, leio uma dedicatória de alguém que por esta casa passou e onde me agradecia, na sua tese de mestrado que eu não orientei, porque “siempre estuvo listo para resolver mis dudas y ayudarme a estudiar y a aprender, que me ensegno a romper a barreira del medo a no saber e me dio confianza em mi”. A querer vencer os cones de sombra da nossa ignorância foi assim que aprendi a ser estudante, foi assim que quis ser professor e foi assim que sempre ensinei, ou seja, a perder o medo de não se saber e só há uma forma séria de o perder, que é a de procurar saber.” Fim de citação [2].
Nesta última fase trabalhei bem mais e com muito mais tensão do que quando estava em Nice para doutoramento. Curiosamente desse trabalho, que eu saiba, não há nenhuma referência institucional. Um exemplo extremamente caricato desta falta de referências é apresentado em anexo a este texto.
Há ainda duas outras razões sobre as quais te poderás rir, mas eu não, que me condicionaram na ida para o doutoramento: temia a Sala dos Capelos e porquê? Temia-a pelo valor simbólico do que ela representava como expressão do saber acumulado de gerações, temia-a também por uma outra razão que te pode parecer estranha. Como sabes, tinha (não tenho agora) uma dicção complicada e só mais tarde corrigida por 4 pequenas intervenções cirúrgicas. Temia complicações a esse nível, que me desnorteasse com críticas que a esse respeito me fossem feitas. Considero-me um homem tímido, muito tímido mesmo, sobretudo quando falo público, o que evito tanto quanto o Diabo evita a cruz, mas não o sou em círculos restritos e isso deriva exatamente de durante décadas me debater com problemas de dicção. As marcas ficam: não há pior disco duro que o nosso cérebro, disse-me uma vez um amigo meu da maxilo-facial dos HUC, Carlos Alberto, hoje reformado. E o meu disco duro não se apagou.
Temia ainda o uso das fardas académicas, e só bem mais tarde com um discurso do José Veiga no doutoramento Honoris Causa de Aristides Pereira é que percebi a sua importância, desmontando-se a partir daí a minha alergia aos cerimoniais académicos.
Marx terá dito em Grundrisse (cito de memória): diz-me como comes e eu dir-te-ei de onde vens. Dou exemplo sobre esta afirmação de Marx: imagina que vou almoçar ao melhor restaurante de Coimbra. As entradas são do melhor que há e estão na mesa as diversas variedades de enchidos de porco de pata preta, paio do lombo, paio do cachaço, paia, paiola, presunto fino, admite que há também uma muito boa tábua de queijos, com queijo da serra São Gião, de Serpa, de Azeitão, queijo de dois anos dos Açores, e ainda há queijos estrangeiros como o Manchego ou Old Amsterdam Classic ou Vintage. Admite ainda que está na mesa uma tigela com azeitonas de boa qualidade. Qual é a primeira entrada que eu começo a comer? Simplesmente começo pelas azeitonas com pão e nem imaginas com que alegria. Porquê? Porque no meu imaginário está o pão e as azeitonas que as crianças do meu tempo comiam para encher o estômago. É simples, é o disco duro a trabalhar e a que velocidade!
Podemos pegar na mesma frase de Marx e colocar vestes em vez de comes e temos: diz-me como vestes e dir-te-ei de onde vens. E nunca fui capaz de vestir um fato! Dois exemplos:
- Do tempo de marçano o casal que me levava para casa para falarmos do livro lido decidiram oferecer-me um fato, novo em folha. Eu andava vestido como os outros, nem bem nem mal. Gostavam de me ver mais bem vestido. Falharam o alvo. Disse-lhes que o fato ficava melhor ao meu pai e foi este fato que levou para a campa.
- No final dos anos 90 comprei dois fatos na Carlo Visconti. O boss da fábrica engraçou comigo e fez-me o preço como se fosse para ele. Cerca de 30.000 escudos por fato. Eram de tecido Cerruti. Custavam nas boas lojas de Lisboa, do tipo Lourenço e Santos ou Pestana e Brito, 120.000 escudos. Experimentei-os em casa, senti-me mal dentro deles e dei-os. Ironicamente eu resumia a situação da seguinte forma: deem um fato velho ao Joaquim Feio que ele fica imediatamente novo, deem-me um fato novo que ele fica imediatamente velho. As marcas da origem de classe ganhas na adolescência eram aqui bem nítidas.
De novo, as circunstâncias de Marx e de Ortega y Gasset. Meu caro, não te esqueças que eu venho de muito longe até chegar aqui. Pode ser patético, mas é a realidade e esta realidade sentida posta noutros termos significa que, tomando como base o meu ponto de partida, socialmente no ponto mais baixo da escala do sucesso e o meu ponto de chegada, ser uma das figuras relevantes na construção daquilo que na década de 80-90 se considerou uma das melhores Faculdades de Economia do país (a FEUC de então), percorri muitos mais quilómetros de vida, de estudo e de reflexão, do que a maioria dos doutorados que por aí circulam.
Terá dito René Maheu nos anos 70, (cito de memória), na altura diretor geral da Unesco, que os sonhos são a almofada em que assenta a vida. Pela parte que me toca e desde a resposta que dei à Dra. Elsa Ferreira em 1974, que tive como lema, como aspiração, ser enquanto professor, fazer o melhor que me era possível fazer. Nisso, acredite-se ou não, sinto-me completamente realizado.
A terminar este já longo texto, veio a Coimbra o meu amigo de longa data, Carlos Gouveia Pinto. Este falou-me da entrevista dada por Daniel Traça no canal 3 a esse grande jornalista que é Vítor Gonçalves, um jornalista de referência, acrescente-se, dizendo-me que a deveria ver. Deu-me a síntese dessa entrevista e disse-me que muito do que Daniel Traça disse traduzia a prática do nosso grupo de trabalho no ISCEF enquanto estudantes, do 3º ao 5º ano que assenta num espécie de esquema de aprendizagem em T defendida por Daniel Traça, a formação de polímata, caracterizada por áreas de estudos centrais e por áreas de estudo transversais. Fui visionar a referida entrevista.
Gostei, da forma como defendeu o ensino em T, gostei que tenha referido que esse tipo de ensino exige muito tempo, muita dedicação e, acrescentaria eu, muito dinheiro também. Evidentemente, o meu T, igual na forma ao de Daniel Traça, na sua estrutura, os conteúdos, de polímata a ensinar nada terá a ver com o dele, nem nas faixas etárias em que se podem aplicar, nem nos conteúdos a aprender. Falar de Columbia, é falar de uma ultra-elite e ultra-seleccionada e não podemos confundir esta árvore com a imensidão de uma floresta, o ensino nacional de qualquer país. Nem podemos escamotear que não estamos genericamente a formar gente de qualidade: as exceções são exceções, não a regra. Além de que uma formação em T de qualidade exige tempo de formação longa, o que Bolonha simplesmente impede. Deixemo-nos de demagogia quanto à qualidade fornecida hoje aos nossos licenciados. Quanto ao método em abstrato, o T, se o meu amigo Gouveia Pinto tinha razão, na sua explicação sobre o que disse Daniel Traça, acho que o que Traça refere com o seu T terá ainda mais a ver com aquilo que fizemos ao longo de mais de duas décadas de ensino na FEUC em conjunto com dois colegas, Margarida Antunes e Luís Peres Lopes, do que com o que eu, o Gouveia Pinto e os restantes elementos do nosso grupo de trabalho (9 pessoas) fizemos no ISCEF entre 1971 e final de 1973.
Ainda como docentes, publicámos na revista Aba Larga um artigo sobre a nossa prática académica dos últimos anos, tomando como referência uma Iniciativa intitulada o Ciclo Integrado de Cinema, Debates e Colóquios na FEUC, para cuja realização tivemos o apoio financeiro da FCT, Caixa Geral dos Depósitos, Fundação Calouste Gulbenkian e Fundação Luso-Americana.
Nesse artigo dizia-se, e passo a citar:
“Hoje, pode dizer-se que o Ciclo Integrado de Cinema, Debates e Colóquios na FEUC é uma organização que tem como objectivo principal o envolvimento da comunidade estudantil, da comunidade universitária e da cidade de Coimbra em reflexões sobre temas essencialmente de ordem económica que têm marcado o ritmo, a intensidade e os acontecimentos da economia global. Em cada Ciclo, escolhe-se um tema genérico e a sua discussão é feita ao longo de várias sessões cada uma com um subtema específico e que envolvem colóquios ou conferências dirigidas ao público universitário em geral e projecção de filmes/documentários temáticos, seguida de debate, abertos também ao público da cidade.
Esta configuração é o resultado de um caminho já iniciado há mais de quinze anos e que tem como ponto de partida a disciplina de Economia Internacional, leccionada no curso de Economia da FEUC. É uma disciplina que exige um certo formalismo quer do ponto de vista analítico quer gráfico, exigente assim no plano lógico. Julgamos relevante por isto motivar o estudante para a compreensão e a aquisição dos conteúdos teóricos e suscitar o seu interesse pelas matérias a partir do conhecimento da realidade económica associada a esta disciplina. Simultaneamente, este tipo de exercício permite reflectir de modo crítico o conjunto dos teoremas que dão corpo teórico à disciplina, tornando estes em termos de raciocínio abstracto e em termos emocionais, menos distantes dos estudantes.
Para isto, começámos a introduzir no regime de avaliação contínua componentes que exigem a leitura e a análise de livros-ensaios sobre temas da realidade económica de hoje que está quase sempre para além de qualquer manual, e que julgamos necessários para a formação de base de um economista; exige-se ainda a transposição para a forma escrita do trabalho resultante. Com isto, procura-se também reforçar ou estimular no estudante o interesse pela leitura, pela análise do que se leu em confronto com a teoria e igualmente motivar para a escrita.
Por esta via, procura-se enfim aprofundar o que julgamos essencial na função da Universidade, que é fazer de cada estudante um cidadão capaz de reflectir, pensar criticamente, as questões do seu tempo, a sua sociedade, a sua economia. Aliás, função esta que a Universidade de Coimbra (UC) espelha claramente nos seus Estatutos, quando no artigo 2, intitulado “Missão”, no n.º 1, se pode ler: “A [UC] é uma instituição de criação, análise crítica, transmissão e difusão de cultura, de ciência e de tecnologia…”
Este tipo de método de avaliação contínua, mas simultaneamente uma metodologia de ensino, mantendo-se no tempo, exige que os livros seleccionados variem de ano para ano, o que nem sempre é fácil no quadro do mercado livreiro nacional. Por essa razão, e para preencher estas necessidades, muitos dos livros já utilizados foram publicados em Portugal e tornados acessíveis ao leitor em português sobre proposta nossa, sendo de destacar obras como O Debate Tabu, de Jean-Paul Fitoussi, O Futuro do Sucesso, de Robert Reich, A Armadilha da Globalização, de Hans Martin e Harald Schumann, Globalização: A Grande Desilusão, Os Loucos Anos 90 e Tornar Eficaz a Globalização, os três de Joseph Stiglitz ou A Ilusão Neoliberal de René Passet e outros mais.
Este objectivo enquadra-se nitidamente na “Missão” que a UC assumiu nos seus Estatutos, quando no artigo 2.º, se escreve, no n.º 1 (na sequência do texto anteriormente citado), “A [UC] é uma instituição… que, através da investigação, do ensino e da prestação de serviços à comunidade, contribui para o desenvolvimento económico e social, … para a promoção… da cidadania esclarecida e responsável e para a consolidação da soberania assente no conhecimento” e, no n.º 2, “A Universidade tem o dever de contribuir para: a) A compreensão pública das humanidades, das artes, da ciência e da tecnologia, promovendo e organizando acções de apoio à difusão da cultura humanística, artística, científica e tecnológica, disponibilizando os recursos necessários a esses fins…” Fim de citação
Considero-me explicado quanto às minhas circunstâncias e ao peso que elas tiveram na minha decisão de não doutoramento, quanto ao tempo e à dedicação de que fala Traça, nada disso me faltou, foi nisso que consumi grande parte da minha vida ativa, portanto, a expressar o que chamo o espírito de missão. Confortado com uma boa almofada de apoio, como diz Maheu, dir-te-ei, meu amigo, que não me arrependo em nada das opções profissionais que fiz. De resto, escrevi-o há já muito tempo e mantenho-o. Já agora posso dizer-te com uma forte sensação de orgulho, que se trata de missão cumprida e sem equivalente na Faculdade que a viu realizada. Custou tempo, muito, custou dedicação, muita, mas garanto-te que o prémio foi para mim compensador.
Ora, ver essa metodologia defendida agora por um neoliberal da Universidade Nova enche-me de satisfação, mas não esqueçamos que a substância no T não é a mesma, nem os tempos em que o T deve ser aplicado; só há projetos estudantis válidos se houver uma boa formação aprendida e apreendida, endogeneizada, só há projetos estudantis válidos se realizados na extensão da formação e como parte integrante dela. Defender e fazer o contrário é uma pura fraude intelectual e é esta fraude que tem sido praticada pelos nossos neoliberais, sejam eles de esquerda ou de direita, se bem que a expressão neoliberais de esquerda seja uma contradição nos termos: os ditos neoliberais que a assumam.
A tese de Daniel Traça de projetos, projetos, projetos, só é válida na base do que acabo de enumerar, de conhecimentos teóricos sérios e de tempo de maturação intelectual adequada. Sem isso, é, do meu ponto de vista, uma pura fraude. Veja-se o exemplo da Nova FEUC, numa reforma criada e tutelada por Álvaro Garrido, Tiago Sequeira, Pedro Godinho e com apoio dos restantes doutorados onde, por exemplo, uma disciplina obrigatória dita Projeto Integrador, integrador dos conhecimentos que não se leccionam, substitui e significa que duas outras disciplinas de matérias obrigatórias deixam de ser ensinadas, ou ainda tão grave quanto isto, onde o ensino de Matemática é reduzido a metade do que antes se fazia. Assim, deve-se falar em geração mais qualificada de sempre ou antes, em geração apenas mais diplomada?
Responsabilidades desta dinâmica de degradação das capacidades cognitivas da nossa juventude, quem as assume? Não é Daniel Traça certamente, para quem os nossos licenciados são de qualidade, embora com um ensino afunilado. Desafunilando-o, então tudo bem! Os pontos de interesse da tese de Daniel Traça, e tem-nos, acabam assim por se transformarem em poeira para os olhos [3] como se tem estado a ver, mas não brinquemos com o ensino, não brinquemos com o futuro das novas gerações. Estas não nos perdoarão por termos feito delas um conjunto de cretinos digitais e de termos feito das universidades parques de estacionamento para aceder à precariedade que o mercado lhes tem para oferecer.
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Anexo
Sobre os ditos ou não ditos
Há uma pequena história curiosa quanto ao silêncio sobre coisas que são feitas. No início da vaga de computadores havia apenas 1 computador Philips na FEUC. Entretanto vingava a vaga dos Apples. Entrei nessa vaga e queria comprar um PC. Um administrador da Bull arranjava-me um Goupil, um computador francês de referência situado na gama média alta, a um preço especial, o preço de importador. Não percebia nada de computadores e fiquei hesitante entre Goupil e IBM. Haveria de encontrar quem me esclarecesse sobre qual seria a melhor opção para comprar. Um dia, estava eu na Avenida de Roma, no cruzamento com a Avenida da Igreja, em Lisboa, ao ver à minha frente o edifício da IBM interroguei-me se não valeria a pena deslocar-me ao edifício e informar-me. Se o pensei, melhor o fiz. Dirigi-me ao edifício da IBM, devo ter dito que era professor universitário, o que sei é que fui levado ao gabinete de um dos diretores de Departamento, de nome José de Sousa, se não estou em erro. Foi conversa de uma tarde, entre um nabo em informática que sou eu e um dos especialistas da mais importante empresa mundial em informática. Falámos de muita coisa e, estou a puxar pela memória, falámos da necessidade de desenvolver a utilização da informática, dos perigos da sua utilização intensiva pela parte dos estudantes, do ensino universitário em Portugal. O resultado final foi o seguinte: ficámos a dar-nos bem e mais ainda:
– foi-me disponibilizado um computador por empréstimo enquanto não adquiria o meu. Creio que foi um IBM 386 ou talvez um 486. Mais tarde adquiri um tower PS2, um computador espantoso para a época. Ambos os computadores foram comprados na Consiste e vendidos pelo António Maranha. A urgência da compra foi para mim muito importante para impedir que se entrasse em insinuações. E o computador emprestado foi entregue ao seu proprietário, a IBM.
-foi conseguido que a IBM equipasse gratuitamente a FEUC com uma sala de computadores, um assunto que foi depois tratado com o Pedro Ferreira e com a Rosário Pericão. Assim foi equipada uma sala do piso zero com computadores IBM 386SX.
Estava na direção da FEUC o professor Romero de Magalhães. Foi assinado o protocolo na sala dos computadores, na presença do Pedro Ferreira, do Eng. José de Sousa da IBM e do Romero de Magalhães. Necessariamente estive presente, fora da sala, o que é normal, mas o que não foi nada normal foi o Diretor da FEUC, ao entrar na sala, dizer-me com ar carrancudo que tinha a impressão de que eu me andava a meter onde não era chamado. Sorri-lhe na cara, talvez até com um ar de alegria e pensei: este é dos dias em que o estimado Professor Romero passa todas as marcas de boa educação. Sorri-lhe na cara, tão caricata era a afirmação, e creio que isso ainda o enfureceu mais. Esperei fora da sala que a sessão terminasse para cumprimentar o representante da IBM e fui-me embora depois.
O assunto morreu ali e continuámos a respeitarmo-nos. Quando foi a votação da minha passagem a professor auxiliar votou não e disse-mo, por isso o sei. Porquê? Porque achava que eu deveria ser penalizado por um período de mais dois anos, porque era imperativo para a Faculdade que eu me doutorasse, foi a explicação dada e por mim aceite. E para lá daquele incidente de extrema má-educação, respeitámo-nos sempre. Não é por acaso que, quando Paul Samuelson veio à Nova Paul Samuelson, fui eu o seu representante junto de Alfredo de Sousa. [Como nota à margem, os estudantes da Nova estavam em greve de protesto contra os elevados níveis de reprovação dizendo mais ou menos isto: que não queriam ser a melhor Faculdade do país pela elevada taxa de chumbos]. Dada a forma habitual de me apresentar, casual, de calça de ganga e pólo, com pasta a tiracolo, fui considerado jornalista e rodeado pelos estudantes até que consegui dizer que era professor na FEUC e estava em representação do diretor da minha Faculdade. Ouvi-os e depois da conferência tornei-me porta-voz deles e fui falar com o Manuel Sebastião, meu antigo colega do ISCEF!
Houve alguma nota de reconhecimento do meu papel neste processo na FEUC? Que eu saiba nem uma linha. Poderia aparecer uma ou outra linha no livro luxuoso que a Nova FEUC publicou nos seus 50 anos de vida. Poderia? Bom, o que apareceu foi o seguinte na página 43:
“No âmbito do programa de desenvolvimento do Centro Informático que foi desenhado, a FEUC comprou material Apple e a IBM ofereceu material para partilha de impressoras com a possibilidade de uma das máquinas mais potentes funcionar como servidor de forma a não sobrecarregar os outros computadores” Fim de citação.
Tudo dito ou nada dito?
Notas
[1] Ainda hoje defendo que para ler o tomo VI do livro III de O Capital se deve ler primeiro o tomo 1 do livro I desta obra, depois Sraffa e só depois é que se deve ler o tomo VI do livro III de O Capital.
[2] Talvez não te lembres, mas nessa altura e como meu amigo perguntaste-me se eu tinha consciência de que estava a levantar contra mim as forças obscuras da cidade, devido à questão de Contabilidade Geral. Respondi-te mais ou menos isto: tenho consciência disso, mas também tenho consciência de quais são as minhas obrigações como Presidente do Conselho Pedagógico e destas não estou disponível a abdicar.
[3] Isto é muito simples de explicar. Nos dias de hoje, os métodos por nós aplicados na FEUC não seriam exequíveis e por duas razões: 1) os conhecimentos com que os alunos chegam ao terceiro ano hoje não têm nada ver com os conhecimentos com que chegavam ao mesmo ano naquela altura: 2) o nível de maturidade intelectual dos nossos estudantes de hoje, também por isso mesmo, mas não só, é claramente inferior ao dos estudantes de então. Repetir hoje estes métodos seria pura e simplesmente estar a atirar poeira para os olhos.



Que grande história de vida, muito bem contada, por um grande homem. Que não precisa para nada do senhor doutor. A minha vénia. Jorge Sales Golias