Espuma dos dias — “25 de novembro de 2024 – Nuvens negras sobre a Democracia”. Por Júlio Marques Mota

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25 de novembro de 2024 – Nuvens negras sobre a Democracia

 

 Por Júlio Marques Mota

Coimbra, 27 de Novembro de 2024

 

Faz hoje 49 anos que iniciei aulas na Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra. Por falta de instalações próprias, estas aulas eram lecionadas na Faculdade de Direito, possivelmente em salas em que Salazar terá lecionado. Ironia do destino, iniciava aí, nestas salas outrora frequentadas possivelmente por alguns mestres teóricos do sistema fascista que vigorou em Portugal até Abril de portas mil de 1974, a lecionação de uma visão crítica da economia, matéria completamente ignorada pela quase totalidade dos estudantes de então. Tratava-se sobretudo de ensinar a teoria neoclássica, hoje dita neoliberal, com alguma profundidade para que a crítica que depois se fazia a esta teoria económica tivesse algum sentido, e adicionalmente também se marcavam as diferenças com a teoria marxista ortodoxa. Abria-se assim caminho a uma lógica de ensino em economia que se concluía com a Análise Comparada das Modernas Teorias Económicas, de que era responsável o saudoso Joaquim Feio.

Era um espírito de juventude que se transpirava naquela altura e com o plano de curso que se seguiu queria-se espelhar isso mesmo, procurando-se “produzir” quadros capazes de se inserirem com facilidade no universo das pequenas e médias empresas predominantes da região, injetando-lhes um ar de modernidade, não deixando de criar vias de acesso a voos mais altos, como se mostrou com a trajetória de muitos dos nossos estudantes. Pensava-se numa Faculdade de futuro e num país com futuro imediato, o país que Abril pariu com um golpe militar e que a população rapidamente transformou na revolução. de abril.

Uma revolução faz-se de cravos e também de espinhos, e os seus caminhos iniciais são sempre percorridos em ziguezague, em coisas bem feitas, em coisas mal conduzidas. De momento, por força da ânsia de progresso os espinhos dominaram sobre os cravos. Os espinhos eram expressos pelo fraco desenvolvimento das forças produtivas, por um lado, e pela raiva assassina da extrema-direita cujo poder não tinha sido destruído – o verão quente ilustra-o -, e sobrepuseram-se aos cravos Quis-se andar depressa demais numas coisas, na evolução social e para lá da própria capacidade produtiva, foi-se incapaz noutras como a contenção tanto da extrema-esquerda, cuja progressão esteve aliada ao fraco desenvolvimento das forças produtivas, como da extrema-direita responsável por alguns dos disfuncionamentos da sociedade portuguesa de então. Não se foi capaz e pelos seus sucessivos efeitos de arrasto e por compromissos espúrios seguintes abriu-se o campo ao 25 de novembro com o Jaime Neves, um homem claramente de direita sem qualquer pensamento político, disposto a tudo, a limpar tudo, e as primeiras nuvens negras terão aparecido no céu do nosso imaginário.

Ontem, 25 de novembro, 49 depois, era este assassino fascista que era lembrado na Assembleia de todos nós, lembrado e elogiado pelos farsantes deste Novembro e adversários figadais do 25 de abril, acompanhados de um ou outro não farsante que não percebeu a dinâmica da direita reacionária e das suas intenções obscuras. Refiro-me, entre outros possíveis, a Eanes que se quer agora a bem com Deus e com o Diabo, de quem sempre esperei que não ajudasse à farsa com a sua presença. Os defensores do 25 de Abril estiveram presentes para recusar firmemente na Assembleia a manobra que estava a ser posta em prática. E fica o sentimento de que Abril começa a estar desprotegido.

Olhemos então para alguns excertos dos discursos dos eleitos que representam abril. Honra seja, pois, feita aos discursos de Pedro Delgado Alves, Joana Mortágua, Filipa Pinto e Inês Sousa Real, nas comemorações do 25 de Novembro impostas pela direita e extrema-direita. Destes eleitos apresentamos alguns excertos, em que os sublinhados são nossos:

Referimos:

– De Inês Sousa Real

Inês Sousa Real recordou que, há precisamente 49 anos, Portugal estava “entrincheirado, completamente dividido ao meio, com dois lados que pareciam inconciliáveis e à beira de uma guerra civil”. Hoje, continuou, “olhamos para esta sala e vemos novamente trincheiras erguidas”. Trincheiras entre os que dizem que não traem Abril e os que usam Novembro para fazer contas com Abril. Trincheiras fúteis que não dignificam a memória dos Capitães de Abril”, afirmou.

“Como se à data de hoje não houvesse ainda revoluções por cumprir”

– De Filipa Pinto

 “é com muita tristeza que hoje vemos a usurpação e o aproveitamento desta data por esta direita do século XXI”.

– De Pedro Delgado Alves

Hoje, a melhor forma de homenagear esta capacidade de ultrapassar as divisões é a de não reabrir as fraturas que sabiamente estas gerações fundadoras do regime democrático souberam superar, recusando revisionismos, vontades revanchistas ou provocações“, apelou.

– De Joana Mortágua

a celebração do 25 de Novembro é a tentativa de esvaziar o conteúdo revolucionário popular do 25 de Abril”.

“Esta sessão e as que realizarem nos próximos dois ou três anos, serão lembradas no futuro como um momento folclórico de um tempo bizarro. Em que o PSD e a extrema-direita se alinharam no revisionismo histórico, num exercício espúrio e sem duração da memória do país” acrescentou para de seguida garantir que o Bloco de Esquerda estará presente “quando chegar a altura de voltar a chamar a nossa democracia pelo seu único nome. Abril.

 

Aqui saliento o último sublinhado destes excertos. Na minha opinião, tudo isto traduz que, por força da história, a força das massas populares, outro abril irá renascer depois da morte deste que o 25 de novembro de ontem já anuncia.

Desse passado longínquo que a direita quer agora renovar, embora por forma diferente, dessa repressão evidente ou larvar, retenho algumas lembranças pessoais. São lembranças de um tempo que não se quer mais.:

  1. Nos tempos de estudo na cave do Nova Iorque sou um dia abordado por um elemento do grupo de estudantes que frequentava a cave, para o ajudar complementarmente nas matérias que teria de estudar para um concurso. Creio, já não me lembro com rigor, que se tratava de matéria ligada às disciplinas de português e de matemática. Esse estudante, trabalhava no Hospital de Santa Maria, no registo de entrada nas urgências do Hospital. Arranjou-se um horário para isso, as explicações gratuitas deram-se. O sujeito foi ao concurso, foi admitido e diz-me mais ou menos isto: temos que festejar a minha passagem no concurso.

Fomos jantar à Feira Popular. Depois do jantar perguntei-lhe: já gora concorreste para que serviço público? A resposta deixou-me atónito: concorri para a PIDE. Hoje não sei descrever o nojo que isto me deu. Disfarcei, tinha pressa, disse-lhe adeus e fui-me embora. Isto foi por volta de 1962-1963. Em 1972-1973, estou no largo do Rato numa paragem de autocarro, perto da Papelaria Fernandes. Pára um autocarro de Carris, de dois andares. Dele sai, não sai, chega à porta um passageiro e diz-me mais ou menos isto: sei que andas metido em movimentos do contra. Se lá fores parar, não penses que te vou ajudar! O autocarro partiu e este passageiro continuou viagem. Este era o PIDE a quem eu tinha dado explicações!

 

  1. Nesta época, década de sessenta, já não sei precisar melhor, deu-se a inauguração do edifício da reitoria da Universidade Clássica. A inauguração foi de pompa e circunstância com a presença do corpo diplomático e dos altos dignitários do Governo português. Os estudantes tinham decidido um boicote à inauguração do edifício. Medicina não honrou o seu compromisso e o Presidente da Associação da Faculdade de Medicina aceitou falar na inauguração. As restantes associações mobilizaram os estudantes para uma manifestação em frente ao edifício. Fizeram-na e eu estive presente, mas não era estudante universitário, era operário, o que, do ponto de vista político, tornava tudo bem diferente: aplica-se aqui a já famosa citação de Orwell: somos todos iguais, mas uns mais do que os outros. Os outros eram mais iguais que eu. Quando se quis desmobilizar estamos cercados pela PIDE, exigindo a identificação de cada um dos manifestantes.

Nessa noite fui ao café Tatu e ninguém me reconheceu. Para todos os que eram meus amigos de ontem, eu era hoje um desconhecido e eu conhecia um a um dos que não me conheciam agora. Que queria eu? Queria uma coisa muito simples: queria saber como me comportar na PIDE. Teria entre 18 a 20 anos. Desloco-me ao café Nova Iorque e aí verifica-se a mesma coisa. Ninguém me reconhece.

Saio do café. Cá fora a noite era escura, mas por dentro de mim era bem mais escura. Vou para casa, percorro a que é hoje a Avenida das Forças Armadas e sigo para a rua Portugal Durão onde vivia. Dormi, não dormi, não me lembro. Sabia que no dia seguinte seria preso e assim foi.

Na tarde do dia seguinte dois Pides apresentam-se na fábrica Monsanto. O porteiro, o velho senhor Sepúlveda, vai-me chamar às prensas de borracha cheio de medo e diz-me; vêm aí dois senhores que são da inspeção da Caixa de Previdência. Dizes que só trabalhas 3 dias por semana, não te esqueças. Esteja descansado, não são da Caixa, são da PIDE, respondi ao velhote meu amigo e que estava em pânico. Entretanto, os senhores da Caixa de Previdência tinham subido as escadas de acesso ao primeiro andar e estavam já ao pé de mim. Terá circulado algum rumor no interior da fábrica porque, entretanto, chegou o meu patrão, Samuel Ramiro Sequeira. Depois de se terem identificado e dito ao que vinham, o meu patrão diz-lhes com um tom de extremamente zangado: estão-me a levar o meu melhor empregado. Podia ser verdade, podia ser mentira, é o que foi dito.

Estou sujo, vou tomar banho e mudar de roupa. Sou acompanhado pelos senhores da Caixa de Previdência ao balneário. O perigoso comunista que eu seria poderia escapar por alguma das outras saídas da fábrica e estas eram duas, terão eles pensado.

Depois abandonámos a fábrica, fomos de autocarro. Fiz-me o mais tolo que me era possível, a minha saída da situação seria fazer-me passar por voyeur a ver os estudantes a manifestarem-se, eu que era um simples operário. Da viagem até à Rua Maria António Cardoso lembro-me ainda de uma estranha pergunta. Vejo um carro com matrícula de diplomata, matrícula a vermelho, e pergunto com um ar de incrédulo se aquele carro não teria sido um carro roubado no estrangeiro uma vez que a matrícula dele não era como as dos nossos carros. A pergunta era descabida, os tipos ficaram meio desnorteados com a pergunta e pacientemente explicaram-me, como se eu fosse um tolo.

Chegados à Pide, sou colocado numa sala de espera. Esta estava cheia de estudantes e muitos deles eram estudantes que na noite anterior estavam no café Tatu ou no Nova Iorque, e o comportamento aqui foi o mesmo que se viu na noite anterior. Estranhamente ninguém conhecia ninguém. O medo estava instalado, este constituía um verdadeiro muro entre uns e outros. No fundo, cada um de nós não falava com o outro porque todos os mecanismos de confiança tinham-se esfumado: haveria sempre o perigo do outro com quem se falava ser um perigoso comunista e faria aos olhos da PIDE com que cada um de nós o fosse também. A grande arma do fascismo era isso mesmo: a criação de muros de isolamento entre as pessoas, era esmagar-lhes o sentido de fraternidade, de sociedade: cada cidadão estava entregue a si próprio, a desconfiar do seu vizinho ou amigo, se queria salvar a pele. Impressionante. Saí na manhã do dia seguinte; fui considerado um inocente voyeurista. Para susto chegou. Mas hoje reconheço que este medo seria irracional, porque não havia nenhuma ligação partidária, mas havia sempre a hipótese da irracionalidade repressiva do outro lado.

 

  1. Cerca de 3 a 4 anos depois, comigo já a viver culturalmente na Universidade, e num contexto bem diferente deste, mas que seria longo aqui explicar, recebo uma noite um telefonema por volta das 11 horas e meia-noite em que me diziam; se continuas assim vai-te acontecer o mesmo que ao tipo de Belas [1].

Vivia para os lados de Santa Marta, em Lisboa, num quarto alugado e muito pouca gente teria o meu número de telefone e os que o tinham, tinham tanta confiança em mim como eu neles. Portanto, não pertencendo eu a nenhum partido político, a nenhum grupo político enquanto tal, este telefonema não tinha qualquer sentido, fizesse o que fizesse e a relação com Belas era totalmente absurda, sem qualquer sentido. Logo, este telefonema não poderia ter partido da esquerda, uma vez que esta não vive de provocações. Poderia apenas ter partido da extrema-esquerda ou da extrema-direita. Da extrema-esquerda também não porque esta tinha mais com que se bater, estava a bater-se contra o seu inimigo figadal, o Partido Comunista, a que chamava o representante do social-fascismo além de que eu no quadro da esquerda estudantil nada representava. Restava a hipótese da extrema-direita., porque, por um lado seria fácil, pelas vias oficiais do fascismo, obter o meu número de telefone e porque a provocação é o seu forte [2]. Portanto, aqui só se poderia tratar de pura provocação. De qualquer das formas de momento fiquei então com medo e não raciocinei assim. Só vários dias depois o fiz, só dias depois racionalizei a situação. Telefono a um amigo meu, na época o meu melhor amigo, e conto-lhe a história. Encontramo-nos depois e a comentarmos a situação diz-me ele: um tipo com a tua formação política e a tua inteligência só pode ser uma de duas coisas: ou um alto-funcionário do PCP ou alto funcionário da PIDE. Rejeito uma coisa e outra, portanto não te quero ver mais.

Respeitei rigorosamente a sua decisão e nunca mais o vi. Hoje, ao reler estas linhas espero que fique claro que não há nenhum ressentimento com a sua decisão. Tratou-se de tomar como hipótese certa que eu era uma das duas coisas referidas, quando não era nenhuma delas. A partir daqui, a partir da hipótese incorreta tira a conclusão que a esta hipótese é a mais adequada: consequentemente toma a posição errada resultante da hipótese errada.

Agora que escrevo isto, repare-se que encontramos aqui o mesmo comportamento que na véspera da minha prisão e da minha permanência na Rua António Maria Cardoso: os muros de isolamento entre os sujeitos criados pelo medo. Aqui era uma profunda amizade que se estiolava sob o peso de chumbo desses dias de chumbo. Estiolada a confiança, não há amizade que resista. A nossa morreu ali. Éramos jovens, eu de 23-24 anos, ele de 18-19. Todos temos direito ao medo. Ele teve medo e sob a pressão deste medo decidiu. Penso, porém, que decidiu precipitadamente. Eu também tive medo, mas depois de racionalizada a situação, esse medo passou, passou quando percebi que nada daquilo tinha sentido.

O meu amigo decidiu de forma errada, como também se prova com a minha história de antes e de depois. Nem um alto quadro da PIDE alguma vez se sujeitaria ao que eu vivi para chegar ali, nem um alto quadro do PC, mesmo que aceitasse passar o que passei em nome da sua Causa, nunca teria depois o trajeto que eu tive, porque não adequado a um qualquer quadro do partido. Para além do mais, o PC como historicamente se prova não brinca aos quadros superiores. Estes têm de ter uma formação e uma sólida experiência no terreno que eu não poderia ter, pela idade e pela vida que tinha tido, e além disso, era preciso ter uma maturidade que eu também não podia ter. Numa análise mais a frio, uma análise situada no plano lógico, diria que eu não poderia ser nem uma coisa nem outra, não havia pressupostos para nenhuma das duas hipóteses que o meu amigo levantava relativamente a mim. Eu só poderia ser considerado como era: um estudante que com alguma tenacidade estava a querer vencer a barreira da ignorância que a sua (minha) situação económica e social impunha. Nada mais que isso e isso era-me devido.

 

Sabemos com Régis Debray que não há texto sem contexto. Naquele tempo, o contexto, este é a minha biografia, deu o texto interpretativo dessa biografia, e a interpretação feita sob a pressão do império do medo foi: ou eu era um alto quadro do PC ou um alto quadro da PIDE. Não foi considerada nenhuma outra alternativa. e daí o corte de amizade profunda que nos unia. Décadas depois, o mesmo contexto, a minha biografia, em democracia deu origem a um outro texto. Hoje, sobre a mesma pessoa que sou eu, eu represento com a minha história de mais de 70 anos de vida, o contexto na lógica de Debray. Quanto ao texto que se pode fazer desse contexto diz-nos o meu colega Soares da Fonseca que um tipo como eu só pode ser uma de duas coisas, ou muito rico ou pobre. E para benefício de todos nós eu teria escolhido ser pobre! Ou ainda como disse o médico alergologista à minha neta: o teu avô é de esquerda, mas se fosse de direi ta estariam todos muito melhor.

Um longo arco de tempo passou e posso considerar que houve uma firme continuidade na minha maneira de ser: passo do menino da primária que protesta junto do ministro Pires de Lima porque queria um ensino justo num país justo ao  menino pobre que abandona Deus [3] por volta dos 16 anos por não acreditar na ideia de Deus ser justo face à pobreza que o meu livro de fiados enquanto marçano evidenciava, passo do jovem que escreve  uma carta aberta à Universidade que publiquei por volta de 1965-1967 contra a política universitária seguida, até à carta aberta endereçada ao Diretor da FEUC escrita em 2023. Falta de continuidade na minha forma de ser é coisa de que não me podem, pois, acusar. A discrepância dos dois textos de tempos diferentes para o mesmo contexto, a minha biografia, só se pode explicar pelo medo que leva o meu amigo à absurda posição que assumiu, como se alguma vez  alguém que passou o que eu passei pudesse  ser um alto quadro da PIDE ou alternativamente como é que alguém que estava apenas a dar os primeiros passos no marxismo, poderia  ser um alto quadro do PC. Impossível uma ou outra coisa. No entanto este meu amigo era alguém extremamente inteligente, o seu trajeto posterior prova-o, e era igualmente alguém extremamente honesto. O império do medo distorceu o seu quadro de raciocínio e tomou uma decisão errada. Custou-me imenso, mas aceitei-a, e definitivamente.

Estas são vivências pessoais do tempo do fascismo, são vivências que a memória (o meu disco duro) mantém como dificilmente apagáveis, e refletem um tempo que não queremos mais. Os ventos que agora sopram vão em sentido contrário a este meu desejo, é o que nos dizem os discursos de 25 de novembro, mas a força da história é o que é: as condições de classe de hoje criarão a consciência de amanhã, que criará outras condições de classe que criarão outra consciência de classe. É assim a dinâmica social. Relembremos a tese nº 3 sobre Feuerbach :

A doutrina materialista de que os seres humanos são produtos das circunstâncias e da educação, [de que] seres humanos transformados são, portanto, produtos de outras circunstâncias e de uma educação mudada, esquece que as circunstâncias são transformadas precisamente pelos seres humanos e que o educador tem ele próprio de ser educado.

O que se passou agora com este 25 de Novembro diz-nos que os tambores de outrora já foram consertados e já se ouvem ao longe e os sinais disso mesmo já se ouviram na Casa de todos nós, a Assembleia da República. Que fizemos nós para chegarmos a esta situação? Não sei, mas a pergunta sugere que olhemos para trás e, sobretudo, para o século passado, um século de revoluções falhados se nos queremos encontrar no futuro sem os erros do passado. Relembro agora um dos autores emblemáticos do século XX Jorge Semprun, pela mão de Chris Maisano. De Semprun li A grande Viagem, A segunda morte de Ramon Mercader, e de filmes com guião de Semprun vi os filmes de Costas Gravas, Z e A confissão, enquanto de Resnais vi A guerra acabou.

 Em torno de Semprun diz-nos Chris Maisano:

“O século XX foi uma época de revoluções falhadas e de utopias perdidas, de traumas históricos a uma escala que desafia a própria repressão. Não podemos simplesmente esquecê-lo e seguir em frente. A experiência deve ser recordada e trabalhada se queremos fazer novos progressos e evitar erros previsíveis. O historiador socialista Enzo Traverso tenta definir os termos de tal exercício no seu estimulante livro Left-Wing Melancholia: Marxism, History and Memory. O que distingue o presente dos últimos dois séculos, observa Traverso, é que se trata de “um tempo moldado por um eclipse geral de utopias”. Defende o desenvolvimento de um marxismo melancólico que visa “repensar o socialismo numa época em que a memória está perdida, escondida e esquecida e precisa de ser resgatada”. Não significa, insiste, “nostalgia pelo socialismo real e outras formas destruídas de estalinismo”, mas antes uma “fidelidade às promessas emancipatórias da revolução, não às suas consequências”. Traverso investiga esta possibilidade em grande parte através da consideração da arte, da literatura e do cinema de esquerda, pelo que é surpreendente que o seu livro não inclua uma única menção à obra de Semprún, que está saturada destes temas.

Talvez Semprún não tenha sido considerado porque não oferece a possibilidade de escolher tão facilmente entre o sonho e o pesadelo. “Não existe memória inocente”, recorda-nos em What a Beautiful Sunday! Isto é especialmente verdade tendo em conta o que foi feito em nome do socialismo, que apesar de tudo é ainda o nome do nosso desejo. Irving Howe afirmou, em tempos, que “muito do que precisamos de aprender com os movimentos do passado é como evitar a repetição dos seus erros. E não reconhecer a magnitude desses erros seria uma forma de desrespeito.” Todos os que se situam à esquerda no século XX, desde socialistas democráticos como Howe e Harrington a comunistas como Semprún, cometeram erros graves cujas ramificações ainda hoje se fazem sentir. Traverso tem razão ao insistir que o compromisso político da esquerda no presente implica uma fidelidade às promessas emancipatórias do passado. Mas as catástrofes também fazem parte da nossa história e temos a responsabilidade de as admitir e de as analisar. Porque é que alguém nos deveria confiar o poder se não for assim?

As comemorações do 25 de novembro e por todos aqueles que o quiseram branquear teriam como objetivo imediato ou próximo matar pela segunda vez os comunistas. Deixo aqui o testemunho de Semprun, de respeito por todos aqueles que tudo sacrificaram em nome de um ideal que tem como nome Liberdade, liberdade para eles e para todos nós, pela mão de Chris Maisano quando escreveu:

[Semprun] ainda manifestou lealdade aos “comunistas de carne e osso” que trabalharam, muitas vezes na obscuridade e com grandes despesas pessoais, para mudar o seu país: “Lembrar-te-ás sempre da fraternidade comunista. Lembrar-te-ás dos estranhos que vos abriram a porta e vos olharam fixamente como se fosses um estranho E tu deste-lhes a palavra-passe e eles abriram-te as portas e entraste na casa deles, na vida deles e trouxeste-lhes o risco da luta política. Ou talvez o risco da prisão. Talvez te recordes dos militantes desconhecidos que enquanto comunistas encarnaram a liberdade .”

Esta posição é, do meu ponto de vista, extensível a todos os comunistas portugueses que ao longo de décadas, trabalhando à luz do dia ou fazendo parte do exército de sombras, numa clandestinidade sempre difícil, tudo sacrificaram em nome de um país que haveríamos de ter e que a direita com esta comemoração do 25 de novembro nos assinala que tudo fará para o impedir. É isso que a direita queria realçar com esta comemoração.

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Notas

[1] Nota de editor: Referência muito provável ao conhecido como “crime de Belas”, em que Francisco Rodrigues, Ruy d’Espiney e João Pulido Valente, já então dissidentes do PCP, executaram a tiro numa mata em Belas, na madrugada de 26 de novembro de 1965, um informador da PIDE, Mário Mateus. Mário Mateus, sapateiro em Sines, havia aderido ao PCP e posteriormente aceitou também integrar a Frente de Ação Popular criada em 1964 em ruptura com o PCP. Mateus passava regularmente informação à PIDE. Para mais pormenores ver aqui.

[2] Com este texto já escrito e com uma primeira revisão feita, hoje, 27 de novembro veio-me à memória uma associação inacreditável. De três esbirros que conhecia da Faculdade de Ciências, cruzei-me há já uns dez anos talvez, num comboio Alfa no sentido Porto Lisboa, com um deles, o menos agressivo e menos cerebral dos três, creio que de nome R.S. Reconhece-me, cumprimenta-me e fala-se de banalidades. Nunca mais liguei ao assunto. Hoje, interroguei-me sobre a razão de ser do tão elevado nível de emoção com que escrevi este texto. E foi tão grande esta emoção que me fez lembrar a voz desse esbirro ouvida na Faculdade de Ciências, no telefonema daquela noite e na carruagem do comboio Alfa, com a diferença de haver agora menos agudos. Aquela voz era em termos de timbre praticamente semelhante àquela que ouvi naquela noite, até na farfalheira da garganta! E sem que eu alguma fosse capaz de imaginar uma tal relação, ela tornou-se-me naquele momento evidente e senti fechar-se assim o círculo desta história. Simplesmente inacreditável. António Damásio tem razão quanto à importância das emoções na formação dos nossos quadros mentais.

[3] Aprendi com o marxista Henri Lefebvre: esqueça-se Deus, mas nunca a mensagem de Cristo, aprendida na infância e sempre sentida a partir daí. Tratou-se de uma mensagem que passou a fazer parte do meu ADN ao longo da vida.

 

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