ADÃO CRUZ – PROBLEMAS ÉTICOS LIGADOS À POBREZA E À PROSPERIDADE ( II )

A globalização é o cenário do desenvolvimento desigual. Problemática e contraditória, dissolve espaços e tempos e impõe padrões e valores profundamente controversos. Centrada numa competição onde só intervêm os grandes grupos económicos, com desmesurado poder de controlo do capital e mercados, sempre envolveu grandes riscos e ameaças, não só para os trabalhadores, mas para a humanidade em geral. Reduzindo o trabalho humano a uma mercadoria, subordina-o à escala global. Privando os empregados de todos os direitos de participação, leva à acumulação aguda da riqueza nas mãos de uma minoria, em detrimento de quem trabalha e do desenvolvimento social. A globalização competitiva adultera o conceito de desenvolvimento, identificando-o falaciosamente com crescimento económico, modernização e eficiência, tomadas abstractamente, onde interagem apenas os agentes do dinheiro na mera defesa dos interesses individuais. Deixa esmagar os anseios sociais pelos grupos económico-financeiros transnacionais, sacrifica a diversidade e a soberania, globaliza tudo à custa das economias nacionais, à custa do que é local, do diferente, do singular. Sob o eufemístico prisma do desenvolvimento, promove-se todo um conjunto de relações excludentes e politicamente totalitárias, gerando um infernal sistema progressivamente concentrador e destruidor. Quanto mais riqueza e poder concentrados, maior desigualdade, maior potencial de desordem e violência, maior ingerência no coração dos povos soberanos.

Não aceito facilmente que se dê às mudanças contemporâneas o nome de revolução da incerteza, embora compreenda que a pós-modernidade é o lugar, por excelência, do efémero e do fugaz. Esta pseudo-incerteza, resultado de bruscas mudanças da modernidade e de um coro de vozes neoliberais, claro que acarreta muito de imprevisível. Para quem tem da vida um sentido solidário, não hedonista e não individualista, esta sociedade fascina e apavora, exactamente por haver muitas certezas. Fascina pelo desafio de uma globalização de cariz humano que poderia ser profundamente enriquecedora, apavora porque, conhecendo nós as práticas anteriores do capitalismo, vemo-las reforçadas e requintadas na sociedade capitalista globalizada.

A ética na educação obriga a pensar e a reflectir na descoberta de alternativas humanas e humanizantes. Esta democracia de faz-de-conta, individualista e oligopolista, tem de dar lugar a uma democracia enraizada na diversidade e na complementaridade de todos os seus intervenientes. O desenvolvimento só é desenvolvimento no sentido positivo se decorrer dos potenciais contidos em cada pessoa, em cada comunidade, em cada região, em cada nação. Não nos iludamos, só reconhecendo o valor de todos os seres humanos, fomentando a complementaridade, a sociabilidade e a irmandade entre as pessoas, as comunidades e as empresas, se consegue progredir no verdadeiro caminho da evolução que merece o nome de desenvolvimento, a grande mais-valia dos homens para quem o dinheiro nunca deveria ser um fim em si mesmo.

( Continua )

 

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