CARTA DE BRAGA – “um Postal para este Natal por António Oliveira

Uma Carta diferente, a assinalar um Natal diferente também.

É tão só um conjunto de asserções de cronistas e outra gente de valor, arrebanhado nas leituras dos órgãos de comunicação que vou lendo e relendo diariamente, valorizado por um cartoon de Artur Santos, um pintor e cartoonista do Porto, que teve a bondade de mo mandar, mesmo sem lho ter pedido.

E começo por uma afirmação da jornalista do ‘El País’, Milagros Oliva, já em Setembro último, ‘Estamos à beira do abismo, por uma deriva irresponsável que busca alargar a guerra; a escalada aproxima os piores cenários, e muitos entendidos alertam sobre o risco de um colapso da ordem mundial’.

E alguns dias depois leio, noutro tipo de linguagem, ‘Ouvidos surdos e vista cega às sombras que se anunciam, aos abutres que pairam; diferente do que cantou Lennon em ‘Imagine’, ao homem só há que dar-lhe uma oportunidade para a maldade, para que se disponha ao assassinato, ao crime e a organizar a devastação de sociedades inteira’.

Estas palavras ao diário catalão ‘La Vanguardia’, pelo pintor Joan-Pere Viladecans, foram depois muito bem elucidadas no Postal de Natal, que o pintor portuense Artur Santos, me enviou.

Artur Santos, Postal de Natal

Mas o diplomata e escritor Luís Castro Mendes, numa das crónicas semanais que vai deixando no nosso ‘Diário de Notícias’, tem o cuidado de salientar, ‘Há que recordar a velha e fundamental noção de Max Weber, sobre o monopólio pelo Estado da violência legítima. Esse monopólio da legitimidade dos meios violentos de actuação, impõe ao Estado e aos seus agentes, especial responsabilidade no uso medido e adequado de tais meios, e aconselha o máximo de diálogo entre os agentes de autoridade e essas comunidades’.

Só que devemos ter em conta, também, que quando a história se repete, dizia Karl Marx, a primeira é como tragédia e a segunda como farsa, e Hannah Arendt, a filósofa alemã que conheceu as perseguições e prisões nazis, também explica isso, por se aplicar bem a estes dias, ‘Vivemos tempos sombrios, onde as piores pessoas perderam o medo e as melhores perderam a esperança’.

Também o director executivo da Oxfam International, Amitabh Behar afirmou em Novembro, referindo as Nações Unidas, com quem a organização colabora intensamente, ‘Os ultra ricos e as megacorporações que controlam, estão a moldar regras globais para servir os seus interesses em todo o mundo, à custa das pessoas. O icónico pódio da ONU sente-se cada vez mais diminuído, num mundo em que os multimilionários são os que mandam’.

Talvez seja isso a estar por trás das cinquenta e seis guerras activas agora, no mundo, ou apenas meros ‘serviços’ dos autocratas que as ‘desenham’, por ambições políticas ou financeiras. E os números, divulgados em Novembro pela Unicef, são estarrecedores –cada quatro minutos morre uma criança, menino ou menina, por um acto de violência– e cerca de 90 milhões sofreram episódios de pederastia.

Mas a crítica mais mordaz foi feita por Luis Garcia Montero, um respeitável catedrático em literatura, poeta e ensaísta, ‘Estamos a viver num mundo de muitas marionetas já passadas na idade, ou num circo onde trabalham às ordens dos interesses mais egoístas. Justificam genocídios, insultam sem pudor e estão ocos por dentro. Não ser marioneta, ser uma pessoa e ter sentimentos traz sofrimento, mas é importantíssimo para assumir a autoridade política que nos defenda da lei da selva’.

Para concluir, lembro Walter Benjamim, que morreu em 1940, na fronteira entre França e Espanha ao fugir dos nazis, por talvez ter explicado numa simples frase. todo este drama, ‘A violência é sempre um meio para atingir um fim, mas o fim maior não pode ser a própria violência’.

António M. Oliveira

Não respeito as normas que o Acordo Ortográfico me quer impor

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