Um respeitado cronista de um jornal daqui ao lado, começa um dos seus escritos com esta versão ficcionada da uma parte da ‘Ilíada’ de Homero –Ulisses reuniu os príncipes em assembleia e, com a voz grave de que só ele era capaz, começou a falar, ‘Amigos, continuais a confiar nas vossas armas e na vossa coragem, mas, entretanto, estamos a envelhecer aqui, sem glória e numa guerra sem fim. Ouvi-me! Será apernas com a inteligência e não com a força, que conquistaremos Troia!’– E depois de os ter incentivado a mudar os procedimentos, mais as considerações do cronista, apropriadas ao tema que estava a tratar, termina a crónica com uma afirmação dificilmente contestável ‘Quando as armas falam, a inteligência dorme. É o que acontece em todas as guerras’.
Quantas serão as pessoas a quem, cada um de nós, gostaria de poder dizer isto, se nos conseguíssemos aproximar delas, sem ter medo de prisões, de achincalhamentos e humilhações, de torturas, ou até poder cair de um quinto andar?
Mais tarde e sem sair daqueles tempos e daquela civilização, Platão, propõe nos diálogos da ‘República’, que fossem os filósofos a governar, para remediar os males políticos da época, em que as oligarquias se notavam pelos abusos de poder e pelas injustiças. É verdade que a democracia então chegada, melhorou a situação a todos os níveis, mas também este sistema acabou por o decepcionar.
E Platão aponta três razões fundamentais: em democracia, qualquer um (mesmo sem preparação suficiente) podia chegar ao poder; a democracia tinha condenado à morte o mais sábio dos homens, e seu mestre Sócrates; e também podiam manipular as massas, através da arte da palavra, a oratória, levando-as a fazer praticamente o que eles quisessem, (agora nem será necessária tal arte, pois estar devidamente substituída pelos ecrãs de mão, onde tudo se pode dizer sem contraditório).
E quantos exemplos poderemos todos apontar, aqui ou em qualquer outro lado, país e continente, que possa demonstrar e certificar o que disse o filósofo e matemático ateniense, que viveu quatrocentos anos a.C.?
Mas continuemos a pensar nestes dias, que nos atormentam, e não pouco, ‘Seria tão bom que se usasse o tempo e os dinheiros públicos, para ajudar as gerações mais novas, a perceber que isto da democracia não é o que existe, é o que foi construído. E que dois terços das pessoas deste mundo não a vivem, mas mesmo assim faz sentido, é genuinamente bom e previne vários males e maleitas do poder’, escreveu na crónica habitual no DN, o professor de Direito Miguel Romão, em 27 de Novembro.
Não será a mesma coisa, dita por outras palavras, que afirmou Platão há dois mil e quinhentos anos?
Mas estamos aqui, lugar onde parece podermos ainda escrever livremente, mas os ventos de mudança para um populismo sem memória e sem freio, começam a levantar DANA’s de todo o tipo, (não só climatéricas!) sem escolher lugar, destruindo tudo com lamas e destruição, deixando milhares de mortos, feridos e esfomeados, com umas Nações Unidas que só podem falar, por não terem poder para mais nada.
Só que, referindo a que foi a democracia mais poderosa deste mundo, ‘elDiario.es’ daqui ao lado, do dia 25 de Novembro, traz como título principal na 1ª página, ‘Elon Musk aperta a pinça sobre os meios de comunicação com um mar de ataques e falsidades’ acrescentando a seguir, algumas das que ele mesmo escreveu: ‘Os meios tradicionais mentiram de forma implacável’, ‘Estão a morrer rapidamente’, ‘A realidade das eleições estava à vista em X, e a maioria dos meios tradicionais mentia sem parar’ e ‘Continuarão o seu declive’, depois de ter afirmado na noite dia 6, o das eleições, dirigindo-se a todos os X’s mais pequeninos, ‘You are de the media now (vocês são agora os media)’.
Termino recorrendo a um outro cronista, Garcia Montero da ‘Cadena Ser’, ‘Mais do que tu, eu, o outro, a minha soberba, o teu protagonismo, o seu desejo de aparecer também, estão em jogo a educação pública, a saúde pública, os direitos do trabalho, as políticas de igualdade e um panorama internacional em que caiem desprezo e mísseis sobre os valores democráticos, as instituições públicas e os direitos humanos’.
Ámen!
António M. Oliveira
Não respeito as normas que o Acordo Ortográfico me quer impor