Na morte de Arsénio Mota – por António Augusto Menano

Nota Prévia
Publicamos hoje o texto que o pintor e poeta António Augusto Menano, amigo próximo e companheiro de muitas lutas do Arsénio, escreveu para o jornal As Artes entre as Letras, de 25 de Dezembro de 2024, devidamente autorizados pelo autor, para assim continuarmos a lembrar Arsénio Mota.
A Viagem dos Argonautas

 

Na morte de Arsénio Mota

 

por António Augusto Menano

Arsénio Mota

Fiquei uns minutos em silêncio a olhar para lá longe do outro lado do rio das Pérolas, uns pontos luminosos que se moviam rapidamente luminescentes.

Era noite e, no 23.º andar do edifício onde habito temporariamente, em Macau.

Acabara de ler num e-mail a notícia do falecimento de Arsénio Mota, no Porto. Conheci-o por correspondência em 1958. Vivia na Rua da Matemática, em Coimbra, onde tentava gostar das regras e dos códigos de Direito.

Neste “zoom” lento em que procuro recordar o autor de “Biografia Fantástica” (1960) associo-lhe um estímulo grande dado por ele a este aprendiz de escritor, mais desejoso de escrever poesia do que de aprender a história do Direito Romano. E o Arsénio abriu-me as portas do Suplemento Literário do Jornal de Notícias e do seu suplemento “Independência Literária”, também as portas da “Independência de Águeda”, e ajudou a encontrar o nome para uma página cultural que eu tinha no “Notícias da Figueira”.

Nos anos 60 do século passado surgiram muitas páginas culturais, literárias nos jornais de província.

Era o modo; a forma de se manifestar a recusa por tempos de escuridão. Havia que reunir os seus colaboradores, criar prémios simbólicos e conhecermo-nos. Foi o que um pequeno grupo tentou.

Na altura organizava uma página no “Mar Alto”, semanário da Figueira da Foz. Com o apoio de Severo da Silva Biscaia, director do jornal, da Comissão Municipal de Turismo e sogro de Azeredo Perdigão, organizámos o “I Encontro de Suplementos e Páginas Culturais”. Alguns nomes da iniciativa: Arsénio Mota, Augusto Mota, Santos Simões, Júlio Conrado, António Augusto Sales, Manuel Simões, Daniel Filipe, António Augusto Menano. Esqueço alguns – os anos pesam…

O Encontro realizou-se na Sede do Turismo da Figueira da Foz.

A p.i.d.e. na pessoa de alguém disfarçado em jornalista esteve presente.

De Espanha vieram dois escritores: Félix Cucurull e o poeta de Salamanca José Ledesma Criado, director da Revista Álamo. Houve quatro Encontros, em Guimarães, em que participaram Ferreira de Castro e Armando de Castro (amigos de Arsénio Mota), em Cascais, e, após um breve interregno, novamente na Figueira. Neles participaram (cito de memória) Manuel Ferreira, Mário Braga, Carlos Loures, António Rebordão Navarro, Nuno Teixeira Neves, José Ferraz Diogo, entre muitos outros.

Arsénio Mota foi jornalista, cronista, contista, crítico, autor de importantes livros infantis.

Foi dos primeiros autores a publicar sobre pintura “Artistas ao Norte”, Porto Editora, 1989, “Júlio Resende – Arte Como Vida”, Livraria Civilização, 1993, “Armanda Passos”, Campo das Letras, 1997.

Estudou e escreveu sobre a sua região, Bairrada, “Estudos Regionais sobre A Bairrada”, Livraria Figueirinhas, 1993, “Pela Bairrada”, 1998, “Letras Bairradinas”, antologia, 1988, “Figuras das Letras e Artes”, da Bairrada, 2001, em 2018 revertida em e-book, com o título “Dicionário e Autores da Bairrada”.

Foi galardoado com os prémios: Fundo de Apoio à Edição da Associação Portuguesa de Escritores, 1985, Prémio Carlos de Oliveira, Campo das Letras, 2006, e-book em 2018, Prémio Romain Roland por artigos sobre o escritor publicados em Mar Alto.

Arsénio Mota estreou-se com um livro de poemas em 1955, tendo-o assinado com o pseudónimo Arsénio de Bustos.

As últimas palavras deste texto sobre o Escritor de “Besouro na Floresta”, número 2 da Colecção Saturno, Porto 1962, cujos números um, três e quatro foram de Serafim Ferreira, eu próprio e Idalécio Cação (outro bairradino) que se recordam nos “50 Anos de Escrita” – homenagem em livro, e a exposição “Uma Vida e Uma Obra” em 2004, organizada juntamente com o ciclo de conferências pelo Museu do Neo-realismo em Vila Franca de Xira.

Títulos como “Sol para Todos”, “Razão Actual 1972”, “O vírus Entranhado”, com ilustrações de Avelino Rocha, Campo das Letras, Porto 1989, e-book1999, “Letras Sob Protesto”, crónicas, com prefácio de Pires Laranjeira, 2003.

Saudades de um tempo que não volta!

Leave a Reply