A humanidade evolui em tudo, à medida que o tempo avança. É o evoluir permanente do conhecimento. Hoje, dentro das sociedades ditas civilizadas, ninguém se desloca de carro de bois, ninguém usa a velha máquina de escrever, nem ninguém permanece alheio e indiferente ao que o rodeia. A influência exercida pelo conhecimento e crescimento, que pode não ser o mesmo que desenvolvimento, mexe com tudo e muda constantemente as pessoas e as sociedades. Para melhor? Nem sempre.
A ciência deu um salto enorme e continua a desenvolver-se. O pensamento e as funções da sua base neuronal avançaram de forma impressionante. É lógico e fácil aceitar que haja muita gente a viver com mais paz e democracia, entendendo-se por democracia a sua irmã bastarda, a democracia de faz-de-conta, com justiça social e sistemas sociais de apoio muito débeis. Mas as desigualdades, mesmo nesta parte privilegiada da humanidade são escandalosas. Tudo isto, o bom e o mau, decorre não apenas do sistema em si, mas da evolução natural de uma sociedade algo bem intencionada e algo perversa, em que o ser humano está inserido. A maior parte da humanidade está longe da paz, da democracia, da solidariedade e da justiça. Mas pior do que isso, está talvez em retrocesso. A maior parte da humanidade, numa época de grande crescimento e de inimagináveis transformações, está cada dia mais longe do desenvolvimento, isto é, da paz colectiva, da democracia universal, da saúde social e do planeta, da educação do Homem, do sustento da humanidade global, da solidariedade e da justiça. Assistimos hoje a desequilíbrios e tremendas injustiças, a requintes de crueldade e desprezo pelos outros, talvez bem maiores do que há séculos atrás. E tudo isto, a meu ver, pela sede demencial de domínio e pela voracidade nunca vista dos agentes de criação de uma tão contestável quanto concentrada riqueza, sem qualquer espírito de benfeitoria ou solidariedade humana. O capitalismo é mau por natureza, aberrante na teoria e perverso na sua prática. Sempre beneficiará os ricos e condenará os pobres, por mais voltas que a gente dê. Os profundos desequilíbrios e a incapacidade do sistema capitalista para criar igualdade de oportunidades são um fenómeno impossível de debelar dentro deste sistema. Este desequilíbrio e este desnível constituem o gene essencial à sua sobrevivência. Trata-se, com efeito, de uma doença crónica, a qual, sem hipótese de cura, se vai aguentando com tratamentos paliativos ainda que modernizados pela evolução da ciência social e humana. O sistema capitalista tende a curar os seus excessos e delírios através de crises. Quando um dos seus abcessos rebenta, há um terramoto, a riqueza é destruída, as pessoas são dispensadas e despedidas sem contemplações, as instalações de produção são encerradas numa espiral descendente de contracção. A segurança é nula. Os desesperados, os desempregados e todos os desafortunados que do sistema dependem aceitam tudo até que o fim da crise reponha novamente a falácia e o sistema caminhe para a bolha seguinte, repetindo o ciclo, por etapas cada vez mais refinadas de uma grosseira exploração do homem pelo homem. A cura para esta sistémica e dilacerante doença estaria muito provavelmente numa nova filosofia de vida, na procura da felicidade possível através da permanente conquista de uma autêntica cultura social, dentro de uma estratégia política de moralização da humanidade e de uma tentativa de elevação ao mais alto grau, da dignidade social e dos valores humanos.


Em concordância com este pensamento, permito-me dizer que a minha geração foi educada para o sucesso pessoal. Eram apontados exemplos/modelos nacionais e internacionais para reforço desse caminho. Mas, era-nos vedada informação sobre como, porquê, para quê e consequências. Essa ideologia, que para nós era uma ideia, ficou-nos impregnada e absorve-mo-la face à facilidade de acesso explosiva a bens e serviços… mas, na minha modesta opinião, o que falhou bastante foi a falta de tempo para o lazer e para a ternura e o amor entre os humanos porque, na verdade, ao capitalismo isso não interessa. Compete ao Estado concertar isso, diz o capital… talvez no final século XXI o ser humano vislumbre essa necessidade. E aí vão surgir “aulas” para aprender a amar.