Espuma dos dias — Hoje, não se teria criado Scrooge. Perdemos o espírito do perdão. Por Brad Evans

Nota prévia

Caros Amigos e Amigas

O fim de ano aproxima-se. Em forma de despedida deste velho ano que nos surgiu mais esfarrapado do que qualquer outro, aqui vos deixo uma sugestão: se têm crianças em casa procurem acompanhá-las a ver o filme O Conto de Natal, se têm adolescentes em casa procurem ver com eles não apenas este filme mas também, e na sequência, o filme O Homem que inventou o Natal com realização de Bharat Nalluri. E vale a pena conversar-se depois sobre os dois filmes.

Uma pequena história que se passou comigo. No ano que se estreou este filme, 2017-2918 fui ao cinema com a minha neta mais velha ao centro comercial Alma. Estavam na sala 4 pessoas! Eu, a minha neta, uma avó e o seu neto. Uma tristeza coimo quantidade de gente a ver um filme de Natal e no Natal.

Quando o filme terminou, desço os degraus e naturalmente desloco-me para a saída. A avó e o seu neto aguardam que eu desça para comentarem o filme ou para exprimirem o seu mal-estar. Dizem-me que não há direito de passar um filme daqueles para crianças. Nem ela percebeu nem o seu neto, disse-me. Disse-lhe: já alguma vez leu o conto de Natal de Dickens? E sem esperar pela resposta disse-lhe: penso que não e é pena. Dou-lhe um conselho: passe pela Bertrand, ali em baixo, compre o livro e leia- o com o seu neto. Depois, veja o filme O Conto de Natal e só a seguir é que deve voltar a ver este filme, mas reveja-o, por favor. Virei-me para o miúdo e disse-lhe: insiste com a tua avó para seguir o meu conselho e vais ver que vais gostar. Deixei a senhora a olhar para mim com ar de espanto e saímos. Este é um conselho que dou a toda a gente, e  aqui o deixo também.

Vem isto a propósito de dois textos que vos mando, dois textos pequenos, sublinhe-se, o primeiro exatamente sobre o Conto de Natal onde se diz:

, (…) os nossos tempos de crise são muito diferentes dos tempos em que Dickens estava a elaborar o seu conto. Durante a era industrial, existia um sentido de comunidade viável, onde as pessoas encontravam apoio numa base diária. Havia teatros públicos para as pessoas frequentarem e expressarem a sua união. Havia bibliotecas onde as crianças aprendiam coletivamente e melhoravam a sua situação. Havia organizações que levavam a sério as necessidades locais dos povos empobrecidos de forma pessoal, não apenas para medicamentos, mas para assegurar através de apelos genuínos à solidariedade e à amizade. E havia vizinhos que se ajudavam mutuamente nos momentos difíceis. Fim de citação

e um segundo texto [a publicar amanhã] que nos fala de um pequeno e imaginativo peixinho, Tiddler, a propósito dos políticos de hoje, onde nos diz:

“Nesta adaptação do livro infantil de Julia Donaldson, um peixinho imaginativo é salvo pelos “contos” que inventa para não se meter em sarilhos. “Estava perdido, tinha medo, mas uma história levou-me de novo a casa”, declara. Donaldson descreve a sua história como uma celebração da imaginação infantil, que encoraja as crianças a perderem-se nos seus próprios sonhos. No entanto, parece-me que há algo mais profundo. Donaldson escreveu uma espécie de fábula moderna. Em todo o Ocidente, estamos mais do que um pouco perdidos. As histórias que contámos em tempos já não se acre dita nelas e aqueles a quem precisamos de contar novas histórias perderam o seu poder de imaginação.” Fim de citação

E votos de Feliz Ano Novo

JMota

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Seleção e tradução de Júlio Marques Mota

4 min de leitura

Hoje, não se teria criado Scrooge. Perdemos o espírito do perdão

 Por Brad Evans

Publicado por  em 25 de Dezembro de 2024 (original aqui)

 

O vosso melhor substituto de peru orgânico e vegan, por favor. Imagem de Keystone/Hulton Archive/Getty Images.

 

A época festiva tem uma dívida intelectual monumental para com Charles Dickens. Um Cântico de Natal inventou em grande parte a festa de Natal tal como a continuamos a celebrar hoje. Mas o seu conto também nos recorda o poder da magia e da restituição nos nevões de tempos implacáveis: dá poder e voz aos marginalizados, aos descartáveis e aos esquecidos da história. É um conto que ressoa através do tempo para revelar o que acontece quando nos debatemos com a verdade de sermos humanos.

Um Conto de Natal é um conto de duas tragédias. Há a tragédia que está destinada a acontecer: a morte de Tiny Tim, vítima da violência estrutural da miséria. Mas a segunda tragédia pertence ao passado. A tragédia que transformou uma pessoa bondosa e humilde num monstro. Esta é a tragédia que define Ebenezer Scrooge.

Scrooge é uma escuridão rodeada por uma escuridão ainda mais impenetrável. “A escuridão é barata, e Scrooge gostava dela”, diz Dickens sobre a casa sem caridade e estéril do seu protagonista. Scrooge é indistinguível da sua sombra. O inferno de Dante não estava em chamas, mas residia nas profundezas geladas do tormento e do desespero. Scrooge pertence a essas profundezas. Faz amizade com a miséria, deleita-se com o isolamento, atravessa os seus portões com um uivo pessimista. A sua alma é tão fria como o prego de aço, que Dickens invoca desde o início para descrever o seu parceiro morto, Jacob Marley. Scrooge, em suma, está morto enquanto vivo, “protegido da surpresa”, emocionalmente à deriva dos fogos do mundo.

O seu comportamento distingue-se claramente da ostentação e do esplendor da riqueza, tantas vezes exibida pelos colonos comerciantes da Grã-Bretanha vitoriana. A sua época era, afinal, uma época de extraordinário esplendor. E, nessa altura, enquanto Dickens escrevia os contos sociais complementares Oliver Twist e Bleak House, a máquina de extração de riqueza do Império Britânico estava em pleno funcionamento (especialmente nas colónias mineiras). Mas o que importa não é se Scrooge é exuberante ou parcimonioso. A sua penitência deve ser explicada através da sua busca de acumulação. E, assim, Dickens invoca um fantasma que vai para além da história de um homem miserável: o fantasma que faz girar as correntes das forças sociais. Quem carrega realmente essas correntes?

Trata-se de um passo radical de Dickens, que procura virar o mundo do avesso. Transforma os poderosos em impotentes, de modo a tornarem-se testemunhas forçadas, sem capacidade para provocar mudanças. O que também tornou Dickens revolucionário para a sua época foi o facto de ter evocado a ideia de que os seres humanos não nascem maus ou sinistros. Se Um Cântico de Natal nos faz refletir sobre a noção de que, mesmo nos corações mais sombrios, ainda existe o brilho de uma chama que é a centelha da nossa humanidade, é também um conto sobre como todos nós podemos ser produtos das circunstâncias.

Mas isto também exige mais de nós. A maioria derramaria uma lágrima pela criança de destino marcadamente impiedoso que jaz morta na neve. É muito mais difícil ajudar os outros do que quebrar um mar gelado dentro de si. Dickens aconselha que a caridade funciona de forma misteriosa. Diz respeito tanto aos empobrecidos material como espiritualmente.

Hoje em dia, não nos deve passar despercebido o facto de o Natal se ter tornado completamente mercantilizado e de o seu significado ter sido tantas vezes despojado da sua aspiração espiritual. Se o fantasma do Natal passado nos recorda todos os produtos desperdiçados que comprámos, o fantasma do presente continua a fazer-nos comprar mais, enquanto o do futuro continua a deixar-nos insatisfeitos, porque o desejo de encontrar um sentido nas coisas nunca é totalmente satisfeito.

Dickens era um materialista. Ele sabe que o pão é importante. Mas ele investe os objetos materiais com ressonância subjetiva. As maçanetas tornam-se rostos angustiantes, as escadas transformam-se em passagens para a desolação do coração vazio e murcho, e a vela bruxuleante é um ponto de passagem entre o hálito gelado de um homem envelhecido e o fumo efémero de um passageiro fantasmagórico. Aquele que viveu demasiado tempo e sentiu demasiado pouco está a um sopro de distância de uma vida que em breve se extinguirá. Há aqui, portanto, questões de misticismo. Essa chama azul e melancólica simboliza uma existência precária que arde numa hora crepuscular, dividida entre o desejo de ficar e o desejo de desaparecer. A morte está sempre presente nesta novela, sempre no momento da sua chegada, mas sempre adiada.

E, no entanto, os nossos tempos de crise são muito diferentes dos tempos em que Dickens estava a elaborar o seu conto. Durante a era industrial, existia um sentido de comunidade viável, onde as pessoas encontravam apoio numa base diária. Havia teatros públicos para as pessoas frequentarem e expressarem a sua união. Havia bibliotecas onde as crianças aprendiam coletivamente e melhoravam a sua situação. Havia organizações que levavam a sério as necessidades locais dos povos empobrecidos de forma pessoal, não apenas para medicamentos, mas para assegurar através de apelos genuínos à solidariedade e à amizade. E havia vizinhos que se ajudavam mutuamente nos momentos difíceis.

Esses laços deram lugar, em grande parte, a um individualismo insípido, que acabou por fazer com que os pobres lutassem entre si, enquanto a frieza do ecrã digital nos seduzia. Além disso, enquanto Dickens recorda como a “população excedentária” era explorada nas casas de trabalho (para escárnio de Scrooge, que não se importava de a fazer trabalhar ou de a matar), hoje estamos a criar “exércitos de desempregados permanentes”, abandonados por um mundo completamente diferente, mas não menos frio.

Dickens escrevia, sem dúvida, a partir de uma perspetiva marcadamente religiosa, mas mesmo assim conseguiu tocar algo de humano em todos nós. O humanismo e a espiritualidade não se opunham. No entanto, na era aparentemente secular de hoje, o hiper-moralismo é tão encorajado, o passado, o presente e o futuro tão aparentemente assegurados, que o espaço para o desconhecido é praticamente negado. Scrooge nunca sobreviveria às provações do Twitter e ao policiamento moral que regista todas as indiscrições. Perdemos o misticismo, perdemos a capacidade de falhar, perdemos a capacidade de sermos tão falíveis como um Scrooge e, mais importante, perdemos o espírito de perdão que poderia ser concedido a pessoas que são totalmente desagradáveis.

Mas embora não possamos ser demasiado literais ao traduzir o século XIX para o presente, podemos apreciar as preocupações mais profundas que Dickens levanta sobre a condição humana. Quando Ebenezer se vê confrontado com o seu próprio túmulo ignorado e com a constatação de que, no ato final de prestação de contas, nada disso importava, é forçado a olhar para a sua vida como se já estivesse morto. É a mais profunda de todas as questões filosóficas: como viver a tragédia da vida e, ao mesmo tempo, compreender a efemeridade da existência. Dickens, através de Scrooge, obriga-nos a considerar como será a vida na perspetiva da nossa própria morte. Como é que a vida de cada um de nós poderia mudar, se estivéssemos abertos à companhia dessa aparição? Só os fantasmas do tempo o dirão.

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O autor: Brad Evans é Professor de Violência Política e Estética na Universidade de Bath [interior do sudoeste de Inglaterra]. O seu livro, How Black Was My Valley: Poverty and Abandonment in a Post-Industrial Heartland, é publicado com a Repeater Books.

 

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