Espuma dos dias — Ninguém acredita na fantasia dos centristas. O populismo conta um imaginativo conto vencedor.  Por Tom McTague

Nota prévia

Caros Amigos e Amigas

O fim de ano aproxima-se. Em forma de despedida deste velho ano que nos surgiu mais esfarrapado do que qualquer outro, aqui vos deixo uma sugestão: se têm crianças em casa procurem acompanhá-las a ver o filme O Conto de Natal, se têm adolescentes em casa procurem ver com eles não apenas este filme mas também, e na sequência, o filme O Homem que inventou o Natal com realização de Bharat Nalluri. E vale a pena conversar-se depois sobre os dois filmes.

Uma pequena história que se passou comigo. No ano que se estreou este filme, 2017-2918 fui ao cinema com a minha neta mais velha ao centro comercial Alma. Estavam na sala 4 pessoas! Eu, a minha neta, uma avó e o seu neto. Uma tristeza coimo quantidade de gente a ver um filme de Natal e no Natal.

Quando o filme terminou, desço os degraus e naturalmente desloco-me para a saída. A avó e o seu neto aguardam que eu desça para comentarem o filme ou para exprimirem o seu mal-estar. Dizem-me que não há direito de passar um filme daqueles para crianças. Nem ela percebeu nem o seu neto, disse-me. Disse-lhe: já alguma vez leu o conto de Natal de Dickens? E sem esperar pela resposta disse-lhe: penso que não e é pena. Dou-lhe um conselho: passe pela Bertrand, ali em baixo, compre o livro e leia- o com o seu neto. Depois, veja o filme O Conto de Natal e só a seguir é que deve voltar a ver este filme, mas reveja-o, por favor. Virei-me para o miúdo e disse-lhe: insiste com a tua avó para seguir o meu conselho e vais ver que vais gostar. Deixei a senhora a olhar para mim com ar de espanto e saímos. Este é um conselho que dou a toda a gente, e  aqui o deixo também.

Vem isto a propósito de dois textos que vos mando, dois textos pequenos, sublinhe-se, o primeiro exatamente sobre o Conto de Natal onde se diz:

, (…) os nossos tempos de crise são muito diferentes dos tempos em que Dickens estava a elaborar o seu conto. Durante a era industrial, existia um sentido de comunidade viável, onde as pessoas encontravam apoio numa base diária. Havia teatros públicos para as pessoas frequentarem e expressarem a sua união. Havia bibliotecas onde as crianças aprendiam coletivamente e melhoravam a sua situação. Havia organizações que levavam a sério as necessidades locais dos povos empobrecidos de forma pessoal, não apenas para medicamentos, mas para assegurar através de apelos genuínos à solidariedade e à amizade. E havia vizinhos que se ajudavam mutuamente nos momentos difíceis. Fim de citação (ver aqui).

e um segundo texto [publicado abaixo] que nos fala de um pequeno e imaginativo peixinho, Tiddler, a propósito dos políticos de hoje, onde nos diz:

“Nesta adaptação do livro infantil de Julia Donaldson, um peixinho imaginativo é salvo pelos “contos” que inventa para não se meter em sarilhos. “Estava perdido, tinha medo, mas uma história levou-me de novo a casa”, declara. Donaldson descreve a sua história como uma celebração da imaginação infantil, que encoraja as crianças a perderem-se nos seus próprios sonhos. No entanto, parece-me que há algo mais profundo. Donaldson escreveu uma espécie de fábula moderna. Em todo o Ocidente, estamos mais do que um pouco perdidos. As histórias que contámos em tempos já não se acre dita nelas e aqueles a quem precisamos de contar novas histórias perderam o seu poder de imaginação.” Fim de citação

E votos de Feliz Ano Novo

JMota

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Seleção e tradução de Júlio Marques Mota

6 min de leitura

Ninguém acredita na fantasia dos centristas. O populismo conta um imaginativo conto vencedor

 Por Tom McTague

Publicado por  em 28 de Dezembro de 2024 (original aqui)

 

               Crédito: Alberto Pezzali – WPA Pool/Getty)

 

Pergunto-me se os generalíssimos governantes do Partido Trabalhista, Morgan McSweeney e Pat McFadden, viram muita televisão no Natal deste ano. Poderiam ter reconhecido a forte relação masculina no coração de Gone Fishing na véspera de Natal. Ou derramado uma lágrima ao ver o espírito comunitário que infunde Gavin & Stacey: The Finale. Mas não tenho a certeza de que tenham agarrado aquele que tem a lição mais importante sobre a vida moderna e o governo atual. Não, não é Die Hard, é o pequeno peixe, Tiddler.

Nesta adaptação do livro infantil de Julia Donaldson, um peixinho imaginativo é salvo pelos “contos” que inventa para não se meter em sarilhos. “Estava perdido, tinha medo, mas uma história levou-me de novo a casa”, declara. Donaldson descreve a sua história como uma celebração da imaginação infantil, que encoraja as crianças a perderem-se nos seus próprios sonhos. No entanto, parece-me que há algo mais profundo. Donaldson escreveu uma espécie de fábula moderna. Em todo o Ocidente, estamos mais do que um pouco perdidos. As histórias que contámos em tempos já não se acredita nelas e aqueles a quem precisamos de contar novas histórias perderam o seu poder de imaginação.

A ideia central de grande parte da análise política atual é que existe uma coisa chamada “populismo”, que conta histórias aos eleitores crédulos para conquistar o poder. Em oposição aos populistas, nesta narrativa, estão os “centristas”, que lidam com factos e números. Poderíamos chamar a isto o relato de Alastair Campbell sobre a política moderna. A ironia deste ponto de vista, porém, é que se tornou naquilo a que pensa opor-se: uma fantasia reconfortante mas, em última análise, vazia.

“Simplesmente já não é credível que sejamos um país bem governado”.

Num certo sentido, é possível entender 2024 como o ano em que o vazio desta fantasia centrista se tornou tão óbvio que os eleitores deixaram de a poder levar a sério. Em França, a história da competência jupiteriana de Emmanuel Macron deixou de ser credível, mesmo para aqueles que querem que seja verdade. Na Alemanha, por seu turno, a ideia de que Olaf Scholz poderia liderar uma Zeitenwende [conto da carochinha] parece igualmente ridícula, uma vez que ele se agarra ao poder acusando desesperadamente os seus adversários de serem belicistas. Nos Estados Unidos, entretanto, a realidade extraordinária é que Donald Trump teve um resultado mais substantivo nas eleições presidenciais do que a sua adversária, por ter políticas efetivas. Alguma vez houve um candidato mais vazio na história presidencial moderna do que Kamala Harris? Alguém hoje é capaz de dizer o que é que ela realmente defendeu para além da sua própria ambição e dos interesses do Partido Democrata?

Entretanto, aqui na Grã-Bretanha, o vazio da nossa ordem é exposto pelo simples facto de já não ser crível que sejamos um país bem governado. A deterioração do nível de vida e dos serviços públicos é demasiado óbvia para que alguém possa defender esta ideia com algum grau de sinceridade. Seja como for que definamos o status quo, ele está seguramente a falhar. A última vez que se registou uma quebra semelhante da legitimidade da nossa ordem governamental foi nos anos setenta, quando uma série de crises expôs as suas falhas. Para Starmer e o seu governo, o grande receio é que o ponto de viragem nesta história – o ano de 1979 da nossa era – não foi a eleição de julho, mas a que ainda estava para vir.

Parte do nosso dilema atual reside no facto de o nosso mundo já não ser testemunha da sabedoria das velhas soluções. Em questões económicas, por exemplo, a ideia de comércio livre na era do poder industrial chinês parece cada vez mais sado-masoquista, especialmente quando atrelada ao nosso impulso para o Net Zero. Existe hoje um verdadeiro pânico em Whitehall perante a perspetiva de um colapso industrial iminente, que corre o risco de fraturar todo o consenso governamental em torno do nosso compromisso de descarbonização – tal como o boom da imigração pós-Brexit sob Boris Johnson roubou igualmente ao Partido Conservador a sua legitimidade nessa matéria.

Pronto a beneficiar em ambos os casos está Nigel Farage, o monstro populista que persegue a imaginação de Westminster. Johnson foi, em tempos, a figura que supostamente matou este monstro de Kent com a sua promessa de fazer o Brexit e “nivelar” o país, apenas para que o vazio do seu compromisso ficasse exposto, permitindo que Farage regressasse mais forte do que nunca. Desde então, Liz Truss e Rishi Sunak entraram e saíram, cada um deles morto pelas suas próprias insuficiências, deixando Starmer com a espada do Estado encarregada de defender o Mead Hall. Mas, numa questão de meses, o seu governo também está em apuros.

Com as suas nobres missões como guia, Starmer espera demonstrar aos eleitores que pode trazer melhorias tangíveis às suas vidas de uma forma que os populistas Boris Johnson e Liz Truss nunca conseguiram. A estratégia por detrás disto é pintar Farage não como a solução para a atual crise de governo, mas como um regresso ao caos populista dos Conservadores. Há mérito nesta abordagem, mas, no final, se uma vaga de encerramentos de fábricas de automóveis for atribuída à iniciativa de Ed Miliband para o Net Zero, os debates sobre Liz Truss, Boris Johnson e George Osborne parecerão tão irrelevantes quanto a figura de Ted Heath no rescaldo do inverno do Descontentamento de 1979.

O perigo para Starmer é que tentar derrotar o populismo através da prática de “apresentação de resultados” não só o deixa à mercê de forças que não pode controlar, como também o liga inextricavelmente a um sistema que os eleitores já rejeitaram. Esta foi, de certa forma, a história das eleições americanas, em que um partido com um aparente historial de resultados foi derrotado por um populista insurgente. Para ganhar, Starmer precisa de mais do que uma folha de cálculo com os números na direção certa. Ele precisa de uma história sobre o que correu mal antes e porque é que o seu governo é diferente. Precisa de uma história sobre a razão de ser do seu governo, em termos morais e ideológicos.

Infelizmente para Starmer, há uma mudança simultânea de atitudes em todo o mundo ocidental que Starmer também precisa de enfrentar. Como me disse um diplomata sénior, o estado de espírito nas capitais europeias mudou drasticamente desde a vitória de Trump, abraçando o seu poder de uma forma que indica um novo e muito mais cínico espírito da época ocidental. “Muitos passaram agora a defender o mundo da Guerra dos Tronos, Milhares de Milhões e Sucessão”, disse este funcionário. “Um mundo em que o poder é a única moeda e em que a moralidade é, muito provavelmente, um defeito.”

Nesta perspetiva, ser visto a tentar jogar de acordo com as regras do jogo enquanto todos os outros se aproveitam de nós não é nobre, mas sim desprezível. Tendo-me envolvido recentemente na série televisiva Yellowstone, esta observação pareceu-me realçar um elemento-chave da nossa psique moderna. Em Yellowstone, o anti-herói é o patriarca da família que faz tudo e mais alguma coisa para manter o rancho da família. Muito se tem dito sobre a visão nitidamente conservadora que Yellowstone tem da América. No entanto, de uma forma mais profunda, está de facto a oferecer uma visão proposta pela esquerda, que há muito rejeitou a ideia de uma América nobre, nascida na liberdade e procurando uma união cada vez mais perfeita. Em vez disso, a América foi apresentada – corretamente em muitos aspetos – como uma república de escravos que surgiu através de uma colonização violenta.

A ironia aqui, porém, é que esta contestação com sucesso do mito fundador da América deu origem não a um desejo doloroso de arrependimento entre a nova geração iluminada de hoje, mas a um profundo cinismo sobre a natureza do mundo, que só serviu os interesses da direita. Se nunca houve uma missão moral no mundo – se tudo não passa de uma história inventada – então porquê criar uma agora? Pode isto estar certo. Não importa quantas pessoas o rancheiro patriarcal tenha de matar para manter a sua terra – ou o que foi feito para a conquistar em primeiro lugar – ele continua a ser o herói pelo simples facto de lutar para manter o que é seu..

Esta história não augura nada de bom para aqueles que, como Starmer, procuram defender a decência da velha ordem. Neste mundo, pouco se ganha com a cedência de soberania no Oceano Índico ou com o cumprimento dos compromissos climáticos. O que os eleitores querem, ao que parece, é que alguém proteja a sua herança; a sua prosperidade; o seu país; a sua terra. De todas as personagens da política britânica, a que mais se aproxima da versão Yellowstone da moralidade é, evidentemente, Farage. Para ele, a questão do Net Zero não é saber quem é o culpado das alterações climáticas, mas quem vai defender a prosperidade britânica.

Se Starmer ou mesmo Kemi Badenoch, quiserem contrariar esta história de modernidade, então ambos precisarão de uma história melhor do que a que nos estão a contar. A história terá de captar a imaginação da população tanto quanto a história de Farage; explicar, em termos morais e ideológicos, o que correu mal e porque é que só os Trabalhistas podem resolver o problema. Terá de explicar o colapso da legitimidade da velha ordem e trabalhar com o cinismo da nossa nova era. Em última análise, terá de ser mais político: ser a favor de algumas pessoas e contra outras. McSweeney e McFadden precisam de uma nova história. Pode ser grande ou não, mas não pode continuar a ser tão vazia como aquela em que perdemos a fé, caso contrário não encontraremos o caminho para casa [como acontece em Tiddler].

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O autor: Tom Mctague é editor político em Unherd. É autor de Betting The House: The Inside Story of the 2017 Election.

 

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