Para o meu amigo Arsénio – por António Gomes Marques

Nota Prévia

Para a comemoração dos 50 anos de escrita do Arsénio Mota, foi-me solicitado um texto a inserir num livro que iria ser publicado com vários testemunhos, o que fiz. Esse texto é agora aqui publicado como contributo para que nos lembremos do Arsénio.

AGM

Arsénio Mota

 

PARA O MEU AMIGO ARSÉNIO

do António Gomes Marques

 

Como é que se pode falar de um amigo, sobretudo quando se pretende que outros leiam o que dele pensamos? Será talvez voltando ao início de tudo o que vivemos em conjunto nestes últimos 30 anos.

Recordemos então.

Tudo começou em 1975, quando o Luís, da Livraria Ler, em Campo de Ourique-Lisboa, me disse: «Vou publicar um livro de que vais gostar.» Tratava-se de «Um País de Pequenos Burgueses», de um tal Arsénio Mota, de quem eu tinha ouvido falar vagamente, sempre o associando ao jornalismo e, especialmente, ao «Jornal do Fundão».

O Luís tinha razão, gostei mesmo do livro! E de tal maneira gostei que me apressei a telefonar ao autor, pedindo-lhe um encontro, a que ele acedeu de imediato, levando-me a, mais uma vez, rumar à, para mim, querida cidade do Porto.

Na altura estava eu embrenhado, com outros companheiros, em mais uma ilusão, criada por aquele tempo maravilhoso que vivemos a seguir ao 25 de Abril. Pensávamos então que seria possível pôr os trabalhadores deste nosso Portugal a ler obras que tivessem a ver com a construção do seu (nosso) futuro, se essas obras lhes chegassem a preços módicos e através das estruturas de trabalhadores. Algumas obras se publicaram, nomeadamente dois livros para crianças com co-autoria do Arsénio. As obras lá se foram vendendo, mas os únicos trabalhadores por conta de outrem que os adquiriram tinham suficiente poder de compra para o fazer e tinham já hábitos de leitura.

Mas voltemos ao Porto, aonde me dirigi, com um outro parceiro da ilusão e com as nossas companheiras, ao encontro do Arsénio. Conversámos e o Arsénio não quis tirar-nos as ilusões, apoiando mesmo a ideia, embora a sua experiência em projectos semelhantes lhe tivesse saído financeiramente muito cara. Claro que o 25 de Abril também lhe tinha aumentado as esperanças e o seu apoio logo nos foi disponibilizado.

Houve um outro facto que nos fez olhar para o Arsénio com uma grande empatia: não aceitou que ficássemos num hotel, cedeu-nos duas camas no apartamento que então tinha na Rua de Monsanto. Lembremos que apenas tínhamos contactado pelo telefone e que, pessoalmente, foi a primeira vez que falámos! Nasceu assim uma amizade que perdura, cada vez mais forte.

A sua generosidade logo ali ficou demonstrada, generosidade essa de que sempre deu provas ao longo de todos estes anos, nomeadamente ao chamar a atenção para os poetas e outras figuras das artes e das letras da sua terra de origem, a sua querida Bairrada.

Às vezes surgem discordâncias nas nossas discussões, onde a sua casmurrice é mais constante do que a minha, naturalmente por eu, nas discussões, ser bem mais dialéctico do que ele, mas no fim lá acabamos por nos entender.

Os encontros tornaram-se constantes, em Lisboa e no Porto, e em algumas viagens por esse Mundo também tivemos a sua companhia.

A leitura da sua obra tornou-se um hábito, não só por desejo de a conhecer, mas também por o Arsénio me passar a enviar os seus livros, à medida que foram sendo publicados.

É o Arsénio detentor de uma linguagem clara, cheia de luz, de uma linguagem que sentimos estar-nos próxima, direi mesmo de uma linguagem que sentimos familiar. Sentimo-lo na ficção, mas sobretudo na crónica, de que o Arsénio é um dos excelentes cultores, cronista atento ao seu e nosso tempo, cronista que nos chama a atenção para os pormenores que nos vão escapando e que, se mais atentos a eles estivéssemos, melhor saberíamos viver as oportunidades que a vida nos vai possibilitando. A título de exemplo, leia-se o Som de Origem. Desta opinião, a sua excelência no cultivo da crónica, não partilha o Arsénio, naturalmente por gostar de ser mais considerado como autor de ficção e, especialmente, de livros para a infância e juventude, que ele tem cultivado com êxito, mas que é também uma parte da sua obra, significativa é certo, que não me sinto capaz de criticar. Vejamos porquê:

Um dia, o Arsénio enviou-me o livro de contos A Última Aposta e o livro para os jovens Os Segredos do Subterrâneo, dactilografados, pedindo a minha opinião. Do primeiro disse o melhor; do segundo fui talvez exageradamente crítico, ou seja, não gostei. Mais tarde, foram ambos publicados, mas Os Segredos do Subterrâneo receberam o prémio do «Ano Internacional da Juventude», 1986, o que me retirou todas as veleidades, se algum dia as tive, de vir a ser crítico de obras para a infância e juventude.

A terminar, pois já esgotei o espaço que me deram, direi ainda que na obra de Arsénio Mota se sente a realidade do nosso tempo, o que faz dele, hoje, um dos autores vivos da literatura portuguesa.

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