Introdução
Coimbra. 10 de Janeiro de 2025
Um amigo meu, depois de receber o texto escrito por Branko Milanovic (que publicaremos amanhã) escreve-me dizendo o seguinte.:
Não é fácil cada um entender bem a bolha em que anda metido. Mas vale a pena o esforço! Bom ano ! Um abraço.
Agradeço a delicadeza da reação mas esta reação diz-nos que vale o esforço que nos preocupemos com o mundo em que vivemos, vale o esforço que nos preocupemos em entendê-lo e quando me perguntam em que bolha vivo eu, eu direi pura e simplesmente que vivo na bolha que me pode levar parcialmente a entender como é que económica, social e politicamente chegámos até aqui, a procurar entender o que significa estar aqui, e, a partir daqui, procurar perceber para onde é que poderemos ir se é que coletivamente vamos para algum lado. Mas vamos, seguramente.
Vivo, pois, numa bolha complexa resultado de um mundo complexo, com múltiplas chaves de entrada que se vão fazendo e desfazendo, com múltiplas interrogações, portanto, e são essas mesmas interrogações que os textos por mim distribuídos procuram expor
É nessa linha que se entende o texto de Branko Milanovic e este, apesar de muito curto, está repleto de linhas de leitura muito sérias. Exemplos.
Os três mundos imaginários, o dos neo-ricardianos, dos intelectuais marxistas da nomenclatura e os neoliberais no campo ocidental:
- O mundo dos neo-ricardianos em que se estudava a economia pura e de ponta, ao nível do melhor que se fazia, mas que nada a ver com os problemas do país em que viviam.
“Os neo-ricardianos na Sérvia viviam num mundo que não tinha qualquer relação com nada à sua volta. Eles discutiam relações de produção capitalistas, enquanto nós tínhamos relações socialistas. Concentraram-se na relação w(r) enquanto o lucro era uma categoria inominável. Falavam de negociação salarial enquanto o estado decidia sobre os salários. Então, o mundo deles era o das equações, do cálculo diferencial e das regras lógicas, como poderia muito bem ter sido o mundo da astronomia ou o mundo de uma ciência social.”
- O mundo dos intelectuais da nomenclatura onde a professora com a exclusão do táxi privado mostrou que não percebeu nada do que é uma economia de transição, onde com o seu “novo livro” sobre a superioridade do socialismo nada percebe nem da dinâmica da transição para o socialismo nem de categorias chaves das teorias ricardiana e marxista, como é o caso do conceito de excedente e de sobre-produto, entre outros subjacente ao relato feito por Branko Milanovic.
“Encontrei uma das minhas professoras socialistas. Ela também procurava um táxi. Nessa altura, em Belgrado, existiam duas empresas de táxi: uma privada e uma estatal. Encontrámos um carro de uma empresa privada de táxis. Mas ela recusou-se a entrar. Ela queria ser conduzida por uma empresa estatal e por um trabalhador que não fosse nem pequeno-burguês nem assalariado. O problema é que não conseguimos encontrar nada do género. Finalmente, apareceu um táxi estatal, mas o motorista não quis parar e levar-nos (provavelmente estava a regressar a casa para descansar). No entanto, a minha professora bateu com o guarda-chuva no tejadilho do carro e o táxi parou.” (…)
Durante o passeio, ela contou-me que estava a terminar o livro que provava formalmente a superioridade do modo de produção socialista e o fim iminente do capitalismo. Achei estranho termos de bater no carro do taxista socialista com um guarda-chuva para que nos levasse a casa, mas não disse nada.”
- Os economistas do lado de cá, do pensamento económico dominante, vivem hoje, como viviam os do lado de lá, num mundo imaginário a torcer as equações para que os dados do mundo se adaptem a elas, enquanto os neo-ricardianos de lá se debatiam com as equações corretas e os intelectuais da nomenclatura batiam com os guarda-chuvas nos tejadilhos dos carros. Com efeito Branko Milanovic diz-nos:
“Tal como os economistas neoclássicos do Ocidente, que viviam no seu próprio mundo imaginário, nós vivíamos no nosso. Com equações corretas e a bater no tejadilho do carro dos taxistas para nos levarem a casa.”
Curiosamente, para lá desta tripla descrição de intelectuais há um detalhe que, como detalhe, é extremamente importante. Neste mundo de gente a viver e a morrer de imaginários, para Branko Milanovic salva-se Anwar Shaikh, mas este não é um intelectual qualquer: é uma das maiores referências no mundo dos economistas marxistas, uma referência que conheço bem desde os meus tempos do ISEG. A referência de Branko Milanovic não está aqui por acaso, penso eu que está como símbolo.
O resultado destes mundos imaginários está bem à vista: o marxismo ortodoxo cai com o muro de Berlim, os neo-ricardianos desapareceram do mapa dos programas universitários com a ascensão do neoliberalismo dos anos 80 que varreu tudo o que poderia ser entendido como ensino crítico das ciências sociais, em particular da economia, e os neoliberais de hoje terão, por sua vez, a sua certidão de óbito lavrada e assinada por Donald Trump em 20 de janeiro de 2025.
No meio de tantos cadáveres, para onde vamos, a seguir ? Uma das hipóteses é estar parado, ficar na mesma, mas, como diz Lewis Carrol, não ir para lado nenhum é ir para algum lado, aquele em que se está, da mesma forma que estar parado é também estar a caminhar, relativamente é claro, é estar a recuar; outra hipótese, é a que levanta Gramsci quando nos avisa que “O mundo antigo morre. O novo tarda a aparecer. E nesse claro-escuro surgem os monstros”. E os monstros aí estão, já se ouve o seu rugir.
Um dos seus rugidos encontramo-lo já na descrição feita pelo Financial Times sobre a sociedade que aí vem, a sociedade de iletrados do futuro, com ou sem Inteligência Artificial.
Iniciamos o texto a falar de bolhas e acrescento, terminemo-lo a falar de bolha: é nesta bolha, a dos tempos que aí vêm, que vamos entrar, a partir de agora e até ao dia 20 de janeiro.
Aqui vos deixo pois três textos, a publicar nos próximos dias:
O mundo segundo Garegnani, de Branko Milanovic
Estamo-nos a tornar uma sociedade pós-alfabetizada? De Sarah O’Connor
Elon Musk ouvido pela SEC, de Matt Levine


