EVA CRUZ – LIVROS E LITERATURA

 

Há já muito que me anda atravessado no peito este desejo de desabafar. O que vou dizer sei que é polémico, mas é o que penso e a minha idade permite-mo.

Sou filóloga, o que implicou para além da aquisição de outros conhecimentos, profundos estudos de Fonética, de Linguística, de Gramática e de Literaturas de quatro países de línguas diferentes. Desde tenra idade leio e continuo a ler. Sou uma amante da leitura e posso dizer que sou uma leitora compulsiva. O melhor presente que me podem oferecer é um livro, que vale para mim tanto como uma joia. Gosto muito de variar, desde a poesia ao romance e ao conto. Aprecio o enredo quando bem urdido, gosto de livros sem história ou com história, de todos os tempos e correntes literárias, mas agrada-me particularmente a forma como estão escritos, aquilo a que chamo de arte da palavra ou arte literária. Confesso que tenho uma predilecção especial pela simplicidade quando bem conseguida, o que nem sempre é fácil. Penso que em muitos casos poderá ser mais difícil de alcançar do que a complexidade. Procuro ler sem preconceito, sempre à espera de fruir do tal deleite da leitura. Gosto também de escrever e sinto por vezes de forma impulsiva essa necessidade. Todos temos esse direito, o direito de escrever, da forma como entendermos, mas não podemos esquecer que uma coisa é escrever e outra coisa é tentar construir arte literária. Pelo menos é assim que penso. Também concordo que, como tantos, ando a bater à volta do arbusto, beating about the bush e também entendo que são raros os que vão direitos ao âmago, go straight to the point. Esses são os génios.

Ora, era aqui que eu queria chegar. Ultimamente tenho andado desiludida com muito do que leio. Não exagero se disser que li alguma coisa de quase todos os “Nobel” e de outros premiados com altos galardões, alguns muito bons. Porém, hoje, salvo raras excepções, vejo-me grega para conseguir ler até ao fim alguns dos mais recentes. Não perpassa por mim o tal prazer estético, sinto-me entediada e quase ludibriada, sem perceber patavina, e só para poder ter uma opinião fundamentada os vou tragando com muito custo. Por vezes até são curtinhos, como eu gosto, mas mesmo assim é um fastio. Oiço e leio críticas de maravilha, nem sempre de pessoas que me merecem credibilidade, mediatismo e mais mediatismo, muito mais dependente de influências de outra ordem do que do conteúdo literário, encómios daqui e dali que me fazem pasmar e duvidar das minhas capacidades de análise e de tudo o que aprendi. Sei perfeitamente que os tempos são outros, reconheço que as formas de encarar a Arte e a Literatura vão mudando, acompanho dentro do possível as legítimas correntes literárias, mas também aprendi ao fim de uma vida inteira a distinguir o trigo do joio. Fala-se de Literatura Contemporânea, de escrita criativa e de tantas outras coisas. Contemporâneo será tudo o que é deste tempo e criativa terá de ser toda a boa escrita, ou melhor, a escrita literária. Parêntesis rectos e curvos, separados ou juntos, reticências à mistura, linhas seguidas de onomatopeias, enumerações, repetições até à exaustão, maiúsculas surgidas de repente a meio de uma frase, versos em ziguezague e alguns ditos poemas apenas com uma só palavra ou com uma só letra em cada verso cujo sentido não se percebe, filosofias de lana-caprina deixam-me pasmada, tão pasmada como a criança que arriscou a dizer que o Rei vai Nu.

Há tanta coisa que se escreve apelidada de frases poéticas, criativas, nunca proferidas, máximas que saltam de boca em boca com vénias sagradas e que não passam de meras banalidades, muitas vezes tão facilmente contestáveis. Depois, lá estão os consagradores que vivem dos consagrados e vice-versa, e alguns académicos que andam por ali às voltas tentando justificar o que para mim é injustificável. Estamos no nosso tempo, não no passado e o futuro é imparável. É óbvio que a lírica de hoje não pode ser a Camoniana, nem o romance pode ser o de Eça, porque o tempo é outro, mas os génios são raros e não são os novos tempos que os encontram ao virar da esquina.

Livros há muitos, muitos. Arte Literária não é frequente. Sei que estou velha e até admito que alguns dos leitores possam dizer que estou ultrapassada. Não me importo.

1 Comment

  1. Não descrevemos flores, disse o Geógrafo e o Princepezinho perguntou porquê. E insistiu, como sempre fazia. Porque são efémeras, respondeu por fim o Geógrafo. E o que quer dizer efémeras? Quer dizer ameaçadas de breve desaparecimento.
    Mas, ao contrário do Princepezinho, não fico assustado com o monte de publicações efémeras que vejo em livrarias e, sobretudo, em supermercados, nas fnacs, nas lojas de aeroportos. Alguns desses autores (com letra pequena) ganham bons dinheiros e, se lerem isto, riem-se. Mas depois de desaparecerem, o mesmo acontecerá ao que escrevinharam.
    Bem haja Eva Cruz, pela clareza da sua crítica.
    José David.

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