CARTA DE BRAGA – “da convivência ao mito da ordem superior” por António Oliveira

‘Se não houver quem regule, quem organize a convivência humana, o que impera é a lei do mais forte, ou mais astuto. Sempre haverá alguém que poderá colocar em risco a minha sobrevivência, se eu não tiver como me proteger’
Thomas Hobbes, ‘Leviatã’

Em todos os confrontos originado por ideologias, quando se fala em igualdade no mundo da economia, pública ou privada, é fundamental a existência de um espaço público onde a polémica, obviamente necessária, seja entre iguais, para que a controvérsia e eventuais decisões seja sempre entre eles, entre todos aqueles para quem o termo ‘liberdade’ afaste aquele outro, ‘domínio’, porque o poder pertence, na realidade, àqueles iguais que tudo conversam, nessa mesma condição.

É uma questão que arrasta questões diversas e raramente simples, por este mundo estar maioritariamente organizado em volta de um outro termo, usado apenas fora dos regimes autocráticos, ‘representatividade’, a delegação da responsabilidade num representante, a nível local ou nacional, confiando nas decisões que possa tomar, mas em defesa do interesse colectivo.

Fernández Barbudo, professor de Política em Madrid, admite que este sistema pode ter algo de antidemocrático, uma vez que a cidadania não tem capacidade de se autogovernar, for falta de conhecimento e/ou de tempo, e por isso recorre a dirigentes ou políticos profissionais.

Será por isso, que todos estes profissionais da política se preocupam enormemente com os tempos, a começar pelos autocratas (por ser a única coisa em que não mandam), mas mormente nos que agora vivemos, em que tanto se discute o trabalho online em casa, na diminuição dos dias de trabalho, com os CEO’s das corporações a mandar palpites, mas apenas a seu favor, ou a encerrar balcões e mais ‘minudências’ com igual efeito, com outros dos tais profissionais, a reclamar por haver mão de obra em excesso vinda de fora, quando aqui há falta de gente que trabalhe e queira trabalhar, com salários decentes e justos.

Politizar o tempo, até o dos profissionais da política que se julguem fora desse esquema, é um trabalho a atribuir à cidadania, se acompanhado por um trabalho profundo no campo da Educação, pois diz no DN, António Carlos Cortez, professor, poeta e crítico literário, ‘A identidade do Ensino Secundário, grau fundamental na preparação dos futuros quadros superiores do país, só existiria se, no fundo, disciplinas como Português, Filosofia e História, não tivessem sido alvo de simplificações abstrusas nas últimas décadas, tudo em nome de uma ideologia que se reduziu a fazer dos professores “tarefeiros burocratas” e/ou “facilitadores de aprendizagens”’.

E o cientista António Damásio, em entrevista ao DN, a 23 de Dezembro, afirma ‘Um factor que contribui para o aumento da violência prende-se com a desregulação que resulta das redes sociais. Hoje, há a substituição da educação, do tempo pessoal e de reflexão, pela diversão e entretenimento. A única forma que vejo de compensar esta realidade é com aquilo que, de uma forma muito genérica, se descreve como artes e humanidades. Ser educado sem o respeito pela realidade da música, das artes visuais, a realidade da literatura, impõe um empobrecimento extraordinário. Há o risco destas actividades serem olhadas como algo do passado. Mas não o são. Trata-se do nosso real’.

Esta decadência notória e quase generalizada, que arrasta uma decadência, de igual ou maior grau, nas instituições democráticas, promove também um outro fenómeno circunstancial, o populismo de extrema direita, baseado nos mitos de uma qualquer ‘ordem superior à da vontade maioritária’, das comunidades e das suas necessidades reais, quando especialistas e media afirmam que o patrão da X vai tentar a sua ferramenta em todas as eleições que lhe interessam, para conseguir apoio para os partidos com que simpatiza (Publico.es, 25.01.08).

Aliás, um cronista escreveu no final de Janeiro, ‘A democracia converte-se em emocracia’, recuperando praticamente uma afirmação, já com um século, do filósofo Bertrand Russell, ao referir a conjuntura política na época da ascensão do fascismo, para tentar descobrir e mostrar os comportamentos privados de bases culturais que os sustentem e, revelando, grande parte das vezes, o desconchavados que são.

Convém mesmo referir que, ao sairmos à rua para os ‘quefazeres’ diários, tomar um café, e ver se ainda apanhamos um jornal na mesa da pastelaria, não podemos deixar nos doer com as evidentes desigualdades que reflectem bem o que se passa para lá da fronteira, os genocídios, a fome, o desamparo e as violações dos direitos humanos, mais o lento desaparecimento dos serviços públicos, da saúde e da educação, e desejar mesmo um regresso a casa, por a considerarmos o último refúgio da dignidade.

Mas vivemos aqui, numa Europa que parece agora ser o ‘alvo’ de todas as maquinações, políticas e outras, e que não consegue construir uma união política ou económica, mas credível, ‘Devido à persistência em alguns países de agendas nacionalistas, extremas e de uma permanente hostilidade à autonomia estratégica europeia, da parte dos mesmos que hoje exigem maiores contribuições para a defesa comum’, escreveu Luís Castro Mendes, no DN de 25 de Janeiro último, que mereceu também esta sentença de Olivier Bonhomme, no ‘Le Monde’

‘O lento desfazer da Europa’

Olivier Bonhomme, ‘Le Monde’, 24.12 21

E, enquanto cá em baixo se vai prolongando o tempo dos tiradores de selfies, lá do alto, como dizia Walter Benjamim, ‘O Anjo da História olha as ruínas do tempo’.

António M. Oliveira

Não respeito as normas que o Acordo Ortográfico me quer impor

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