Vasco Lourenço e o Legado Ético do 25 de Abril – por Carlos Pereira Martins

Vasco Lourenço e o Legado Ético do 25 de Abril

por Carlos Pereira Martins

Vasco Lourenço

Vasco Lourenço é uma das figuras centrais da história recente de Portugal, não apenas pelo seu papel no Movimento das Forças Armadas (MFA), mas sobretudo pela ética, seriedade e espírito republicano com que desempenhou as suas funções antes, durante e após o 25 de Abril de 1974. Com uma liderança firme e sempre deixando revelar o seu espírito fraterno e de autêntica camaradagem para com os seus iguais, Vasco Lourenço destacou-se como um dos Capitães de Abril que devolveram ao povo português aquilo que lhe havia sido negado durante quase meio século: Liberdade e Democracia.

Como membro activo do MFA, Vasco Lourenço foi uma das vozes determinantes na elaboração do programa revolucionário que visava não apenas derrubar a ditadura do Estado Novo, mas também estabelecer os alicerces de um regime democrático. A sua capacidade de organização muito rigorosa e ao mesmo tempo visionária para conduzir operações complexas, combinada com uma visão ética e estratégica e com uma forte determinação que lhe conferia autoridade mesmo perante os mais altos governantes, revelou-se crucial nos momentos decisivos da Revolução dos Cravos. A sua liderança no MFA, e mais tarde no Conselho da Revolução e no comando da Região Militar de Lisboa e de relevo no Grupo dos Nove, foi pautada por uma conduta exemplar, demonstrando sempre uma profunda preocupação em cumprir os compromissos assumidos com o povo português.

Uma das características mais notáveis de Vasco Lourenço e dos Capitães de Abril foi a recusa em perpetuar o poder militar no governo do país, pois não se tratou de um golpe militar pela conquista do poder como os conhecemos tradicionalmente na América Latina ou noutras ditaduras. 

O 25 de Abril de 1974 foi uma acção militar  mas não militarista. 

Desde o início, o MFA tinha objetivos claros: derrubar o regime ditatorial, garantir a liberdade de expressão, devolver aos partidos políticos a capacidade de elaborar uma nova Constituição e convocar eleições livres. Vasco Lourenço e os seus camaradas sempre compreenderam que a sua missão era transitória. Após cumprirem os pontos essenciais do Programa do MFA, recusaram-se a ficar no poder, na grande maioria, devolveram os galões das mais altas posições militares que envergavam e preferiram  regressar aos quartéis ou à vida civil, numa demonstração inequívoca de elevada ética republicana.

Enquanto comandante da Região Militar de Lisboa e no Conselho da Revolução,  Vasco Lourenço desempenhou um papel fundamental no período de transição que se seguiu ao 25 de Abril. Sob a sua liderança, foi possível manter a estabilidade numa época de grande efervescência social e política. Foi também um dos defensores mais firmes da devolução, como já referido,  do poder aos órgãos civis e do respeito pelas instituições democráticas. A sua postura, sempre orientada pela fraternidade e pelo respeito pelo outro, granjeou-lhe o reconhecimento não só dos seus pares, mas também de amplos sectores da sociedade portuguesa e além fronteiras, por todo o mundo democrático.

A ética e a seriedade de Vasco Lourenço são um exemplo raro de liderança responsável e comprometida com o bem comum. Num tempo em que tantos líderes ao redor do mundo cederam às tentações do poder, Vasco Lourenço mostrou que a verdadeira grandeza reside em saber retirar-se quando a missão está cumprida. Ele e os seus companheiros do MFA foram os alicerces de uma nova era para Portugal, construindo uma democracia que, embora imperfeita, devolveu ao povo português a capacidade de decidir o seu destino.

A história de Vasco Lourenço é, assim, não só a de um homem que participou ativamente na transformação de um país, mas também a de um líder que personificou os ideais mais nobres da República: a liberdade, a igualdade e a fraternidade. O seu exemplo, forjado na ética e na determinação, permanece como um farol para todas as gerações que acreditam no poder transformador da ação coletiva em nome do bem comum.

1 Comment

  1. Concordo absolutamente com esta posição de Carlos Martins. Sempre disse que Vasco Lourenço é o mais importante capitão de Abril, antes e depois do 25 de Abril. Jorge Sales Golias, capitão de Abril.

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