Espuma dos dias — Pode Trump salvar a América de si mesma? – Trump, o Irão e o plano estratégico de Obama. (2/2)  Por Alastair Crooke

Seleção e tradução de Francisco Tavares

6 min de leitura

Pode Trump salvar a América de si mesma? – Trump, o Irão e o plano estratégico de Obama (2/2)

 Por Alastair Crooke

Publicado por em 13 de Janeiro de 2025 (original aqui)

 

 

Em atos de destruição desenfreada, Netanyahu destruiu o status quo predominante, que ele via como uma camisa de forças americana

 

Como um relógio antigo quebrado – com as suas elaboradas engrenagens, rodas de cremalheira e entranhas abertas da sua caixa –, a mecânica do Oriente Médio está igualmente exposta e quebrada. Toda a região está em jogo – Síria, Líbano, Catar, Jordânia, Egipto e Irão.

O plano estratégico original de Obama para conter e equilibrar as energias potencialmente violentas da Ásia Ocidental foi posteriormente entregue à equipa Biden no final do mandato de Obama – e ainda claramente exibiu o imprimatur de Obama até ao seu colapso após 7 de Outubro de 2023.

Netanyahu esmagou deliberadamente a sua mecânica: em actos de destruição desenfreada, destruiu o status quo predominante, que via como uma camisa de forças americana que impedia a realização de um Grande Israel alcançando a sua ‘grande vitória’. Netanyahu estava ressentido com as restrições americanas – embora, ao quebrar o mecanismo existente, paradoxalmente, em vez de libertar Israel, ele pode ter desencadeado dinâmicas que se revelarão muito mais ameaçadoras (ou seja, na Síria).

A pedra angular da ‘região equilibrada’ de Obama estava contida numa carta secreta enviada ao Líder Supremo do Irão em 2014, na qual, como refere o WSJ, Obama propôs a Khamenei esforços conjuntos no Iraque e na Síria contra o Estado islâmico (onde o ISIS controlava o território). Esta acção comum, no entanto, estava subordinada ao facto de o Irão chegar a um acordo nuclear com os EUA.

A carta reconhecia explicitamente as ‘interesses‘ do Irão na Síria: para amenizar as preocupações do Irão sobre o futuro do seu aliado próximo, o presidente Al-Assad, a carta afirmava que as operações militares dos EUA no interior da Síria não tinham como alvo o presidente Assad ou as suas forças de segurança.

O entendimento de Obama com Khamanei, deve-se notar, estendia-se assim implicitamente ao Hezbollah, que se juntou ao Irão na luta contra o ISIS na Síria:

Entre outras mensagens transmitidas a Teerão, de acordo com autoridades dos EUA na época, está que as operações militares dos EUA no Iraque e na Síria não visam enfraquecer Teerão ou os seus aliados“.

É claro que os compromissos de Obama com o Irão eram mentiras: Obama já tinha assinado em 2012 (ou antes), uma Decisão Presidencial secreta (ou seja, uma instrução) para o apoio dos serviços de inteligência dos EUA aos rebeldes da Síria na sua tentativa de derrubar o presidente Assad.

Se o Irão participasse num ‘acordo’ nuclear, a carta de 2014 propunha que os seus ‘interesses’ regionais seriam respeitadas e poderiam estender-se ao Líbano como uma geografia de adjudicação conjunta internacional (como exemplificado na mediação do enviado dos EUA Hochstein sobre as fronteiras marítimas Libaneso-Sírias).

O objectivo deste projecto altamente complexo era a obsessão primordial de Obama: chegar a um estado proto-Palestiniano, embora como outro protectorado administrado internacionalmente, apoiado internacionalmente, e não como um Estado-nação soberano.

Porque insistiu Obama num esquema que era tão anátema para a direita israelita como para os incondicionais pró israelitas americanos? Parece que ele (com razão) desconfiava de Netanyahu e conhecia bem a determinação deste último de impedir que qualquer Estado Palestiniano se concretizasse.

A iniciativa de equilíbrio de poderes de Obama foi uma tentativa indirecta de vincular o Irão e os seus aliados ao conceito de Estado Palestiniano de Obama – isto é, deliberadamente planeada como um ponto de pressão crescente sobre Israel para admitir um Estado. Sem uma pressão intensa sobre Israel, era claro para Obama que um Estado Palestiniano era letra morta.

Netanyahu tinha tornado evidente a sua intenção de ver o esvaziamento completo da presença Palestiniana na Cisjordânia já na década de 1970 (isto ficou claro na entrevista que deu ao autor Max Hastings, que estava a escrever um livro sobre o irmão de Netanyahu).

Netanyahu não gostava e desconfiava de Obama – tanto quanto Obama desconfiava dele.

Na sequência do 7 de outubro de 2023, com o ‘anel de fogo’ (sete ‘guerras’) a aproximar-se de Israel, Netanyahu decidiu quebrar as restrições da camisa de forças. E fê-lo.

Não é certo, no entanto, se a estrutura altamente elaborada de Obama teria alguma vez funcionado. Em todo o caso, Netanyahu – desafiando abertamente a Casa Branca – decidiu anular as ‘restrições’ de Obama-Biden e esmagar todo o projecto de Obama centrado no Irão.

A lógica da destruição em série de Israel na região sugere a Netanyahu, bem como a muitos israelitas e americanos incondicionais, que o Irão está agora “incrivelmente vulnerável” (nas palavras do General Jack Keane), devido à perda da Síria – o nó “central” do Eixo da Resistência.

Axios relata:

Os recentes avanços nucleares do Irão dão ao presidente eleito Trump uma decisão crucial a tomar nos seus primeiros meses no cargo: neutralizar a ameaça [nuclear iraniana] através de negociações e pressões [crescentes]; ou ordenar um ataque militar. Vários conselheiros de Trump admitem em privado que o programa do Irão está tão adiantado que essa estratégia [inicial] pode não ser mais eficaz. Isso torna uma opção militar uma possibilidade real“.

“Depois de o Ministro de Assuntos Estratégicos de Israel, Ron Dermer, se ter encontrado com Trump em Mar-A-Lago em novembro, Dermer saiu a pensar que havia uma grande probabilidade de Trump apoiar um ataque militar israelita contra as instalações nucleares do Irão — algo que os israelitas estão a considerar seriamente — ou mesmo ordenar um ataque dos EUA. Alguns dos principais assessores do presidente Biden defenderam em particular nas últimas semanas atacar as instalações nucleares do Irão antes de Trump assumir o cargo, com o Irão e seus representantes tão enfraquecidos”.

No entanto, isso pode revelar-se uma ilusão. Trump republicou em 7 de Janeiro de 2025, um vídeo na plataforma Truth Social com o Professor Jeffrey Sachs da Universidade de Columbia, no qual ele discutia os esforços secretos da CIA para desestabilizar o governo da Síria e derrubar Assad; a influência de Netanyahu; o papel do lobby israelita em empurrar os EUA para a guerra do Iraque; e as tentativas contínuas de Netanyahu de envolver os EUA num conflito potencial com o Irão. Sachs explicou que as guerras no Iraque e na Síria foram fabricadas por Netanyahu e não tinham nada a ver com “democracia”.

” Até hoje, Netanyahu ainda está a tentar levar-nos a lutar contra o Irão. Ele é um filho da mãe muito sombrio porque nos levou a guerras intermináveis”, disse o Professor Sachs na entrevista republicada.

No entanto, como observa Barak Ravid, “outros próximos a Trump esperam que ele procurará um acordo antes de considerar um ataque“. Quando questionado em novembro sobre a possibilidade de uma guerra com o Irão, Trump respondeu: “tudo pode acontecer, é uma situação muito volátil”.

O que significa então isto para o Irão?

Essencialmente, o Irão tem duas opções: em primeiro lugar, sinalizar aos EUA a sua disponibilidade para entrar numa espécie de novo acordo nuclear com a equipa Trump (um sinal que o seu Ministro dos Negócios Estrangeiros já deu), e depois esperar por uma reunião subsequente bem–sucedida entre Trump e Putin para restabelecer a arquitectura global de segurança do pós-guerra. A partir dessa visão geral de Acordo Global, Teerão pode esperar negociar o seu próprio acordo separado com os EUA.

Claro, isso seria o ótimo.

No entanto, o Embaixador Chas Freeman disse que, embora uma paz sustentável entre os EUA e a Rússia (teoricamente) seja possível, será “muito difícil” de alcançar. Ao que Ray McGovern acrescentou repetidamente que Trump é “suficientemente inteligente” para saber que tem uma mão fraca em relação à Rússia no espaço eurasiano, e que Trump, o realista, tem “peixes maiores para fritar”.

É por isso que Trump e Musk estão a agitar o ‘pote’ geopolítico de forma tão flagrante: por um lado, Canadá, Gronelândia e Panamá como parte dos EUA? Estes podem ser ‘pontos de discussão’ Trumpianos, mas a Gronelândia e o Canadá juntos poderiam mudar o cálculo da alavancagem com a Rússia: está Trump a planear usar alavancagem adicional através do Ártico para ameaçar o controle sobre as fronteiras do norte da Rússia? (É o tempo de voo mais curto para os mísseis dirigidos à Rússia).

E, por outro lado, Musk, paralelamente, iniciou uma tempestade de fogo na Europa com os seus tuits – e o seu convite para uma transmissão ao vivo com Alice Weidel, da AfD. A Alemanha é o coração da NATO e da UE. Se a Alemanha ‘se afastasse’ da guerra com a Rússia – em companhia de outros afastamentos europeus já em andamento –, então Trump poderia plausivelmente acabar com um grande fardo económico (implantação de tropas na UE) que pesaria sobre a economia dos EUA. Como diz o Coronel Doug Macgregor, quantas vezes temos de dizer às pessoas: “os americanos não vivem na Europa – vivemos no Hemisfério Ocidental!”.

Musk efetivamente lançou uma granada (em discurso livre) sobre a hegemonia dos media europeus que simultaneamente controlam rigidamente o discurso em todo o continente e estão a cargo do Estado Profundo Anglo-Saxónico.

Trará isso o acordo com a Rússia e a região centro asiática que Trump procura? Teremos de ver.

A opção alternativa para o Irão é um risco mais elevado (e depende da avaliação da inteligência iraniana quanto à probabilidade de Israel tentar um ataque preventivo contra o Irão): ou seja, o Irão tem a opção de uma nova ‘Operação True Promise’ [n.t o autor parece referir-se aqui aos ataques de abril de 2024 a Israel]. Já não se destina a dissuadir (ao contrário das versões anteriores da True Promise), mas sim, como explica Shivan Mahendrarajah, expondo a ‘improbabilidade da vitória’ e demonstrando o ‘custo inaceitável’ do conflito, desmantelar a narrativa ilusória de Israel de ‘vitória’perpétua.

Em 2003, como Mahendrarajah observou, o Irão propôs aos EUA uma grande barganha‘. Foi rejeitado pela administração Bush. Poderá ser revivido – não através de conversações nucleares, em que o Irão tem a mão mais fraca – mas pelo uso calibrado da força? Seria uma aposta audaciosa e grande.

 

___________

O autor: Alastair Crooke [1949-] Ex-diplomata britânico, fundador e diretor do Fórum de Conflitos, uma organização que advoga o compromisso entre o Islão político e o Ocidente. Anteriormente, era uma figura de destaque tanto na inteligência britânica (MI6) como na diplomacia da União Europeia. Era espião do Governo britânico, mas reformou-se pouco depois de se casar. Crooke foi conselheiro para o Médio Oriente de Javier Solana, Alto Representante para a Política Externa e de Segurança Comum da União Europeia (PESC) de 1997 a 2003, facilitou uma série de desescaladas da violência e de retiradas militares nos Territórios Palestinianos com movimentos islamistas de 2000 a 2003 e esteve envolvido nos esforços diplomáticos no Cerco da Igreja da Natividade em Belém. Foi membro do Comité Mitchell para as causas da Segunda Intifada em 2000. Realizou reuniões clandestinas com a liderança do Hamas em Junho de 2002. É um defensor activo do envolvimento com o Hamas, ao qual se referiu como “Resistentes ou Combatentes da Resistência”. É autor do livro Resistance: The Essence of the Islamist Revolution. Tem um Master of Arts em Política e Economia pela Universidade de St. Andrews (Escócia).

 

Leave a Reply