As sílabas marginais/ao céu sem margens que há nas árvores /Nelson Ferraz

 

 

ao céu sem margens que há nas árvores

à luz sem muros que é linguagem das estrelas

à água sem nome que é chão e nuvem e corpo

aos pássaros todos que são candeias dos inícios

à mulher que é nascente de todos os lugares que são

ao milagre do sol nas florestas que são berço

aos animais confusos que nos olham espantados

com a mudez absoluta dos deuses tristes

a tudo isto que é vida casa e jornada

se curvam todas as faces das palavras possíveis.

a tudo isto que é tudo o que é e se completa

se curvam os bichos os homens e as coisas

mesmo que se quebrem os remos do sossego.

apesar das sucessivas migrações da inteligência

e do gume insano das tempestades absurdas

tudo muda sem nada mudar.

e dir-se-á hoje quando é agora.

e dir-se-á hoje quando for depois.

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