PALCO 251 – RABINDRANATH TAGORE (CALCUTÁ, 1861 – 1941) – por Roberto Merino

 

Aproveito os dias de férias de Natal para reler livros esquecidos. Desta vez uma breve peça de teatro escrita pelo poeta e dramaturgo bengali Tagore, O Carteiro do Rei, seguida por uma coletânea de breves relatos sob o título A Lua Nova

Na peça, o protagonista, um rapaz chamado Amal, por se encontrar doente, e por ordem do seu médico, aiurvédico (antiga medicina indiana dos Vedas) não pode sair da sua casa e do seu quarto, podendo só olhar pela sua janela apenas de vez em quando. Com as pessoas que passam por ali estabelece breves e belos diálogos, entre os quais se destacam os que faz com o «Doioala», vendedor ambulante de requeijinhos artesanais, com a rapariga Sudha que vende flores e os rapazes que jogam diante da sua janela com os seus brinquedos. A todos eles Amal promete segui-los na sua vida futura. Amal tem a ilusão de receber uma carta do rei, que espera que lhe chegue, pois diante da sua janela encontra-se a sede dos correios.  O jovem está extremamente doente e no final, de forma simbólica e metafórica, anuncia-se a chegada da carta do rei, antes de a vida de Amal, expirar, e quando Sudha, a rapariga das flores, chega para dizer que não o esqueceu.

À partida sabemos que o jovem Amal está condenado, e os diálogos são breves momentos da vida, quadros, quase paisagens que descrevem a vida cotidiana da aldeia e das suas gentes.

Neste breve diálogo que se segue entre Amal e o fabricante de queijos, apercebemo-nos de que forma o jovem Amal imagina o mundo exterior:

Cena Quarta

Amal (A) e o Doioala (D)

O Doioala : (Na rua) Bom, bom requeijinho, bom, bom requeijinho!

Omol : Oh, o dos requeijinhos, escuta, oh, o dos requeijinhos!

D : (Entrando): Chamaste por mim rapaz? Queres comprar requeijinhos?

A : Como queres que os compre, se não tenho dinheiro?

D : Então, para que me chamas? Que uma forma de perder o tempo, oh!

A : Se eu pudesse iria contigo…

D : Comigo!? Que estás a dizer?

A : Sim; entra-me uma grande nostalgia quando te escuto a pregoar lá em baixo pelo caminho…!

D : (Deixando no chão o seu balancim) : E tu, que fazes aqui, diz?

A : O Kobiralh não quer que saia e aqui onde tu me vês estou sentado todo o dia…

D : Coitado! Que te passa?

A : Não o sei; como eu não sou sábio, não sei o que tenho. Mas, diz-me tu, Doioala, tu de onde és?

D : Da minha aldeia.

A : Da tua aldeia? E é muito longe a tua aldeia?

D : É ao lado do rio Samli, ao pé dos montes de Pamchmura.

A : Os montes de Pamchmura disseste? O rio Samli? Sim, sim; eu vi uma vez a tua aldeia; mas não sei quando foi…

D : Que tu viste a minha aldeia? Tu estiveste nos montes de Pamchmura?

A : Não, eu nunca estive; mas, acho que vi a tua aldeia… A tua aldeia está debaixo de umas árvores muito altas e muito velhas, não? ao lado dum caminho vermelho, não é certo?

D : Sim, sim, é verdade…

A : E no outeiro o gado está a pastar…

D : E que não há gado na minha aldeia! Digo-te eu…

A : E as mulheres com os seus saris vermelhos, enchem os seus baldes no rio e voltam com eles na cabeça…

D : É mesmo assim. Todas vão buscar água ao rio; mas, não penses que todas têm um sari vermelho que vestir… Pois sim, acredito, tu estiveste alguma vez na aldeia dos doioala, que vendem requeijinhos…

A : Digo-te, Doioala, que nunca lá estive. Mas, no primeiro dia que o kobiralh me permitir sair, quererás tu levar-me?

D : Sim, gostaria muito de que viesses comigo.

A : E vais ensinar-me a cantar o teu pregão, a pôr o balancim ao lombo e a andar pelos caminhos, longe muito longe?

D : Cala, cala… E para que ias tu vender requeijinhos? Não, homem, não. Tu hás de ler livros muito grandes e hás de ser sábio…

A : Não, não; eu não quero ser sábio! Eu quero ser como tu… Hei de ter os meus requeijinhos numa aldeia que está ao pé dum caminho vermelho, e irei vendê-los de corredoira em corredoira… Que bem pregoas tu: «Bom, bom requeijinho, bom, bom requeijinho!» Queres ensinar-me a cantar o teu lindo pregão, diz?

D : Para que queres tu saber o meu pregão? Que coisas tens!

A : Sim, ensina-mo! Gosto tanto de ouvir-te… Eu não te posso explicar o que me passa quando te escuto na volta do caminho, no meio da fileira de árvores… O mesmo que quando escuto os cantos dos melros, tão altos, lá no cimo do céu…

D : Tens umas cousas…; anda toma uns requeijinhos; tem, pega neles…

A : Mas eu não tenho dinheiro…

D : Deixa o dinheiro! Ir-me-ia tão feliz se quisesses colher estes requeijinhos!…

A : Diz-me, Doioala, entretive-te muito?

D : Não, homem, nada. Não sabes tu o contente que me vou. Estás a ver: ensinaste-me a ser muito feliz vendendo requeijinhos… (sai da cena).

No centenário de O Carteiro do Rei de Tagore – PGL

Tagore foi um escritor que muito influenciou escritores chilenos na sua época. No seu livro 20 Poemas de Amor y una Canción Deseperada, Pablo Neruda, no Poema 16, faz uma paráfrase de um poema de Tagore. Foi acusado de plágio, e por estranho que pareça, participaram neste processo, em nada dignificante, três outros grandes poetas chilenos, Volodia Teitelboim, Paulo de Rocka e Vicente Huidobro, todos eles poetas ilustres.

No mundo/mundinho, melhor dito, da literatura, são muitos os casos de grandes rivalidades entre autores, todos eles de grande dimensão.

Não sei de alguma entre os três grandes trágicos gregos, mas já li num documento que Sófocles se levantou durante uma representação, em sinal de luto, quando soube da morte de Eurípedes (406 aC), que se encontrava no exílio na Macedónia.

Mas, desde a época de Shakespeare e Marlowe até os nossos dias atuais, a história da literatura está repleta de rivalidades literárias. Essas disputas muitas vezes ultrapassaram as páginas dos livros e tornaram-se pessoais, alimentando uma rivalidade que durava anos, até mesmo décadas.

Alguns casos notáveis: a rivalidade entre Hemingway e Joyce começou quando Hemingway criticou publicamente o estilo de Joyce, chamando-o de “mau escritor”. Joyce não gostou das críticas e respondeu com uma série de comentários mordazes sobre Hemingway.

Em Espanha foram celebres as rivalidades entre Francisco de Quevedo e Luis de Gôngora, em pleno Siglo de Oro.

Também Miguel de Cervantes teve um rival à altura, o dramaturgo Lope de Vega.

Jean Paul Sartre e Albert Camus conheceram-se durante a resistência em Paris e tornaram-se amigos íntimos. Ambos cultivaram o existencialismo na filosofia e na literatura, apesar de Sartre valorizar Camus apenas como escritor. Nos anos  50 eram as duas figuras intelectuais mais importantes do seu tempo.

Também sabemos de uma bofetada em 1976, entre os escritores sul-americanos, Mario Vargas Llosa e Gabriel García Márquez.


Notas: 

Tagore participou do movimento nacionalista indiano e era amigo pessoal de Mahatma Gandhi que o chamava Sentinela da Índia. Como escritor, tornou-se famoso na Índia já nos primeiros anos da sua carreira, alcançando notoriedade no Ocidente quando da publicação dos seus textos traduzidos para o inglês, muitos deles pelo próprio autor. Tagore ganhou a admiração de escritores como William Butler Yeats, que assinou a apresentação de seu livro Gitangali na edição britânica. Em 1913, torna-se o primeiro escritor asiático a ser agraciado com o Prêmio Nobel de Literatura.(Wikipedia)

Na versão inglesa o título da obra é The Post Office. A francesa, traduzida por André Gide, intitula-se Amal et la lettre du Roi.  Juan Ramón, e também Cecília Meireles, decidiram intitulá-la O Carteiro do Rei (El cartero del Rey).

Em 1986 a Escola de Formação Artística «Seiva Trupe» do Porto-Portugal, sob a direção de Fernando R. Umanha, realizou a encenação desta obra.

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