Carlos Paredes: Um Século de Genialidade e Alma Portuguesa
por Carlos Pereira Martins
Carlos Paredes
Em Março de 2025 celebra-se o centenário de Carlos Paredes, figura maior da música portuguesa, cuja obra imortal transformou a guitarra portuguesa num símbolo universal de emotividade, virtuosismo e identidade cultural. Nascido a 16 de Fevereiro de 1925, em Coimbra, Carlos Paredes herdou do pai, Artur Paredes, e do avô, Gonçalo Paredes, um legado musical que redefiniu os horizontes da guitarra portuguesa. No entanto, foi ele quem elevou este instrumento a um patamar nunca antes alcançado, tornando-se não só um intérprete exímio, mas também um verdadeiro embaixador cultural de Portugal.
Carlos Paredes não tocava apenas guitarra portuguesa; ele comunicava através dela. Das mãos de Carlos Paredes, atrevo-me a dizer que saía a perfeição e a alma da guitarra portuguesa !
Cada nota, cada dedilhar era carregado de uma expressividade única, capaz de transmitir tanto melancolia como júbilo, tanto introspeção como celebração. A perfeição com que dominava o instrumento não era fruto apenas de talento inato, mas também de um rigoroso compromisso com a técnica e a emoção. Ele dizia que “a guitarra tem uma alma”, e talvez tenha sido esta crença que o levou a compor peças que pareciam falar diretamente ao coração de quem as ouvia.
A sua música, essencialmente instrumental, transcendeu fronteiras e estilos, sendo descrita por muitos como poesia sem palavras. Obras como “Verdes Anos”, “Canção Verdes Anos”, “Dança dos Camponeses”, e “Divertimento” são exemplos perfeitos da sua capacidade de aliar a complexidade técnica à simplicidade emocional. “Verdes Anos“, em particular, tornou-se um hino da melancolia portuguesa, conhecido tanto em Portugal como no estrangeiro, em parte devido ao filme homónimo de Paulo Rocha, para o qual compôs a banda sonora.
A vida de Carlos Paredes não foi feita apenas de música. Comunista assumido, filiou-se no Partido Comunista Português (PCP) durante a ditadura salazarista, um posicionamento que lhe trouxe grandes dificuldades pessoais e profissionais. Em 1958, foi preso pela PIDE (Polícia Internacional e de Defesa do Estado) devido às suas atividades políticas, passando 18 meses na prisão.
Este período de encarceramento não quebrou o espírito de Carlos Paredes. Pelo contrário, reforçou a sua convicção na luta pela liberdade e pela justiça social, valores que, de certa forma, se reflectiam na sua música. Após a Revolução de Abril de 1974, tornou-se, aberta e popularmente, um símbolo de resistência e de esperança, não apenas pelas suas ideias, mas também pela forma como a sua arte parecia encapsular o sentimento de libertação vivido pelo povo português.
Se a guitarra portuguesa sempre foi associada e andou de lado a lado com o fado e a alma nacional, Carlos Paredes foi responsável por alargar os seus horizontes. A sua abordagem instrumental levou este instrumento, tradicionalmente ligado à melancolia do fado, a outros contextos e géneros musicais. Colaborou com músicos de diferentes estilos, desde a música clássica até ao jazz, e apresentou a guitarra portuguesa em palcos internacionais, levando-a a países como França, Alemanha e Estados Unidos.
O seu trabalho foi amplamente reconhecido fora de Portugal, sendo frequentemente elogiado por músicos e críticos de todo o mundo. A sua música era vista como uma janela para a essência portuguesa, mas também como uma linguagem universal que podia ser apreciada por qualquer pessoa, independentemente da sua origem e da sua maior ou menor base cultural.
Carlos Paredes gravou vários álbuns ao longo da sua carreira, mas alguns destacam-se pela sua importância histórica e artística. “Guitarra Portuguesa” (1967) é talvez o seu trabalho mais icónico, um verdadeiro marco na música portuguesa que continua a inspirar gerações de músicos. Seguiram-se outros discos, como “Movimento Perpétuo”(1971) e “Concerto em Frankfurt” (1983), cada um revelando novas facetas do seu génio criativo.
Infelizmente, a doença de Parkinson afastou-o dos palcos nas últimas décadas da sua vida, mas mesmo então o seu impacto permaneceu inalterado. Carlos Paredes faleceu em 2004, mas deixou um legado que continua a ressoar no presente, tanto em Portugal como no estrangeiro.
No centenário do nascimento de Carlos Paredes, celebra-se não apenas a sua música, mas também a sua vida e o seu contributo para a cultura portuguesa. Ele não foi apenas um músico; foi um poeta, um contador de histórias, um homem que soube usar as cordas da guitarra para tocar as cordas do coração humano.
Neste ano de 2025, iniciativas culturais, concertos e exposições serão realizadas em sua homenagem, relembrando a importância de um artista que levou Portugal ao mundo e trouxe o mundo a Portugal para o ouvir. Celebrar Carlos Paredes é celebrar a alma portuguesa em toda a sua profundidade e beleza.
Que as suas melodias continuem a ecoar, inspirando gerações futuras e recordando-nos que, nas palavras do próprio mestre, “a guitarra portuguesa é a nossa voz, a nossa história, e o nosso futuro.”