Espuma dos dias — A visão distorcida de Peter Thiel para a presidência de Trump. Por Aaron R. Hanlon

Seleção e tradução de Júlio Marques Mota

4 min de leitura

A visão distorcida de Peter Thiel para a presidência de Trump

O bilionário da tecnologia acredita que Trump ajudará a revelar verdades ocultas – como Jeffrey Epstein realmente morreu. Mas por baixo do seu conspiracionismo reside uma muito real teoria política e muito perigosa.

 Por Aaron R. Hanlon

Publicado por  The New Republic em 13 de Janeiro de 2025 (original aqui)

 

Peter Thiel, o bilionário empreendedor de tecnologia, capitalista de risco e proeminente apoiante do presidente eleito Donald Trump, também é uma espécie de teórico político. O seu trabalho mais recente é um ensaio no Financial Times intitulado “Um tempo para a verdade e a reconciliação“, um assentimento à Comissão de Verdade e Reconciliação da África do Sul.

O leitor pode questionar-se sobre quais as injustiças da América contemporânea para Thiel, que sejam análogas ao apartheid. O encarceramento desproporcional de negros americanos? O empobrecimento dos nativos americanos? Dívida médica paralisante? Aumento da falta de casas para habitar?

Não. Na verdade, Thiel não tem muita certeza de quais injustiças exigem reparação — mas ele tem a certeza de que estamos prestes a descobrir. “O regresso de Trump à Casa Branca pressagia a revelação dos segredos do antigo regime”, escreve ele. As verdades ocultas que ele gostaria que soubéssemos são respostas para perguntas como: O financeiro e agressor sexual de crianças Jeffrey Epstein realmente morreu por suicídio? O que é que realmente aconteceu no assassinato de John F. Kennedy? Anthony Fauci “suspeitou que a Covid surgiu de uma investigação financiada pelos contribuintes dos EUA ou de um programa militar chinês adjacente?”

Como Thiel o vê, o segundo governo Trump promete “os meios mais pacíficos de resolver a guerra da velha guarda na internet, uma guerra que a internet venceu”. As instituições cívicas — “as organizações dos media, burocracias, universidades e ONGs financiadas pelo governo” — perderam o poder de policiar a verdade, e agora vem Trump, que, com “desclassificações fragmentadas”, pode responder a todas as nossas perguntas sobre quem realmente matou Epstein e JFK.

Os críticos da coluna de Thiel dizem sobre o artigo de Thiel que está para “além das loucuras”, ou ainda como uma “versão editada de um daqueles e-mails lunáticos que jornalistas recebem às vezes com 8 fontes diferentes em 9 cores diferentes”, uma peça “que replica perfeitamente a experiência de ser encurralado por um viciado em cocaína todo suado por falta de cocaína numa  festa em Austin, Texas”.

Essas são falas engraçadas, mas acho que é um erro rejeitar Thiel tão facilmente. Por trás do seu conspiracionismo está uma teoria política de fundo: a crença equivocada segundo a qual  a liberdade absoluta de informação por meio de uma internet totalmente desregulamentada pode levar-nos a sair do impasse  da democracia liberal .

O artigo  de Thiel, na qual ele lamenta que “a política de identidade se coloca em litígio infinitamente com a história antiga”, pega numa série de ideias expressas no seu ensaio de 2007 “The Straussian Moment“, que argumenta que a modernidade liberal racional é entorpecedora e está condenada. “Não pode haver acomodação real com o Iluminismo”, escreve ele, “já que muitos de seus  habituais e fáceis clichês se tornaram falsidades mortais no nosso tempo”.

Em particular, refere a tendência do Iluminismo para ignorar as questões da natureza humana, cujas respostas revelam a nossa infinita capacidade de violência. Thiel vê “a maquinaria constitucional da América” como uma barreira a “um caminho direto para ir em frente” a partir do estado enfraquecido e confuso do liberalismo iluminista no século XXI. A violência que preocupa Thiel é aquilo a que o seu mentor intelectual, o falecido teórico político de Stanford, René Girard, chamou violência mimética, na qual desejamos por imitação o que os outros desejam, gerando rivalidades miméticas que, como diz Thiel, podem “escalar para situações de violência ilimitada”.

Em termos mais concretos, Thiel considera o agonismo comum da política norte-americana perigoso e dúbio. Numa entrevista de 2019, disse: “Gostaria de viver num mundo menos político, onde houvesse menos política, mas também gostaria que fôssemos honestos sobre o quão terrível é a política… não é uma coisa boa”. Tal como o seu recente ensaio, “O Momento Straussiano” também imaginou uma grande revelação da verdade: “Nunca nos devemos esquecer que um dia tudo será revelado, que todas as injustiças serão expostas e todos aqueles que as perpetuaram serão responsabilizados”.

A pergunta que deveríamos fazer a Thiel, uma pessoa muito rica e muito influente, onde é que se ganharia mais credibilidade para as pessoas, se na  internet fazendo apenas perguntas sobre a Covid-19 ou se nos centros de controle e prevenção de doenças ou no departamento de Epidemiologia da Johns Hopkins : o quê, então? Como seria uma combinação de” menos política”, uma internet ainda mais irrestrita e um enfraquecimento das organizações dos media, das universidades e das agências governamentais?

Universidades, organizações dos media,  burocracias e organizações não-governamentais servem como guardas de informação. Essas instituições cívicas, é justo dizer, ultimamente não conseguiram sustentar a confiança popular, mas é muito difícil imaginar como uma comissão do governo Trump sobre, digamos, se o Covid-19 era um “trabalho interno” ajudaria a restaurar essa confiança.

Se o pós-11 de Setembro foi para Thiel um “momento Straussiano”, agora é um momento pós-moderno, o momento de dar um golpe definitivo contra o liberalismo iluminista e as instituições que reproduzem as suas normas, incluindo a própria democracia americana. Mas a visão de Thiel de uma “libertação” do chamado “Complexo de Supressão de ideias distribuídas” significaria não um acesso mais democratizado e direto à verdade, mas, mais provavelmente, uma ideia hipermediatizada da “verdade” que assume o caráter de teoria da conspiração.

Thiel lamentou que “nos últimos 40 ou 50 anos tenha havido uma mudança da exterioridade … fazendo coisas no mundo real … para o mundo interior.” Penso que já vimos o suficiente, desde a “intelectual internet subterrânea” a mover-se em direção ao conspiracionismo até à sobrecarga de desinformação em X de Elon Musk e no Facebook de Mark Zuckerberg, para entender que ainda mais disso não significaria “menos política” ou “mais verdade”, mas sim um cenário de informação vertiginoso em que qualquer pacote de informação é tão bom quanto o próximo e tudo é política.

Mesmo como professor — uma parte do pernicioso ancien régime, como Thiel provavelmente diria — simpatizo com o descontentamento popular com as instituições cívicas, incluindo as universidades. O colapso da credibilidade das instituições que preservam e geram conhecimento é, em parte, causado por nós próprios. Tenho as minhas próprias frustrações com o que muitas vezes parece uma investigação académica motivada pela falta de curiosidade.

Mas também penso que a alternativa que Thiel propõe só sairia pela culatra em relação aos princípios que o próprio Thiel declarou, principalmente no meio da nossa obsessão pela IA. “A mania que temos em torno da inteligência artificial”, disse Thiel em 2019, “é porque representa a proposição de que os humanos não devem pensar. Queremos que as máquinas pensem, mas é porque estamos num mundo onde se considera que os indivíduos já não dispõem de  qualquer tipo de poder intelectual.… Podemos talvez acreditar na sabedoria das multidões, podemos acreditar em big data, podemos  acreditar em algum tipo de processo mecanicista, mas não acreditamos na mente.”

Posso perceber como é que Thiel pode passar da sua posição contrailuminista em “O Momento Straussiano” para esta reflexão sobre a IA e o seu ensaio sobre a “verdade e a reconciliação”. Libertar a Internet teoricamente poderia dar-nos algo como o contra-iluminismo kantiano da “emergência do homem da sua menoridade auto-imposta”, um apelo à confiança em si mesmo e no seu intelecto em detrimento de instituições corruptas — a “liberdade de fazer uso público da sua razão em todos os domínios”. Mas estou cético de que isso acontecesse na prática. Em vez de alcançarmos uma maior confiança no espírito e na consciência da verdade, passaríamos a ter fé num dilúvio inevitável de informação sem sentido.

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O autor: Aaron R. Hanlon é Professor Associado de Inglês no Colby College e diretor do Programa Ciência, Tecnologia e Sociedade. Lecionou anteriormente no departamento de Inglês da Universidade de Georgetown durante três anos. Ele também é consultor e ex-diretor de laboratório do projeto Connected Academics de Georgetown (P. I. Kathryn Temple), uma bolsa conjunta da MLA/Mellon Foundation para explorar opções mais amplas de treinamento de doutorado e carreira para estudantes de pós-graduação em Humanidades. É especialista em Literaturas britânicas e transatlânticas do século 18, bem como literatura e cultura do Iluminismo, com interesses particulares em epistemologia, escrita científica, teorias de excepcionalismo, sátira, ficcionalidade e romance. Juntamente com o seu trabalho académico, escreve ensaios nacionais sobre política, ensino e ensino superior, com publicações no The New York Times, The New Republic, The Atlantic, Salon, The Los Angeles Review of Books, The Chronicle of Higher Education, The Huffington Post, Alternet e MSN, entre outros. Ele também escreve “Exegetic Rap Blog”, que apresenta análises lúdicas da música rap como modelos instrutivos para a crítica literária e interpretação. Concluiu o seu doutoramento em inglês na Universidade de Oxford em 2012 e é licenciado anteriormente pela Universidade Bucknell e pelo Dartmouth College.

 

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