PALCO 252 – TÃO LONGE DE DEUS – “Pobre México. Tão longe de Deus e tão perto dos EUA.” (*) – por Roberto Merino

 

Muitas vezes escutei o meu pai citar esta frase. Com a entronização de Trump, rodeado pela sua corte de multimilionários, a expressão já não se reduz apenas ao México, mas estende-se à vizinha  Groenlândia, ao vizinho Canadá, ao dividido Panamá, à Europa, e ainda não se lembrou dos Açores, das suas nove ilhas e das bases americanas. 

Trump é, sem dúvida, uma ameaça global que ainda está a começar. Entre as primeiras medidas: o abandono da OMS, novas reformas na contratação do Estado, na política tarifária da maior economia do mundo, na ação climática e na ideologia de gênero. 

Já começaram deportações, e Trump decretou um estado de emergência na fronteira com o México, exigindo que “todas as entradas ilegais sejam impedidas e arranque o processo de deportar milhões e milhões de criminosos”, o fim do direito à cidadania de qualquer criança que nasça em território norte-americano, mesmo que tenha pais imigrantes em situação ilegal. Medida que enfrenta um obstáculo grande, pois este direito está consagrado na 14.ª emenda da Constituição norte-americana, o que dá armas legais a quem pretender combater judicialmente esta ordem executiva. 

Relativamente à ordem executiva de abandonar a Organização Mundial de Saúde (OMS) durante os próximos 12 meses, Trump culpa a organização de uma má gestão da pandemia de Covid-19. Trump esteve sempre em conflito com as restrições defendidas pelos especialistas e foi impulsionador de movimentos negacionistas que recusavam a proteção contra a doença. 

Entre as medidas mais suaves está a de renomear o Golfo do México como Golfo da América. Preocupantes são as suas medidas no campo de proteção do ambiente e das alterações climáticas e uma promessa antiga de remover os EUA do acordo de Paris. 

Também a luta contra o aborto e movimentos de igualdade de gênero. 

No primeiro dia do seu mandato o novo Presidente dos EUA anunciou o perdão para 1.500 pessoas envolvidas no ataque ao Capitólio, de 6 de janeiro de 2021, a quem não chamou condenados, mas sim “reféns”. 

E estamos apenas no começo! 

Para quem revê os dados relativos à vida no EUA, basta citar apenas alguns para confirmar que o país é um país miserável, em termos humanos, senão vejamos: 

Mais de 770 mil pessoas foram consideradas sem-teto nos Estados Unidos em 2024, de acordo com um relatório apresentado nesta sexta-feira (27) pelo Departamento de Habitação e Desenvolvimento Urbano do país. Os dados representam um aumento de 18% em relação a 2023. A viver nas ruas ou em abrigos, a população sem-teto nos Estados Unidos aumentou 12% relativamente a 2022, o que, em grande medida, se deve ao forte aumento dos que «ficaram sem casa pela primeira vez». O número de sem-abrigo nos Estados Unidos atingiu o nível mais alto desde que começou a haver registo da situação, em 2007, segundo revela um estudo do Departamento da Habitação e Desenvolvimento Humano (HUD, na sigla em inglês). A isto não serão alheios o aumento dos preços da habitação e o decréscimo na ajuda prestada durante o período da Covid-19. 

Risco de pobreza: Este é um dos grandes paradoxos dos nossos tempos: os Estados Unidos, país mais rico do mundo, têm alguns dos piores índices de pobreza no grupo dos países desenvolvidos. 

Mais de meio século depois de o presidente Lyndon B. Johnson ter declarado “guerra incondicional à pobreza”, os EUA ainda não descobriram como vencê-la. 

Desde a declaração de Johnson, em 1964, o país teve conquistas surpreendentes, como chegar à Lua ou gerir a internet. Entretanto, nesse período, conseguiu uma tímida redução no índice de pobreza, que caiu de 19% para cerca de 12%. Isso significa que quase 40 milhões de americanos vivem abaixo da linha oficial de pobreza. (Gerardo Lissardy-Role, da BBC News Mundo em Nova York). Enquanto 11% das crianças brancas nos EUA vivem na pobreza, a mesma taxa chega a 32% para crianças negras e 26% para crianças latinas, segundo dados do censo levantado pelo Centro de Dados Kids Count. 

Os EUA tinham a maior mortalidade infantil no mundo desenvolvido, pois a expectativa de vida de seus cidadãos era menor e menos saudável do que em outras democracias ricas, segundo indicou no final de 2017 o então relator especial das Nações Unidas para a pobreza extrema e direitos humanos, Philip Alston. 

E também que as suas taxas de pobreza e desigualdade estavam entre as piores no clube dos países ricos da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), incluindo uma taxa de encarceramento entre as mais altas do mundo. 

“No fim das contas”, afirmou ele, “particularmente em um país rico como os EUA, a persistência da pobreza extrema é uma escolha política feita pelos que estão no poder”. 

Por que os EUA têm os piores índices de pobreza do mundo desenvolvido – BBC News Brasil 

 

E assim continuará a ser, dado que os convidados ao banquete de Trump não desistem dos seus interesses! 

A morte de Jimmy Carter, nos últimos dias de dezembro de 2024, obrigou-me  a rever as notícias aparecidas sobre ele na imprensa nacional e internacional. Foi unânime o sentimento de perda e o respeito pelo seu governo (1977-1981), patente em todos os discursos e mensagens mundiais. De destacar a sua luta pelos Direitos Humanos, o prêmio Nobel da Paz que lhe foi atribuído pelos seus esforços para obter soluções pacíficas para conflitos, que fizeram com que tivesse ganho reconhecimento global pelo seu trabalho na política externa.  Foi durante a sua governação que se assinou o Tratado que garantiu o controle do Canal do Panamá pelo Panamá a partir de 1999, até então sob a administração dos EUA. (*) 

Os Tratados Torrijos-Carter (às vezes referidos no singular como o Tratado Torrijos-Carter) são dois tratados assinados entre os Estados Unidos e o Panamá em Washington, D.C. em 7 de setembro de 1977, anulando o Tratado Hay-Bunau-Varilla, assinado em 1903. 

Em 1982 foi fundado o Centro Carter pelo ex-presidente e pela sua esposa Rosalynn Carter, organização sem fins lucrativos que, entre outras atividades, atua como observador em processos eleitorais, faz o papel de mediador em crises internacionais e reforça os sistemas nacionais, regionais e internacionais dedicados à democracia e aos direitos humanos. Ao mesmo tempo, encabeça programas para erradicar várias enfermidades presentes na América Latina e/ou a África. (wikipedia) 

Dificilmente voltaremos a ter uma figura assim na Presidência dos EUA. 

Finalmente lembrar, nunca é demais, que passam hoje, 27/01/25, 80 anos sobre a data de libertação de Auschwitz: “Os sobreviventes estão a enfrentar uma vaga de antissemitismo comparável à dos anos 30 e 40” . Pelo menos 1,3 milhões de pessoas foram deportadas para Auschwitz, o campo de concentração que os nazis construíram apenas nove meses depois de tomarem a Polónia. Dessas pessoas, 1.1 milhões morreram, e 900 mil eram judeus. (Expresso – 27/01/25)

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Nota: 

(*) Famosa frase do general Porfirio Diaz (1830-1915), que governou o México durante mais de 30 anos.

 

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