ANTÓNIO GEDEÃO (1906-1997), “AS PALAVRAS ESCOLHIDAS”

(1906 – 1997)

 

 

AS PALAVRAS ESCOLHIDAS

 

Não sei, não sei, não, não sei,

não sei, nem ninguém o sabe,

porque este dever me cabe,

dever ou devir, não sei.

Outros, que um dia virão,

saberão e entenderão

o que nenhum de nós sabe.

Outros dirão o motivo

por que é que me exprimo assim,

por que luto e por que vivo

tão alheado de mim.

Por que se impõe, por que oprime

este martírio comum,

esta expiação sem crime

na cela de cada um.

Por que, sem escolha, me entrego

nas palavras escolhidas,

sementes evoluídas

cumprindo um destino cego.

Tudo então será fácil.   Tudo.

E todos entenderão

Todas as gotas deste caudal mudo

no mesmo longo leito correrão.

Então se entenderá que a voz do poeta,

que o metal da trompete e as tintas do antraceno,

que o silvo do motor rasgando o espaço pleno,

que o choque do neutrão da experiência secreta,

que o modo de sentir, de rir, de querer, de amar,

tudo é sinal e símbolo de um coração diferente.

E então todos dirão:

Claro! Evidentemente!

 

(de “Teatro do Mundo”, 1958)

Leave a Reply