É frequente ouvirmos estas expressões Sinto o coração partido ou Parte-se-me o coração. Há, com efeito, uma doença cardíaca chamada Síndrome do coração partido, também denominada Síndrome do estresse, Cardiomiopatia catecolaminérgica ou ainda Balonamento apical transitório do ventrículo esquerdo. No Japão dão-lhe o nome de Sindrome de takotsubo, em razão de o movimento da parede anterior e da base do ventrículo esquerdo se assemelhar a um takotsubo, que é uma armadilha utilizada no Japão para pescar polvo. Trata-se de uma doença rara, que pode provocar sintomas semelhantes aos do Enfarte do miocárdio: dor no peito, dificuldade de respirar, vómitos, cansaço, palpitações cardíacas, tonturas… Não sendo uma doença ainda completamente esclarecida, sabemos que tem uma forte componente psicológica e pode ser causada por estresse emocional muito intenso e traumas poderosos, como a perda inesperada de um familiar, o diagnóstico de uma doença grave, processos de separação, abalos financeiros e outros. Estes traumas levam a uma libertação aguda e intensa de hormonas catecolamínicas como adrenalina, noradrenalina e dopamina, as quais produzem espasmos das artérias coronárias, disfunção microvascular e lesões do músculo cardíaco, que por sua vez acarretam uma diminuição ou irregularidades da sua contractilidade. De uma forma simplista, podemos dizer que é uma espécie de paralisia da metade inferior do coração. Daí, o nome de coração partido. Na minha clínica privada penso só ter encontrado um caso. Se é que o era realmente, mas tudo leva a crer que sim.
Um dia, entra-me no consultório uma mulher relativamente nova, pequena e magra, vestida de preto, tímida, de trato muito doce, aparentemente serena, mas carregando no rosto uma dor e tristeza imensas. Tinha perdido um filho de vinte e poucos anos num acidente de viação. As queixas que apresentava eram um tanto vagas, mas chamavam a atenção para a possível existência de um problema cardíaco. O exame, sobretudo ecocardiográfico, não deixava dúvidas. Havia sinais de uma doença eventualmente isquémica, isto é, uma doença da família do enfarte e da angina de peito, mas com características invulgares e difíceis de interpretar. Como este quadro não parecia clinicamente grave e já tinha uma evolução de mais ou menos duas semanas, a doente não foi internada, mas foi submetida a todos os exames que a situação exigia, não se chegando a confirmar a existência da tal doença isquémica. Conhecida a história da doente, a favorável evolução da enfermidade e as sugestivas alterações ecocardiográficas, chegámos à conclusão de que seria mesmo o malvado Síndrome de takotsubo, que aqui veio parar tão longe.
Acompanhei esta mulher durante alguns anos, e embora as alterações cardíacas fossem desaparecendo, a dor e a tristeza que lhe carregavam o rosto acentuavam-se de ano para ano. De ano para ano, os seus olhos sumiam-se cada vez mais lá no fundo das órbitas. Um dia chegou-me a notícia de que esta paciente tinha falecido. Parei um pouco para pensar, procurei na memória aquele rosto inesquecível, e não me foi difícil concluir que esta mãe não tinha o coração partido, porque as coisas partidas, por vezes, ainda se emendam. Esta mãe tinha o coração rasgado de alto a baixo.