Seleção e tradução de Francisco Tavares
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A solução “às avessas” do maior showman (geopolítico)
Publicado por
em 6 de Fevereiro de 2025 (original aqui)
Putin sugeriu esta semana que o conflito na Ucrânia poderia terminar em semanas, Então Trump pode não ter uma longa espera.
Como fazer o impossível? A América é instintivamente uma potência expansionista, necessitando de novos campos para conquistar; novos horizontes financeiros para dominar e explorar. Os EUA são construídos dessa forma. Sempre o foram.
Mas – se você é Trump, querendo retirar-se das guerras na periferia do império, mas ainda assim querendo também, lançar uma imagem brilhante de uma América musculosa em expansão e liderando a política e as finanças globais – como fazê-lo?
Bem, o presidente Trump – sempre o showman – tem uma solução. Desdenhar a ideologia intelectual agora desacreditada da hegemonia global americana; sugerir, em vez disso, que essas guerras anteriores eternas nunca deveriam ter sido realmente ‘as nossas guerras’; e, como Alon Mizrahi avançou e sugeriu, começou a recolonizar aquilo que já estava colonizado: Canadá; Gronelândia; Panamá – e também a Europa, é claro.
Assim, a América será maior; Trump agirá com musculosidade decisiva (ou seja, como na Colômbia); fará um grande ‘show’ das coisas, mas, ao mesmo tempo, comprimirá o interesse de segurança dos EUA para centrar-se no Hemisfério Ocidental. Como Trump continua a fazer notar, os americanos vivem no ‘hemisfério ocidental’, não no Médio Oriente ou em outro lugar.
Assim, Trump tenta separar–se da periferia da guerra expansionista americana – ‘o exterior’ – para proclamar que o ‘interior’ (isto é, a esfera do hemisfério ocidental) se tornou maior e é inquestionavelmente americano. E é isso que importa.
É uma grande mudança, mas tem a virtude de começar a ser reconhecida por muitos americanos como um reflexo mais preciso da realidade. O instinto americano permanece expansionista (isso não muda), mas muitos americanos defendem um foco nas necessidades domésticas americanas e na sua ‘vizinhança próxima’.
Mizrahi chama a este ajustamento às avessas ‘auto-canibalização’: a Europa faz parte da esfera de interesse Ocidental. De facto, a ‘Europa’ considera-se a si mesma como a sua progenitora, mas a equipa Trump decidiu recolonizá–la – ainda que numa linha à Trump.
Robert Cooper, um diplomata britânico de alto escalão enviado a Bruxelas, cunhou em 2002 o termo imperialismo liberal como o novo propósito da Europa. Era para ser o imperialismo do poder suave. No entanto, ainda assim Cooper não conseguiu abandonar o ‘orientalismo do velho império’ europeu, escrevendo:
“O desafio para o mundo pós-moderno é habituar-se à ideia de padrões duplos. Entre nós, operamos com base em leis e segurança cooperativa aberta. Mas quando se trata de estados mais antiquados fora do continente pós–moderno da Europa, precisamos de voltar aos métodos mais ásperos de uma era anterior – força, ataque preventivo, engano, tudo o que for necessário para lidar com aqueles que ainda vivem no mundo do século XIX de cada Estado por si mesmo. Entre nós, no entanto, mantemos a lei: mas quando estamos a operar na selva, devemos também usar as leis da selva”.
A visão de mundo de Cooper foi influente no pensamento de Tony Blair, bem como no desenvolvimento da Política Europeia de Segurança e Defesa.
No entanto, a elite da UE começou de forma otimista a considerar-se como tendo o estatuto de ‘império’ (real) de topo (influência global),com base no seu controlo regulamentar de um mercado de 400 milhões de consumidores. Não funcionou. A UE adoptou o estratagema de Obama que prometia um quadro de ‘controlo mental’ que afirmava que a realidade pode ser ‘criada’ através de narrativas geridas.
Os europeus nunca foram devidamente informados de que um império transnacional da UE implicava (e exigia) a renúncia à sua tomada soberana de decisões parlamentares. Imaginavam, antes, que estavam a aderir a uma zona de comércio livre. Em vez disso, estavam a ser levados para uma identidade da UE de modo furtivo e pela gestão cuidadosa de uma ‘realidade’ da UE confeccionada.
Essa aspiração do Império liberal Europeu – na sequência do ataque cultural de Trump em Davos – parece muito passada de moda. As atmosferas sugerem antes a passagem de um espírito [zeitgeist] cultural da época para outro.
Elon Musk parece ter a tarefa de desligar a Alemanha e a Grã-Bretanha da velha visão de mundo para a nova. Isso é importante para a agenda de Trump, pois esses dois estados são os principais agitadores da guerra para sustentar uma primazia global – e não do Hemisfério Ocidental. No entanto, os fracassos na tomada de decisões da Europa nos últimos anos fazem da Europa um alvo óbvio para um presidente determinado a uma mudança cultural radical.
Há precedentes para este estratagema às avessas de Trump: A Velha Roma também se retirou das suas províncias imperiais periféricas para se concentrar no seu núcleo, quando guerras distantes esgotaram demasiados recursos no centro, e o seu exército estava a ser superado no terreno. Roma nunca admitiria abertamente a retirada.
O que nos leva de volta à ‘solução radical às avessas’ de hoje: parece consistir em ‘ir como um turbilhão demente’ internamente – que é o que mais importa para a sua base – e, no âmbito internacional, projetar confusão e imprevisibilidade. Continuar a repetir os slogans ideológicos e as estatísticas contra-factuais do antigo regime, mas depois encorajá-los com ocasionais comentários contrários (como dizer, em referência ao cessar– fogo em Gaza, que é ‘a guerra deles [de Israel]’, e que os interesses de Israel podem nem sempre ser os dos EUA e, aparentemente como um aparte – que Putin pode já ter decidido ‘não fazer um acordo’ sobre a Ucrânia).
Desdenhar Putin como um perdedor na Ucrânia foi talvez mais dirigida ao Senado dos EUA e as suas audiências de confirmação em curso. Trump fez esses comentários dias antes de Tulsi Gabbard enfrentar as audiências no Senado. Gabbard já é criticada pelos’ falcões ‘dos EUA por supostamente manter sentimentos ‘pró-Putin’, além de ser submetida a uma campanha de insultos dos media pelo estado profundo [deep state] [1].
O aparente desrespeito de Trump para com Putin e a Rússia (que causou raiva na Rússia) foi dito principalmente para os ouvidos dos senadores dos EUA? (o Senado é o lar de alguns dos mais ardentes ‘nunca-Trumpistas’).
E os comentários chocantes de Trump sobre a ‘limpeza’ dos palestinianos de Gaza para o Egipto ou a Jordânia (coordenados com Netanyahu, segundo um ministro israelita) destinavam-se principalmente aos ouvidos da direita israelita? Segundo esse ministro, a questão do incentivo à migração voluntária palestiniana está agora de novo na ordem do dia, tal como os partidos de direita há muito desejavam – e muitos no Likud de Netanyahu esperavam. Música para os seus ouvidos.
Foi então um movimento preventivo Trumpiano, concebido para salvar o governo de Netanyahu do colapso iminente da segunda fase do cessar-fogo e da ameaça de uma saída do seu contingente de direita? Era o público-alvo de Trump neste caso os Ministros Ben Gvir e Smotrich?
Trump confunde-nos deliberadamente – nunca deixando claro em nenhum momento para que público ele está a dirigir-se nas suas elucubrações.
Existirá, no entanto, alguma substância sedimentada no comentário de Trump de que qualquer Estado Palestiniano deve ser resolvido ‘de alguma outra forma’ que não a fórmula de dois Estados? Talvez. Não devemos descartar as fortes inclinações de Trump para Israel.
Netanyahu enfrenta duras críticas pela má-gestão do cessar-fogo em Gaza e no Líbano. Ele foi culpado de prometer uma coisa a uma parte e o contrário à outra (um velho vício): prometeu à direita um regresso à guerra em Gaza, mas comprometeu-se com o fim inequívoco da guerra no atual acordo de cessar-fogo. No Líbano, Israel comprometeu-se a retirar-se até 26 de Janeiro, por um lado, mas os seus militares continuam lá, provocando uma onda humana de libaneses que regressam ao sul, na esperança de recuperar as suas casas.
Consequentemente, Netanyahu nesta conjuntura está totalmente dependente de Trump. As artimanhas do primeiro-ministro não serão suficientes para o tirar de apuros: Trump tem-no onde o quer. Trump terá cessar-fogo, e dirá a Netanyahu, nenhum ataque ao Irão (pelo menos até que Trump tenha explorado a possibilidade de um acordo com Teerão).
Com Putin e com a Rússia, é o contrário. Trump não tem nenhum meio de pressão (a palavra favorita em Washington, “leverage”). Ele não tem nenhum meio de pressão por quatro razões:
Em primeiro lugar, uma vez que a Rússia recusa firmemente a ideia de qualquer compromisso que “se resuma a congelar o conflito ao longo da linha de compromisso, o que dará tempo aos EUA e à NATO para rearmarem o que resta do exército ucraniano – e então iniciar uma nova ronda de hostilidades”.
Em segundo lugar, porque as condições de Moscovo para acabar com a guerra se revelarão inaceitáveis para Washington, uma vez que não seriam susceptíveis de serem apresentadas como uma ‘vitória’ americana.
Em terceiro lugar, porque a Rússia tem uma clara vantagem militar: a Ucrânia está prestes a perder esta guerra. As principais fortalezas ucranianas estão agora a ser tomadas pelas forças russas sem resistência. Isto conduzirá, em última análise, a um efeito de cascata. A Ucrânia pode deixar de existir se não se realizarem negociações sérias antes do verão, alertou recentemente o chefe da Inteligência Militar Ucraniana Kyrylo Budanov.
Mas em quarto lugar, porque a história não se reflecte de forma alguma na palavra “leverage” [n.t., trunfo, meio de pressão]. Quando os povos que ocupam a mesma geografia têm versões diferentes e muitas vezes irreconciliáveis da história, a ‘divisão do espectro de poder’ transacional Ocidental simplesmente não funciona. Os lados opostos não se moverão – a menos que alguma solução reconheça e tenha em conta a sua história.
Os EUA precisam sempre de ‘ganhar’. Então, compreenderá Trump que a dinâmica inelutável desta guerra milita contra a apresentação de qualquer resultado transacional como uma clara ‘vitória’ dos EUA? É claro que ele compreende (ou compreenderá, quando profissionalmente informado pela sua equipa).
A lógica da situação na Ucrânia, para ser franco, sugere que o Presidente Putin aconselhe discretamente o presidente Trump a afastar–se do conflito na Ucrânia – para evitar ser ele a assumir um fracasso Ocidental.
Putin sugeriu esta semana que o conflito na Ucrânia poderia terminar em semanas, Então Trump pode não ter uma longa espera.
Se Trump quiser uma ‘vitória’ (altamente provável que o queira), então ele deve ser guiado pelas muitas dicas de Putin: implantações intermédias de mísseis por ambas as partes estão a criar uma situação de maior risco e ‘clamam’ por um novo Acordo de limitação de armas. Trump poderia dizer que nos salvou a todos da 3ª guerra mundial – e poderia haver mais do que um grão de verdade nisso.
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[1] N.T. Tulsi Gabbard é uma jovem política dos EUA que foi deputada na Câmara dos Representantes pelo partido Democrata de 2013 até 2021. Em 2022 abandonou o partido Democrata e em 2024 juntou-se ao partido Republicano. O Comité de Inteligência do Senado aprovou (por 9 contra 8 votos) em 3 de Fevereiro passado a controversa Tulsi Gabbard como Diretora de Inteligência Nacional nomeada por Trump. A decisão irá agora ser submetida ao pleno do Senado.
O autor: Alastair Crooke [1949-] Ex-diplomata britânico, fundador e diretor do Fórum de Conflitos, uma organização que advoga o compromisso entre o Islão político e o Ocidente. Anteriormente, era uma figura de destaque tanto na inteligência britânica (MI6) como na diplomacia da União Europeia. Era espião do Governo britânico, mas reformou-se pouco depois de se casar. Crooke foi conselheiro para o Médio Oriente de Javier Solana, Alto Representante para a Política Externa e de Segurança Comum da União Europeia (PESC) de 1997 a 2003, facilitou uma série de desescaladas da violência e de retiradas militares nos Territórios Palestinianos com movimentos islamistas de 2000 a 2003 e esteve envolvido nos esforços diplomáticos no Cerco da Igreja da Natividade em Belém. Foi membro do Comité Mitchell para as causas da Segunda Intifada em 2000. Realizou reuniões clandestinas com a liderança do Hamas em Junho de 2002. É um defensor activo do envolvimento com o Hamas, ao qual se referiu como “Resistentes ou Combatentes da Resistência”. É autor do livro Resistance: The Essence of the Islamist Revolution. Tem um Master of Arts em Política e Economia pela Universidade de St. Andrews (Escócia).



