EVA CRUZ – O ESCAPULÁRIO

 

Já o dia ia no fim, embora o brilho do sol ainda se deleitasse acariciando a areia naquela tarde de princípios de Fevereiro. Acabava eu de estudar com os meus netos e preparava-me para uma trégua com um chazinho em casa ou numa das lindas pastelarias que por ali abundam. Entre outras coisas, tinha ajudado a minha neta na interpretação do “Frei Luís de Sousa”, de Almeida Garrett. Como todos sabem, é um drama em três actos que termina numa total tragédia em que Maria, a dita filha do pecado, morre em cena, e os pais, D. Madalena de Vilhena e D. Manuel de Sousa Coutinho, reconhecendo a ilegitimidade do seu casamento, abraçam a desgraça e tentam redimir-se vestindo o hábito e pondo ao peito o escapulário, entregando-se de seguida à clausura do convento.

Os meus netos, que têm pouca cultura religiosa, perguntaram-me o que era o hábito, julgando que seria um costume. E um escapulário? Palavra que nunca tinham ouvido e lhes riscava nos lábios um sorriso maroto. Quanto ao hábito, não tive dificuldade em explicar-lhes, dizendo que se tratava das vestes compridas usadas pelas freiras e monges, de acordo com a Ordem ou a organização religiosa a que pertenciam. No que respeita ao escapulário, senti-me um tanto embaraçada e estava a ver o caso malparado. De repente, lembrei-me de um saquinho muito delicado, quase a delir-se, que morava e sempre me acompanhava no fundo da carteira, guardando quase secretamente um escapulário que pertencera a minha mãe. Minha mãe, não sendo beata, era uma pessoa muito devota e pertencia à Irmandade da Senhora do Carmo. Trazia sempre com ela o tal saquinho, que eu lhe oferecera, e dentro dele um escapulário. Antes de falecer, colocou-o carinhosamente nas minhas mãos, pois achava, segundo a sua crença, que era uma protecção física e espiritual para quem o trouxesse sempre consigo. Guardei-o com todo o meu afecto, e sem saber explicar e sem saber bem o que ali trazia, sempre me acompanhou durante a vida no fundo das carteiras. Procurei-o então, e foi com grande emoção que o abri. Nunca o tinha feito desde o dia em que minha mãe partiu. Dentro tinha um pedacinho de pano castanho com uma provável imagem, irreconhecível de tão gasta, e um fio da mesma cor para pendurar ao pescoço. Juntamente com ele descobri o terço com que eu sempre a vira rezar e percorrer os mistérios. Os meus netos sorriram, um tanto desconfiados e surpreendidos pela súbita e inesperada aparição. Pela primeira vez viram um escapulário, sem saberem para o que servia. Não sei o que pensaram. Para lhes explicar o que era e o seu significado, informei-me o melhor que pude, e disse-lhes que escapulário tem origem na palavra latina “Scapula” que significa protecção e devoção. Era por essa razão que os crentes o traziam ao peito. Tradicionalmente era feito de pano, mas hoje existem escapulários em prata e ouro, considerados verdadeiras joias ou adereços de moda. Se são benzidos ou consagrados não sei, como também não sei se os consideram amuletos de protecção. Este meu é de certeza, porque traz a bênção de minha Mãe, a melhor protecção do mundo.

 

 

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