‘Embora os governos tenham o direito de se defender, não devem fechar os olhos para homens, mulheres e famílias que precisam de ajuda. Deportar pessoas que, em muitos casos, abandonaram suas terras por motivos de extrema pobreza, insegurança, exploração, perseguição ou grave deterioração do meio ambiente, fere a dignidade de homens e mulheres e de famílias inteiras, e deixa-os indefesos e coloca-os num estado de particular vulnerabilidade’.
Estas palavras são o cerne de uma carta do Papa Francisco aos bispos católicos dos states, a criticar o eleito presidente, sobre a deportação em massa que tal fulano parece determinado em fazer; mas a carta ainda inclui um aviso aos funcionários do governo – O que é construído com base na força, e não na verdade sobre a dignidade igual de cada ser humano, começa mal e terminará mal.
Palavras que reforçam as do poema da portuguesa Emma Lazarus, escrito em 1883, e que está na base da Estátua da Liberdade; Emma era descendente de um dos integrantes do grupo de 23 judeus sefarditas chegados a Nova York em 1654, depois de fugirem da conquista portuguesa da colónia holandesa no que é hoje o Brasil, de acordo com a explicação fornecida pelo New York City Museum.
E diz o poema, nos décimo, décimo segundo e décimo terceiro versos, referindo a mulher representada na estátua,
“Mantenham antigas terras sua pompa histórica!” grita ela Com lábios silenciosos “Dai-me os seus cansados, os seus pobres, As suas massas encurraladas ansiosas por respirar liberdade”
Antes de passar o poema, devo acrescentar que Emma era filha do refinador de açúcar Moses Lazarus, membro da elite social da cidade; o seu tio avô Moses Mendes Seixas, conhecera George Washington. Quando o pai começou a trabalhar na Sociedade de Ajuda ao Emigrante Hebraico, também ela se lançou a tratar temas judaicos em poesia. O manuscrito do poema entrou na colecção do Museu da Cidade de Nova York em 1936, quando Roosevelt re-dedicou a estátua.
Este é o poema completo de Emma Lazarus:
Não como o gigante bronzeado de grega fama, Com pernas abertas e conquistadoras a abarcar a terra Aqui nos nossos portões banhados pelo mar e dourados pelo sol, se erguerá Uma mulher poderosa, com uma tocha cuja chama É o relâmpago aprisionado e seu nome Mãe dos Exílios. Do farol de sua mão Brilha um acolhedor abraço universal; os seus suaves olhos Comandam o porto unido por pontes que enquadram cidades gémeas.
“Mantenham antigas terras sua pompa histórica!” grita ela Com lábios silenciosos “Dai-me os seus cansados, os seus pobres, As suas massas encurraladas ansiosas por respirar liberdade O miserável refugo das suas costas apinhadas. Mandai-me os sem abrigo, os arremessados pelas tempestades, Pois eu ergo o meu farol junto ao portal dourado”
Poema Emma LazarusNew York City Museum
Não tenho intenção de dar qualquer carácter religioso a esta Carta, mas reforçar apenas a importância das citações de que me sirvo hoje. Depois da citação da tirada da carta do Papa Francisco aos bispos americanos, com que comecei, aqui fica também a do sacerdote e filósofo Anselmo Borges, tirada agora da crónica semanal no DN de 24.12.01, ‘Se tivéssemos tempo para nos sentarmos e meditar e escutar o silêncio e a voz da consciência, teríamos evitado tantos erros e disparates e tragédias!… Anda por aí um barulho ensurdecedor, mas quem ouve o silêncio no qual se acendem as palavras da sabedoria?’
E será que os autocratas (do ouro, das armas e do poder) têm quietude e entendimento para o fazer?
António M. Oliveira
Não respeito as normas que o Acordo Ortográfico me quer impor